agosto 04, 2005

Canos fumegantes

Maria Helena Matarazzo*

canosfumengantes-AlfredGockel-Endless-Love.jpg Parceiros descontrolados podem destruir uma relação se, por irrelevâncias, armarem brigas explosivas. Mas a raiva é um sentimento básico, e relacionamentos sadios possuem espaço para que o casal a expresse

A psicoterapeuta americana Bonnie Maslin, no livro " Até que a raiva nos separe?" (Editora Ática), observa que todos conhecemos casais raivosos: aqueles que vivem em uma espécie de estado irascível e, por questões que aos outros parecem irrelevantes, se atacam. A especialista divide os raivosos em dois tipos: os expansivos e os provocadores.

De acordo com ela, os expansivos são aqueles cuja relação é altamente inflamável. Discutem, brigam, batem os pés. A batalha eclode por tudo e por nada, e seu arsenal de insultos e acusações não tem fim. Pode até ocorrer que alguns expansivos controlem a raiva e só a soltem após se acomodarem no carro ou assim que as crianças estejam na cama, supostamente dormindo. Mas para os outros o sentimento é irrefreável: explodem no restaurante, em uma festa, na casa da sogra.

Públicas ou não, as brigas são sempre visíveis e audíveis. O que, para um casal comum, começaria com uma pequena discussão, mera descarga de tensão, entre os expansivos degringola em xingamentos e ameaças: "Talvez eu tenha mesmo um caso com ele!", "Você é que é louca!" - para não mencionar frases impublicáveis. As cenas terminam com saídas dramáticas, quebras de objetos, violentas batidas de porta e até agressões físicas.

Infelizmente, as brigas não levam a nada e apenas jogam lenha na fogueira, pois são os medos e as carências de cada um, normalmente inconscientes, que as provocam. Por não entenderem o que ocorre, nada é elaborado pelo casal; muito menos resolvido.

Quanto aos parceiros do tipo provocador, em geral só um deles é raivólatra - sem controle sobre a ira que o move. O outro resmunga e fica aborrecido. Um exemplo cotidiano: o provocador que se atrasa na hora combinada, enquanto o outro sente a pressão subir e, com o tempo, enlouquece.

Evidentemente, pode ocorrer que tanto o homem quanto a mulher tenham o pavio curto; nesse caso, um dos parceiros costuma ser ativo, enquanto o outro é passivo. O primeiro deixa a frustração jorrar livremente; o segundo, a reprime, fumegante. Isso não significa que a raiva, liberada de jeito miúdo e indireto, inexista. Entretanto, o efeito final é o mesmo: um sentimento crescente de inutilidade e desesperança. Esgotados um pelo outro, os provocadores fermentam a raiva e fervem, até que um explode e o outro implode.

Todo casamento raivoso precisa de ajuda, mas não da intervenção de pessoas amigas, procuradas para dar consolo, e que terminam fazendo acusações ou oferecendo conselhos, e, com freqüência, tomando partido.

Para superar o impasse, o essencial é empenhar-se na difícil tarefa do autoconhecimento. Porque quanto mais nos conhecemos - e é preciso tomar coragem para de fato sabermos quem somos, quais as circunstâncias que nos formaram -, maior a descoberta dos nossos sentimentos profundos, nossos medos, nossas carências.

É só com o autoconhecimento persistente, assumido, corajoso, que aprendemos a administrar a raiva, se somos expansivos. E, se provocadores, aprendemos a reparti-la. Em ambos os casos, a devolver-lhe a sua função original: uma forma de comunicação, por meio da qual o casal expressa suas necessidades para obter o que precisa um do outro.

Todos somos capazes de percorrer essa trilha em busca de nós mesmos. Se for necessário, devemos procurar ajuda na terapia. Vale a pena, no final da busca, encontrar uma pessoa compreensiva e generosa. Vale a pena encontrar caminhos construtivos para nos expressar. Vale a pena concluir que amamos a pessoa com quem tanto brigamos.

* Maria Helena Matarazzo é sexóloga e autora de, entre outros, "Coragem para Amar", da Editora Record.

Fonte: Mais de 50

[Imagem: Alfred Gockel, "Endless Love"]

Posted by Lilia at agosto 4, 2005 09:24 AM
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