julho 18, 2005

A natureza do medo

Guimarães Rosa (*)

naturezadomedo-toddgipstein-shot-of-a-white-windmill-with-triangular-sails.jpg Quem muito se evita, se convive. Por todo o mal que faz, um dia se repaga, o exato. Quem que diz que na vida tudo se escolhe? O que castiga, cumpre também. Não convém a gente levantar escândalo de começo. Só aos poucos é que o escuro é claro.

Vingar é lamber, frio, o que o outro cozinhou quente demais. A cada hora de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo. Medo agarra a gente é pelo enraizado. Queria entender do medo e da coragem, do que empurra a gente por fazer tantos atos, dar corpos ao suceder. O que induz a gente para as más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito. E não sabe, não sabe, não sabe. O que medo é? Um produzido dentro da gente. Um depositado. E que às horas se mexe, sacoleja. A gente pensa que é por causas: por isso e aquilo, coisas que só estão é fornecendo espelho. Mas o cabedal é um só, do misturado de todos, que mal varêia e as coisas cumprem norma. Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para a gente. Mas, se a gente firme agüentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e trescobra, que até espanta. Acho que eu tinha conciso medo dos perigos. O que eu descosturava era o medo de errar. De cair na boca dos perigos por minha culpa. Hoje sei: medo meditado, foi isso. Medo de errar é que é a minha paciência. Pudesse tirar de si esse medo-de-errar, a gente estava salva.

(*) Adaptação livre de Zélia Nascimento de "Grande Sertão Veredas"
Publicado na revista JB Ecológico em 26 de maio de 2002

[Imagem: Todd Gipstein, "Shot of a White Windmill with Triangular Sails"]

Posted by Lilia at julho 18, 2005 08:18 AM
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