julho 28, 2005

A Alma dos Diferentes

Artur da Távola

almadiferente-fridakahlo-self-portrait.jpg Ah, o diferente, esse ser especial!

Diferente não é quem pretenda ser. Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.

Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para os outros. Que riem de inveja de não serem assim. E de medo de não agüentar, caso um dia venham, a ser. O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.

O diferente nunca é um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas. Um diferente medroso, este sim, acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente que não vingou.

Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro. Diferente que se preza entende o porque de quem o agride. Se o diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.

O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano. O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.

O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura. O que é percepção
aguçada em: "Puxa, fulano, como você é complicado". O que é o embrião de um estilo próprio em : "Você não está vendo como todo mundo faz? "

O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba incorporando. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram ( e se transformam) nos seus grandes modificadores.

Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham. É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde outros cansam.
Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito rotiniza. Sofre onde os outros ganham.

Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera. Aceita empregos que ninguém supõe. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar. Ele aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a média é má porque é igual.

Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados, magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo, excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba. Aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.

A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes.

Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja uficientemente forte para suporta-lo depois.

Fonte: Proarte Cultural

[Image: Frida Kahlo, "Self Portrait"]

Posted by Lilia at 09:28 PM | Comments (1)

Abundância de amor

Roberto Shinyashiki*

abundanciaamorGustavklim-tFulfillment.jpg Psiquiatra defende fim da economia de carícias e mesquinhez afetiva e diz que homens e mulheres guardam seus carinhos como um avarento guarda dinheiro.

Carícia é a unidade de reconhecimento humano. Começa no nascimento, com o toque físico. Depois passa para palavras, olhares, gestos e aceitação. Na "História de Carícias", existem conceitos de distribuição de carícias que levam a gente a acreditar que as carícias são poucas, tão poucas que precisamos guardá-las. O resultado é mesquinhez de afeto. Em contrapartida, todos nós queremos ser reconhecidos. Todos nós necessitamos de carícias.

Homens e mulheres guardam seus carinhos como um avarento guarda dinheiro. Ou sexualizam tudo (e vivem se culpando por isso, achando que estão pecando), fogem do contato real com as pessoas e acabam vivendo na miséria afetiva, ou sexualizam a vida de forma consumista, em que o orgasmo, a quantidade de parceiros, o desempenho "atlético" passam a ser mais importantes que a entrega.

Então nasce "o amor de troca". Se as carícias são em número limitado e podem acabar.

"Então, sempre que lhe dou algo, tenho que receber algo em troca (porque senão eu fico sem nenhuma carícia)".
"Você tem que cuidar de mim hoje... porque na semana passada eu cuidei de você".
"Cuidei de você quando pequena, agora você tem que cuidar de mim".
"Eu vou para a cama com você... se você casar comigo".

Como se o amor fosse uma moeda, o prazer da entrega é substituído pelo medo de ficar sem algo, de ficar vazio. Porque, com o pressuposto de que o amor acaba, é preciso escolher muito bem a pessoa, a situação, para dar carícias. Isso é miséria afetiva, em que as pessoas passam fome de amor, apesar da abundância de amor que existe na humanidade.

É como na miséria humana, na qual pessoas passam fome, apesar de produtivas, porque os recursos gerados são usados para aumentar o controle de umas sobre as outras.

A miséria afetiva é tão ou mais grave do que a miséria material, pois tira do ser humano a sua condição de homem participante de sua espécie, porque conduz o homem à mesquinhez, à solidão.

As pessoas, em razão da mesquinhez afetiva, começam a desconsiderar suas necessidades. Como diz o psiquiatra inglês Ronald Laing: "Com um trabalho enorme, um desejo é negado, substituído por um receio, que gera um pesadelo, que é negado, e sobre o qual é, então, colocada uma fachada".

Porque para alguém ser ele próprio é necessária uma dinâmica que respeite sua individualidade. Mas as pessoas condicionam-se a seguir padrões predeterminados em que o novo incomoda, amedronta, revela os sistemas que a família e toda a sociedade desenvolveram para anular a sua criatividade.

E o novo, o individual, é sacrificado, em benefício do coletivo. Se for muito revolucionário, cria-se a ameaça de punição ("Portanto, o melhor que você faz, é assumir a direção da nossa fábrica, porque com esta crise...").

E passa-se a viver dentro de um sistema de medo. Medo de ser abandonado, rejeitado ou criticado.

E é dada uma importância absurda ao perigo de não ser amado por todos.
Sempre vão existir pessoas que gostam de nós do jeito que somos (e isso é sensacional); outras podem não gostar, pelas mais variadas razões â€?e isso é um direito também. É importante entender que todo mundo tem o direito de amar quem quiser. Mas, independentemente da reação das pessoas, você tem o direito de seguir o seu caminho e buscar a sua forma de ser feliz...

*Roberto Shinyashiki é conferencista e escritor autor de 10 livros, entre eles "A Carícia Essencial".

[Imagem: Gustav Klimt, "Fulfillment"]

Posted by Lilia at 06:07 PM | Comments (0)