julho 22, 2005

Reposição hormonal, o erro previsível

José Carlos Brasil Peixoto

reposicaohormonal-Modigliani-seated-nude.jpg Aos poucos vão surgindo notícias e mais notícias sobre os problemas de uma estratégia terapêutica, eufemisticamente chamada de terapia de reposição hormonal. Agora surge a triste perspectiva de haver um incrível incremento de transtornos circulatórios cerebrais (triplica o risco de derrame, entre outros problemas). Já há estudos suficientes que demonstram o aumento no risco de câncer de mama, e uma série de outras enfermidades.

Bem, cabe no mínimo perguntar, o que deu errado? Talvez seria melhor perguntar, porque deu errado. Ou quem sabe, poderia dar certo?

Quando falamos de reposição hormonal, estamos falando de um procedimento médico criado, ou pelo menos difundido por um médico nova-iorquino chamado Robert Wilson. Ele entendia que a mulher perderia seus principais atributos de feminilidade com a parada da menstruação. Mas isto não seria o fim. As mulheres não perderiam os seus atrativos para os homens. Já havia pelo menos um remédio para isto. O laboratório Wyeth já havia lançado o PremarinÒ, que rapidamente se transformou num dos medicamentos mais vendidos nos EEUU e no mundo. Seu rótulo é atraente: estrógenos conjugados naturais.

Nestes quase 40 anos ocorreu algo muito interessante. Faltou curiosidade. Faltou fazer algumas perguntas tão óbvias, que talvez por isso nem foram feitas.

O dr. Wilson afirmou que a menopausa é um problema, e é um problema causado pela baixa de estrogênios na mulher – ponto! “Feminine forever” (1966) foi um livro de incrível sucesso e prometia a juventude eterna para o público feminino, garantindo assim a atratividade para os homens. Nada mais machista.

No início reposição hormonal era apenas a reposição de estrogênios. Mas um significativo aumento no câncer de útero quase levou a primeira fase desta terapia a um fracasso mórbido. Isso foi contornado com o uso de progestinas (substâncias artificiais que imitam as funções da progesterona), e que têm como ícone a medroxiprogesterona (Farlutal Ò) o que levou tal tratamento ao ápice nos anos 90, quando até o coração poderia ser protegido.

O dr. John Lee, mais curioso que seus colegas, se lembrou de fazer perguntas e chegou às respostas. Em primeiro lugar a menopausa em si não é um problema médico a ser tratado. Em segundo lugar a menopausa sintomática não é devido à baixa hormonal simplesmente. É devido a uma baixa desequilibrada de taxas hormonais, uma vez que a progesterona baixa em demasia (quase a zero), fazendo que o estrogênio, mesmo baixando, fique sempre ativo (predominância estrogênica). Em terceiro lugar, devido à precisão nos receptores hormonais, é imperativo que se use hormônios bio-idênticos, o que não ocorre com as progestinas sintéticas, nem mesmo com os estrogênios conjugados (são naturais e idênticos para os eqüinos, não para o ser humano).

Logo, a terapia de reposição hormonal nunca passou de um título atrativo, mas grosseiramente equivocado: o que falta, se faltasse é a progesterona (o protocolo previa o uso de estrogênios e progesterona como coadjuvante), e o que se adiciona são substâncias distintas das necessários (falta bio-identidade), além de usarem como via de administração a via oral, o que provoca uma fratura metabólica, pela primeira passagem no fígado. Além do mais, reduziu esta questão ao aspecto biológico, esquecendo de integrar aos transtornos da menopausa as questões psicológicas, alimentares, sócio-culturais, entre outras, dentro do universo de contextos que o drama da mulher pode estar inserido.

Com tantos vícios de origem, e um grande desrespeito com a ecologia feminina, o inusitado é a surpresa que a opinião pública demonstra com a divulgação de tantos estudos que incriminam este tipo de tratamento.

Quando o ser humano foge demais da natureza, o preço a ser pago costuma ser muito alto. Talvez mais alto em sofrimento do que os bilhões de dólares que a venda destes medicamentos já gerou nestas últimas décadas.

(Livro: “A menopausa e os segredos dos hormônios femininos” de José C B Peixoto, 104 pgs., site: www.novatrh.cjb.net; site: www.johnleemd.com)

(Premarin (PREgnant MARes' urINe) é um composto de estrogênios extraídos da urina da égua prenha, que tem elementos diversos daqueles encontrados no ser humano, e em proporções bem distintas. Sobre isto ver o site: http://www.npr.org/news/specials/hrt, em 2002 era o quarto medicamento mais prescrito nos EEUU.)

[Imagem: Modigliane, "Seated Nude"]

Posted by Lilia at julho 22, 2005 04:31 PM
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