julho 17, 2005

EU ME AMO

A auto-estima é tudo na história de uma pessoa: ela interfere no que fazemos, em todas as áreas. De um pedido de emprego a uma conquista amorosa. É o que dá estrutura e base à nossa existência. Vamos aprender a mantê-la em alta para encarar a vida com mais alegria, confiança e tranqüilidade.

HELOÍSA NORONHA

eumeamo-Lichtenstein-Aloha.jpg Em 1985, a cantora norte-americana Whitney Houston conquistou as paradas de sucesso com a música The Greatest Love of All, originalmente gravada por George Benson nos anos 70. É uma pena que, nos anos seguintes, a estrela não conseguiu aproveitar os conselhos tão sábios da canção, uma ode à importância da auto-estima - o maior amor de todos é o amor que sentimos por nós mesmos, diz o refrão. Whitney batalha até hoje para se livrar dos efeitos do álcool, das drogas e dos relacionamentos destrutivos, sinais evidentes de que durante muito tempo não esteve satisfeita com a própria vida e consigo mesma.

A boa auto-estima, assim como a saúde, é uma condição essencial para ser feliz. Mas, diferentemente do equilíbrio físico e psíquico, que muitas vezes sofre influências alheias à nossa vontade, a auto-estima positiva só depende de nós. E essa felicidade que caminha ao lado dela não é aquela alegria forjada de comercial de margarina, e sim algo que acontece nas entrelinhas do dia-a-dia: capacidade de acreditar nas próprias qualidades, maturidade para aceitar os defeitos e limitações, ânimo para seguir em frente apesar das dificuldades, orgulho das conquistas, aprendizado com os erros. Ter uma boa auto-estima é, sobretudo, enxergar a si mesma da maneira que você é - e gostar disso. "É se amar e se respeitar", sintetiza a psicóloga Sandra Samaritano, do Instituto Paulo Gaudencio, de São Paulo.

Todo mundo tem auto-estima, nem que seja baixa. Segundo o psicanalista Elko Perissinotti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, há inclusive uma predisposição genética para nascer com mais ou menos autoconfiança. Mas isso não é um fator definitivo. "Cabe aos pais se preocupar com o desenvolvimento da personalidade da criança. Essa tendência pode ser modificada", assegura. Especializada em orientação infantil, a psicóloga Suzy Camacho, autora do livro Guia Prático dos Pais (Green Forest), concorda com Perissinotti e afirma que a auto-estima da criança se constrói conforme o meio em que ela vive, o que inclui a família e a escola. "Os sete primeiros anos de idade são importantíssimos, pois envolvem as referências de mundo. A criança aprende o que é ser magro ou gordo, alto ou baixo, por exemplo. Se ela ouve que é desastrada e bagunceira, vai acabar acreditando nisso", destaca.

O conteúdo do que escutamos na infância, inclusive, é crucial para determinar o nível da nossa auto-estima. Frases como "Por que você não é tão estudioso quanto o seu irmão?", "Se continuar assim você nunca vai ser nada" e "Pare de colocar o dedo no nariz ou não vou gostar mais de você" provocam anos de cicatrizes profundas, marcadas por culpa, vergonha e medo. "O grande erro de alguns pais é criticar diretamente o filho, em vez de condenar a atitude. Comparações com outras crianças também precisam ser evitadas", sentencia Suzy. Ou seja, o certo seria dizer: "estudar pouco fará com que repita de ano" ou "cutucar o nariz é muito feio".

Para a psicóloga Sandra Samaritano, a maior demonstração de amor que os pais podem dar aos filhos é a imposição de limites, algo essencial para a formação da boa auto-estima. "Às vezes, as crianças até reclamam das decisões dos pais, mas é inegável que, no fundo, se sentem queridas e confortáveis, pois sabem que alguém se preocupa com o bem-estar delas", diz.

Ao contrário das gerações anteriores, hoje em dia é comum ver crianças pequenas com uma auto-suficiência de dar inveja ao mais ponderado dos adultos. De acordo com os especialistas, isso é fruto da maior busca por informação, já que os pais costumam recorrer a respostas na psicologia para suas dúvidas, e também de um certo preparo precoce para lidar com a vida - resultado, também, das dores e das delícias do mundo moderno. "É preciso prestar atenção, porém, se não está havendo permissividade na educação, o que gera níveis elevados de segurança nos pequenos, que se sentem capazes de tudo", alerta Sandra.

Benefícios valiosos
Pode haver a falsa impressão de que a vida é um verdadeiro mar de rosas para quem se gosta e se curte. Não é bem assim. O que acontece é que amar a si mesma e se aceitar permite circular pelo mundo com mais segurança. Ninguém está imune à dor, à decepção ou ao fracasso, evidentemente. No entanto, pessoas com auto-estima elevada não entregam os pontos por muito tempo. "Elas são dotadas de um incrível senso de resiliência, que é a capacidade de suportar as frustrações e extrair algo de positivo delas", diz o psicanalista Elko Perissinotti. No campo profissional, são pessoas que não têm medo de tomar a iniciativa ou de expor idéias e projetos. No plano afetivo, são mais felizes e estabelecem relações de igual para igual - a velha máxima de que é preciso primeiro se gostar, para depois gostar de alguém, é verdadeira.
Por outro lado, não seria exagero afirmar que quem tem baixa auto- estima leva uma vida de mentira. "A pessoa é mais observadora do que atuante", comenta a psicóloga Suzy Camacho. Outras características típicas: timidez, pessimismo, complexo de inferioridade, mania de bancar a vítima, boicotes. Há tendência para desenvolver compulsões (por comida, jogo, bebida ou drogas) e a se envolver em relacionamentos amorosos destrutivos - com direito à violência, inclusive.

Para o psicanalista lacaniano Jorge Forbes, o conceito de auto-estima é amplo, e inclui também o desejo de aceitação pelos outros das nossas escolhas e realizações. Segundo ele, a auto-estima tem duas fontes fundamentais: a aprovação alheia e a responsabilidade pessoal do que se deseja. "É comum a pessoa perder muito tempo montando estratégias de captura de sua aceitação pelos outros. O fracasso é previsível porque os outros, a quem se pede aprovação, estão em situação semelhante. Em graus variados, todo mundo questiona, no dia seguinte aos aplausos, como será possível mantê-los", exemplifica. Disso, tiramos um conselho: satisfazer a nós mesmos em primeiro lugar, e sermos fiéis aos nossos desejos e vontades. O resto é conseqüência.

Perigos e soluções
O excesso de auto-estima também é prejudicial e, para o psicanalista Jorge Forbes, sinal de alienação. "Além de conduzir à solidão, é paralisante", afirma. "A pessoa pode demonstrar uma falsa superioridade para amenizar a angústia emocional", opina Elko Perissinotti. "Excesso de auto-estima é diferente de arrogância, que esconde uma enorme insegurança", salienta Sandra Samaritano.

As experiências da infância podem contribuir para esse problema. Suzy Camacho, mais uma vez, lança mão do exemplo das frases dos pais. Compare a diferença entre "Você é a criança mais linda da escola" e "Para mim, você é a criança mais linda da escola". "No primeiro caso, por mais afeto que contenha, o elogio não é verdadeiro. No segundo, a afirmação cede espaço para uma opinião", argumenta Suzy. E qual será o resultado de crescer com a idéia falsa de que se é o centro do universo? Adultos infelizes e frustrados, com a sensação amarga de que foram enganados.

E o que fazer quando chegamos à idade madura com baixa auto-estima? É possível reverter esse quadro e trabalhar a autoconfiança? Sim, em qualquer fase da vida. O primeiro passo, do ponto de vista da psicóloga Sandra Samaritano, é parar de usar o passado como desculpa. Apesar de a forma como fomos criados estabelecer o nível da auto-estima, a educação que recebemos não deve ser usada como desculpa para continuarmos tristes e descrentes. "O passado é uma zona de conforto, sim. Só que o resgate da auto-estima depende de atravessá-la", diz Sandra. O trabalho de reorganização interior e de revalorização não é fácil, mas tem como prêmio o controle da vida - quem tem baixa auto-estima fica à mercê da opinião alheia, pois a própria de nada vale. Caso seja difícil enfrentar esse processo sozinha, é recomendável buscar terapia individual ou em grupo. O psicólogo Elko Perissinotti aconselha a prática de técnicas alternativas como yoga, tai chi chuan e meditação para reencontrar o equilíbrio interno, e esportes em geral, principalmente a hidroginástica.

"É uma atividade em grupo, o que favorece a sociabilização. E a água tem o valor simbólico da vida, do útero da mãe. Ela transmite carinho, aconchego, paz. Costumo recomendá-la para pacientes com depressão", diz Perissinotti. Embora muitos médicos façam vista grossa para livros e cursos de auto-ajuda, eles têm valor, sim, para conscientizar sobre atitudes erradas. E, por último, Sandra Samaritano recomenda prestar mais atenção nas críticas que, por acaso, receba. "O inimigo fala de mim pelas costas. O amigo fala para mim e funciona como uma espécie de espelho, que reflete quem eu sou."

Fonte: Revista Uma

[Image: Lichtenstein, "Aloha"]

Posted by Lilia at julho 17, 2005 09:29 PM
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