Uma reportagem do jornal A Tarde de Salvador.
Justiça
Caetano perde visto especial por dizer que Laden é bonito
NOVA IORQUE – Por ter dito que Bin Laden era bonito, Caetano Veloso não
conseguiu o visto especial que costumava receber para entrar nos Estados
Unidos, o cobiçadíssimo O1, que é emitido só para pessoas de reconhecido
talento.
Oficialmente, o serviço de imigração americano alegou razões burocráticas
e culpou os organizadores dos dois shows que o músico brasileiro fará na próxima
semana no Carnegie Hall de não terem cumprido o ritual burocrático para dar
ao brasileiro as facilidades de praxe na hora de desembarcar no aeroporto, além
do direito de trabalhar e ficar no país após o fim do contrato para os espetáculos.
Mas, extra-oficialmente, as razões são políticas e não meramente burocráticas.
Foi por causa das críticas aos Estados Unidos e de declarações consideradas
simpáticas a Bin Laden que o serviço de imigração não teria dado o visto
especial para Caetano. Segundo as autoridades americanas, dificilmente o
compositor brasileiro terá de novo direito a esse tipo de visto. Não caíram
no esquecimento as frases de Caetano, que, apesar de ter condenado o ataque ao
World Trade Center no 11 de setembro, teria declarado que Bin Laden era
bonito.
Em novembro de 2001, durante entrevista coletiva para divulgar o lançamento
do CD “Noites do Norte ao vivo”, Caetano afirmara que não apoiava de
maneira alguma as atividades de Osama Bin Laden. Mas, perguntado sobre charges
que circulavam na época na Internet em que ele aparecia caracterizado como o
líder da al Qaeda, o compositor baiano respondeu: “Mas ele é um homem
bonito e se parece com algumas pessoas da minha família”.
RIGORES DA LEI – Ficou tudo registrado e, por causa dos comentários sobre o
chefe da al Qaeda, o compositor brasileiro recebeu agora tratamento com base
nos rigores da lei: teve direito só a um visto P-3 para o período entre 10 e
20 de abril, tempo que cobre a duração do contrato com o Carnegie Hall.
Para tentar conseguir o visto especial, a equipe do show de Caetano Veloso
apelou ao consulado brasileiro em Nova Iorque, seguindo o conselho das
autoridades americanas no Rio, que estranharam a mudança no carimbo do
passaporte do músico, mas se disseram incapazes de garantir o visto O1 a que
ele e todas as pessoas de talento excepcional têm direito e que Caetano
sempre recebeu.
Apesar das boas relações entre o consulado brasileiro e o serviço de imigração
em Nova Iorque, foi impossível conseguir a mudança no documento de viagem de
Caetano. A negociação agora é no sentido de conseguir autorização para
uma permanência do músico por um período maior nos EUA, o que certamente
acontecerá segundo opinião de todos os lados.
No entanto, na semana passada, nas entrevistas para o lançamento de seu novo
disco, “A foreign sound”, apenas com canções americanas (de Cole Porter
a Nirvana, de Gershwin a Stevie Wonder), a posição de Caetano era de nadar
contra a corrente. Num momento em que o mundo vive uma fase de
antiamericanismo, ele exaltou a beleza do cancioneiro produzido nos EUA.
A empresária Paula Lavigne, também mulher do cantor, tem uma visão mais
pragmática de toda essa confusão: acha que houve uma falha dos produtores do
Carnegie Hall. Segundo ela, o visto especial custaria US$ 5 mil e a produção
teria optado pela solução mais barata. Além de lançar nos EUA “A foreign
sound”, Caetano é o principal artista da série de shows
“Perspectives”, que vai apresentar na célebre sala de concertos de Nova
Iorque artistas brasileiros como Mart’Nália, AfroReggae e Virgínia
Rodrigues.