Dr. Mário Carabajal – Ph.D.
Você já observou quem está a sua volta? Alguns são bem humorados, passam felicidade, contagiam o ambiente e atraem as atenções de todos. Já os sisudos, tornam as coisas mais difíceis, mais pesadas. Entre um e outro – como a noite e o dia, sentimo-nos motivados e depressivos – alegres e infelizes – relaxados e tensos – vívidos e angustiados.
Onde encontram-se as chaves para a felicidade? Nas pessoas que nos cercam ou dentro de nós? Nos planos e projetos – na saúde e trabalho – nos esportes e lazer? Sabemos que algumas pessoas vivem mais que outras, mas, que segredinho é este?
Após analisar uma amostra superior a 1.500 pessoas, inclino-me a afirmar que as pessoas mais bem humoradas polarizam os meios, fazendo com que pequenas e grandes decisões, empresariais e políticas, girem a sua volta. São seres como pólos energéticos, como ímãs.
Através dos recentes avanços da bioeletrografia, constatamos o entrecruzamento das energias humanas, também, de infinitas trocas energéticas entre os seres e os objetos. Existem campos de energia com maior e menor “quantum” de irradiação, - o que provocam mudanças nos limiares de outros seres e mesmo objetos.
A energia é uma realidade inquestionável, ela existe em tudo e também nos seres. Cada célula humana armazena entre 40 e 90 mini-voltz.
Os bem humorados tem uma maior capacidade de armazenamento de energia e suportam melhor as tensões.
Todo os processos psiconeuro e biofisiológicos, mecânicos e extra-corpóreos, sociais, são dependentes de energia. Em todos os momentos, trocas ocorrem, modificando os limiares dos objetos e pessoas sob o nosso raio bioeletromagnético. Quem já não passou frente a um aparelho de televisão, rádio, ou mesmo ao pentear-se, e notou a existência e presença da energia?
Nas 1.500 pessoas analisadas, aquelas que tinham um maior senso de humor, energeticamente, polarizavam seus pares. Uma significativa redução nos níveis de estresse – muitos pacientes que queixavam-se de algum tipo de dor, frente ao riso, tinham suas dores minimizadas.
Alguns efeitos do riso sobre o organismo:
- O hormônio do estresse, que é produzido pelas glândulas suprarenais são reduzidos.
- Com o riso, suas lágrimas passam a ter mais imunoglobulinas, um anticorpo que é a sua primeira linha de defesa contra algumas infecções oculares provocadas por vírus e bactérias.
- Sua boca também passa a ter mais imunoglobunina, resultando em uma melhor função imunológica.
- O riso acelera a recuperação de convalescentes e é eficaz no combate a dor.
- O poder do riso, de ativar a produção de endorfinas, é tão eficiente quanto a acupuntura, o relaxamento, a meditação, os exercícios físicos e a hipnose.
- O nível de cortisol aumenta de forma nociva durante o estresse, diminuindo significativamente com o riso.
- A pressão sanguínea aumenta durante o riso e cai abaixo dos níveis de repouso depois.
- Há uma redução da tensão muscular depois do riso. Um dos principais fatores que contribui para as doenças ocupacionais, como a Dort – Distúrbio osteomuscular relacionado ao trabalho, é o excesso de tensão muscular.
- O ar é expelido em grande velocidade de sus pulmões e de seu corpo quando você dá uma boa gargalhada. Seu corpo todo é oxigenado – inclusive o cérebro. Este fenômeno contribui tanto para que você pense com clareza quanto para uma boa forma aeróbica.
- O riso possui um efeito antiinflamatório em suas juntas e ossos que contribui para reduzir a inflamação e aliviar a dor em condições artríticas.
- Durante o estresse, a glândula supra-renal libera corticosteróides que são convertidos em cortisol na corrente sanguínea. Níveis elevados de cortisol têm um efeito imunossupressivo – o riso reduz os níveis de cortisol, protegendo nosso sistema imunológico – o estresse é o elo entre a pressão alta, a tensão muscular, o sistema imunológico enfraquecido, enfarto, diabetes e muitas outras doenças. (Vencer, Dez/01, p. 50).
Fonte: Academia Letras Brasil
[Imagem: Djenne Mopti Mali, "Portrait Of A Young Girl Laughing"]
Mário Prata
Conta a história que dom Pedro II casou-se sem conhecer a sua noiva.
Tinha visto um quadro com a cara da princesa. Casamento de interesses políticos lá dos portugueses, fazer o que? E quando a moça chegou no porto do Rio de Janeiro - consta que ele fez uma cara emocionada. Pela feiúra da imperial donzela. Mas casou, era o destino, era a desdita.
Tenho um avô que foi pedir mão da moça e o pai dela disse: - Essa tá muito novinha. Leva aquela.
E ele levou aquela que viria a ser a minha avó. Ah, a outra morreu solteirona.
Quando aconteceu o grande boom da imigração japonesa, alguns anos depois, familiares que lá ficaram mandavam noivas para os que cá aportaram.
Tudo no escuro. E de olhinhos fechados, ainda por cima.
De uns tempo para cá, o conceito da escolha foi mudando. Até ir para a cama antes, valia. Ficava-se antes.
Só que agora, finzinho do finzinho do século, surgiu um outro tipo de casamento. O casamento de letras. Letras de textos. O texto - finalmente, digo eu, escritor - virou casamenteiro. Apaixona-se, hoje em dia, pelo texto. Via internet. Via cabo, literalmente.
Conheço quatro casos bem próximos. Gente que desmanchou o casamento de carne e osso por uma aventura no mundo das letras.
Claro que estou me referindo aos encontros via Internet. Começa no chat, com o texto. Gostou do texto, leva para o reservado. E lá, rola. Eu mesmo já me envolvi perdidamente por dois textos belíssimos. Moças de vírgulas acentuadas, exclamações sensuais e risos de entortar qualquer coração letrado ou iletrado.
Sim, pela primeira vez nesta nossa humanidade já tão velhinha, as pessoas estão se conhecendo primeiramente pela palavra escrita. E lida, é claro.
Já disse, isso envaidece qualquer escritor. Agora, o texto pode levar ao amor. Uma espécie de amor-de-texto, amor-de-perdição.
A relação, o namoro, começa ali no monitor. Você pode passar algumas horas, dias e até semanas sem saber nada da outra pessoa. Só conhece o texto dela.
E é com o texto que vai se fazendo o charme. Você ainda não sabe se a pessoa é bonita ou feia, gorda ou magra, jovem ou velha. E, se não for esperto, nem se é homem ou mulher. Mas vai crescendo uma coisa dentro de você. Algo parecidíssimo com amor. Pelo texto.
Pouco a pouco, você vai conhecendo os detalhes da pessoa. Idade, uma foto, a profissão, a cor. Inclusive onde mora. Sim, porque às vezes você está levando o maior lero com o texto amado e descobre que ele vem lá da
Venezuela. Ou do Arroio Chuí.
Mas se o texto for bom mesmo, se ele te encanta de fato e impresso, você vai em frente. Mesmo olhando para aquela fotografia - que deve ser a melhor que ela tinha para te escanear (ou seria sacanear, me perdoando o trocadilho fácil) você vai em frente. "Uma pessoa com um texto desses..."
A tudo isso o bom texto supera.
Quando eu ouvia um pai ou mãe dizendo "meu filho fica horas na Internet", todo preocupado, eu também ficava. Até que, por força do meu atual trabalho, comecei a navegar pela dita suja.
E descobri, muito feliz da vida, que nunca uma geração de jovens brasileiros leu e escreveu tanto na vida. Se ele fica seis horas por dia ali, ou ele está lendo ou escrevendo. E mais conhecendo pessoas. E amando essas pessoas.
Jamais, em tempo algum, o brasileiro escreveu tanto. E se comunicou tanto. E leu tanto. E amou tanto.
No caso do amor ali nascido, a feitura, o peso, a cor, a idade ou a nacionalidade não importam. O que é mais importante é o texto. O texto é a causa do amor.
Quando comecei a escrever um livro pela internet, muitos colegas jornalistas me entrevistavam (sempre a mim e ao João Ubaldo) perguntando qual era o futuro da literatura pela Internet.
Há quatro meses atrás eu não sabia responder a essa pergunta. Hoje eu sei e tenho certeza do que penso: - Essa geração vai dar muitos e muitos escritores para o Brasil. E muita gente vai se apaixonar pelo texto e no texto.
Existe coisa melhor para um escritor do que concluir uma crônica com isso?
Como diria Shakespeare, palavras, palavras, palavras.
Como diria Pelé, love, love, love.
Claudia Martinez
Amar mais é um bom conselho e tenho procurado seguí-lo na minha vida, mas o que significa exatamente amar mais? O conceito do amor tem sido tão distorcido através dos tempos que podemos ficar confusos, principalmente no mundo atual que estamos vivendo.
Amar mais não tem nada a ver com o nosso comportamento. Muita gente pensa que amar mais é falar com voz suave, é ser gentil, é ser simpático, é ser agradável, mas o mundo já está cheio de pessoas agradáveis. O pior é que muitas dessas pessoas agradáveis também são capazes de fazer e falar coisas muito desagradáveis e podem carregar muitas neuroses escondidas lá por dentro. O que adianta ter uma voz suave e um comportamento gentil, se lá por dentro estivermos cheios de raivas e de frustrações?
O que adianta tratar bem a uma pessoa se lá por dentro estivermos cheios de preconceitos? O que adianta ser gentil se, por trás, falarmos mal das próprias pessoas a quem tratamos bem?
Para amar mais de verdade, precisamos começar a nos observar, precisamos começar a nos conhecer melhor. Precisamos começar a notar que, de fato, temos um “eu” superficial e um “eu” profundo. O “eu” superficial é o ego e “eu” profundo é a nossa essência verdadeira. Precisamos lembrar que o ego sempre fala primeiro e mais alto. Vocês já repararam como a gente tem necessidade de responder ao que outra pessoa está falando, antes mesmo que ela termine de falar? Essa é uma das versões do ego, ou querendo se exibir, ou querendo atacar, ou se defender. A nossa primeira reação sempre vem do go e o pior é que ficamos tão acostumados com isso que a nossa verdadeira essência vai ficando cada vez mais abafada. Mas o ego também se manifesta primeiro nas pessoas muito quietas, aquelas que nunca dizem nada porque se sentem intimidadas ou inseguras. Essa é uma outra versão do ego. A sobrevivência do ego está sempre baseada no medo. Eu sei disso porque passei de tímida a segura de mim mesma, ou seja, passei de um extremo a outro sem deixar de atuar no nível do ego, sempre me preocupando com o que as pessoas pensavam de mim, antes de começar a me conhecer melhor.
Para amar de verdade, primeiro precisamos encontrar a nossa verdadeira essência e deixar que ela floresça dentro de nós. Precisamos aprender a ouvir com o coração, a ver com o coração, a sentir com o coração e não só com a cabeça. Só assim vamos conseguir realmente escutar o que os outros tem a dizer, só assim vamos conseguir entender o nosso próprio sofrimento e o sofrimento dos outros. Só assim vamos poder sentir compaixão pelo próximo e poder apreciar o verdadeiro sentido do perdão e o alívio que ele pode nos trazer. Quando percebemos que estavamos aprisionados pelo ego, começamos a perceber que os outros também estão. Percebemos que eles não sabem o que estão fazendo, do mesmo jeito que a gente não sabia e, só assim vamos conseguir perdoar pessoas que antes pareciam impossíveis de ser perdoadas. É o mesmo que descobrir um mundo completamente novo dentro de nós mesmos, é uma revelação magnífica e esplendorosa. Quando a gente começa a perder o impulso de responder imediatamente, ou perder o medo de falar a nossa verdade, é um sinal de que o “eu” superficial está começando a dar espaço para o “eu” verdadeiro se manifestar.
Ouví um exemplo outro dia, de como lidar com crianças obesas. Essas crianças podem comer um pote de sorvete de uma vez só, então deve-se fazer duas perguntas a elas, com relação à vontade de tomar sorvete. Primeiro pergunta-se: “O que você quer?” A primeira resposta é que ela quer comer o pote inteiro de sorvete, mas aí pergunta-se de novo: “O que você realmente quer?’ A segunda resposta é que ela quer um pouco de sorvete.
Nós também precisamos aprender a seguir a nossa verdadeira vontade em relação a tudo, que também vem a ser a segunda. O ego sempre esteve livre, solto e acostumado a se manifestar primeiro, porque muitos de nós nem ao menos sabíamos que tinhamos uma verdadeira essência reprimida lá dentro. Em alguns casos, precisamos observar as palavras, ou gestos, que vem à tona
com muita rapidez, em outros casos, precisamos observar o medo de se expressar que vem à tona com muita rapidez e começar a deixar a verdade fluir de dentro de nós. O ego se manifesta de muitas formas e a gente só vai começar a perceber os seus truques quando passar a observar constantemente o que está acontecendo dentro de nós mesmos. Vamos começar a descobrir o motivo de nossos receios, de nossas preguiças, de nossos medos mais escondidos e essa revelação interior vai começar a produzir milagres em nossas reações. Vamos começar a ser mais esponetaneos, mais leves, mais alegres, ou seja, tudo que Deus quer que sejamos.
Deus não quer que façamos sacrifícios. Nós só fazemos sacrifícios quando fingimos que estamos amando, quando estamos agindo racionalmente, usando de artimanhas e manipulações para conseguir o que queremos. O ego tem essa mania de pensar que o amor é válido e útil, porque assim vamos conseguir o que queremos. Temos sido ensinados a controlar o nosso temperamento e as nossas reações porque temos que ser civilizados e eu não estou dizendo que isso está errado. O que estou dizendo é que aprendemos todas essas coisas no nível do ego, mas como o ego quer sempre levar vantagem, a nossa vida acaba virando um sacrifício, porque temos que acabar fazendo e falando coisas que realmente não concordamos. O relacionamento entre as pessoas acaba virando um desastre, não é verdade?
O sacrifício acaba quando o eu verdadeiro começa a vir à tona, porque começamos a renunciar a coisas que não vão nos fazer nenhuma falta, como a raiva, o medo, as frustrações, etc. Ao passo que o ego concorda em renunciar de algumas coisas por puro interesse, mas chega uma hora que a farsa vem à tona e a gente acaba se revelando. O ego quer sempre vencer, ao passo que o eeu verdadeiro quer sempre encontrar uma solução onde todos possam sair ganhando. Nós vivemos num mundo dominado pelo ego, por isso existem guerras, miséria e todos os males. Mas do mesmo jeito que os seres humanos são a causa dos problemas, também somos a solução.
A partir do momento que começamos a perceber que o bem e o mal estão dentro de nós mesmos, podemos começar a fazer escolhas diferentes. Outro exemplo interessante que escutei outro dia é que nos filmes o “mal” sempre aparece vestido de preto, em forma de monstro, ou coisa parecida. Nós ficamos com a impressão de que o mal é sempre feio ou evidente demais e nunca paramos para pensar que o mal pode estar em nós. Não, nós somos ótimas pessoas, trabalhadoras, religiosas, o problema está “nos outros”, eles é que estão errados. O ego quer nos fazer acreditar que somos separados uns dos outros, mas nós somos todos unidos e se somos unidos temos que reconhecer que o problema que existe nos outros também existe em nós. Pode ser em grau menor ou maior, mas está presente em todo mundo. Então, a cura tem que partir de cada indivíduo, mas a vantagem é que essa cura é “contagiosa”, no sentido de que vai se espalhando, até curar a humanidade inteira.
Só que nós somos tão teimosos que acabamos sendo levados na conversa do ego muitas vezes e acabamos cometendo o mesmo erro inúmeras vezes, até chegar a situações desesperadoras.
Mas não é verdade que em momentos dificílimos a gente parece encontrar uma força desconhecida que nos faz capazes de superar a situação? Essa força é a parte de Deus que está dentro de todos nós, que nos faz crescer e ser esplendorosos. Ela está sempre presente e não precisamos chegar a situações desesperadoras para encontrá-la, mas como a força do ego tem sido muito grande em nossas vidas, isso geralmente acaba acontecendo. Se estivermos conscientes de que demos de cara com a parte de Deus que está dentro de nós, vamos ficar agradecidos e passar a escolhê-la com mais frequência, mas, infelizmente, muitas vezes as pessoas saem de situações desesperadoras sem ter consciência do que aconteceu dentro delas. E, uma vez passado o sufoco, podem voltar ao mesmo padrão de comportamento anterior e acabar se colocando em situações desastrosas de novo. Por isso é importante nos conhecer melhor e ter consciência do que se passa dentro de nós. Só assim poderemos ser confiáveis, amadurecidos e felizes.
É nesse sentido que devemos amar mais. Amar mais significa ir deixando de ser parte do problema e começar a ser parte da solução. Amar mais é purificar a nossa forma de pensar e ajudar a purificar a forma de pensar daqueles que nos rodeiam.
Os problemas do mundo são apenas sintomas e precisamos tratar a causa deles. Isso significa que temos que tratar de nós mesmos.
Para mim o amor é sinônimo de paz e de liberdade interior. Acho que a gente só consegue amar de verdade quando consegue perdoar (inclusive a si mesmo), quando consegue fazer novas escolhas, quando consegue deixar de querer controlar os outros.
Amar é conseguir encontrar uma solução onde todos os envolvidos possam sair ganhando, porque isso traz a percepção correta de que somos unidos e não separados uns dos outros.
Amar é desistir constantemente das nossas idéias pre-estabelecidas de como as coisas deveriam ser.
Amar é ser feliz, ao invés de ter necessidade de estar sempre com a razão.
Amar é proporcionar um espaço seguro para os seres amados, ao invés de querer controlá-los.
O amor verdadeiro vem de dentro, do coração. Devemos orar para ser curados da necessidade que temos de impor a nossa vontade sobre os outros.
Fonte: Centro para Cura das Atitudes
[Imagem: Alfred Gockel, "Love Dance"]
Machado de Assis
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
[Imagem: Renoir, "Lady Sewing"]