agosto 30, 2005

A Intuição

Izabel Telles

intuicao-Corneille.jpg Talvez a linguagem mais interessante que nossa mente nos fornece seja a intuição, esta percepção profunda que se nos dá, trazendo a sensação de que já sabemos ou que obtemos a resposta bem antes de tomar qualquer decisão ou ação.

Chamamos a intuição de a "Voz do coração", esta primeira mensagem que recebemos quando pensamos em algo ou em alguém. Normalmente, logo a seguir, vem a mensagem fria do nosso raciocínio cartesiano negando nossa intuição ou fazendo pouco caso do conteúdo que ela nos traz. E assim perdemos uma comunicação preciosa de quem está conectado com o grande Universo dentro e fora de nós.

Na verdade, foi ouvindo a voz da intuição que muitas pessoas deixaram de embarcar em aviões que acabaram caindo, outras trouxeram para nós invenções importantes, além de muitos diagnósticos que são feitos tendo na sua base esta sensação de que "sei o que é isso. Não com meu raciocínio, mas com o meu coração".

Parece incrível que o ser humano tenha desprezado por tantos séculos esta fantástica forma de nos relacionarmos com as fontes divinas de informação e cura. Até hoje isso acontece entre as pessoas. O intuitivo é desprezado nas grandes corporações como aquele que "fala umas coisas que não podem ser provadas cientificamente", e mais tarde acabamos por ver que aquela idéia que o intuitivo tinha apresentado era realmente uma idéia muito à frente do seu tempo e que, com certeza, iria funcionar caso fosse aplicada.

Mas como fazer para provar a intuição? Não me ocorre uma forma. Talvez você possa sugerir alguma. Como fazer para ensinar às pessoas a intuição? Claro que somos todos intuitivos por natureza e basta que soltemos as amarras do julgamento e das crenças preconceituosas para ouvir esta voz do coração. Mas como dizer às pessoas: confie nesta voz, siga esta voz, acredite naquilo que é seu. Fuja daquilo que querem fazer você acreditar.

Perceba o movimento que seu corpo faz quando alguém que não vai lhe fazer bem aproxima-se. Perceba que sua mão se fecha, seus batimentos cardíacos disparam, seu corpo se afasta, sua testa se franze e tudo que você quer é correr para longe dali. Mas o que normalmente fazemos? Não damos atenção a esta forma de intuição e estendemos a mão para esta pessoa e falamos "muito prazer" quando o que queríamos dizer era: "não tenho nenhum prazer em conhecê-lo". E ficamos por perto, almoçamos com ela e em alguns casos, acabamos nos tornando empregados desta pessoa, ou amigos ou amantes e as conseqüências disso não tardam a aparecer. Só que sua intuição já tinha avisado tudo isso no momento do encontro. Não teria sido mais fácil escutá-la?

Sei que não é fácil escutá-la. É preciso treinar, errar e acertar, e ter tempo para conferir os resultados. Enfim, experiência e confiança. Coisas que só ganhamos mesmo quando vivenciamos cada momento. Mas o importante mesmo é começar a praticar. Boa sorte.

Fonte: Somos Todos Um
[Imagem: Corneille, sem título]

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Pai, atenção, você pode ser demitido

Seus filhos estão vendo você o tempo todo. Por isso, é interessante trazê-los para sua vida

Roberto Shinyashiki

paivocepodeserdemitido-.jpg A sensação de que o tempo está passando, os filhos estão crescendo, e se está à margem deste processo, como um mero espectador, é um sofrimento para muitos pais. Se você é pai e sente que lhe falta tempo para acompanhar seus filhos, fique esperto: ter pouco tempo não é igual a não ter tempo.

O importante é aproveitar o pouco tempo de que dispõe, de modo a tirar seu máximo proveito. No final da semana, por exemplo, separe pelo menos 3 horas para vocês saírem juntos e colocarem as fofocas em dia. Se você utilizar bem suas horas livres, criará um relacionamento muito mais construtivo (e de respeito) com seu filho.

Outro fator essencial para o relacionamento é perceber que você precisa estar com seus filhos para ser mais competente. Não é só seu filho que precisa de você. Você também precisa dele. O tempo que passam juntos serve para você respirar e recarregar as baterias. É um momento para semear dentro de você uma nova energia, uma nova maneira de enxergar a vida.

A preocupação em deixar uma boa herança material para os filhos transforma muitos pais em workaholics (trabalhadores compulsivos). Não é assim que deve funcionar. A melhor herança para os filhos é a certeza de que são amados ou foram amados pelos pais. Esse sentimento não é transmitido com presentes, mas com olhares cúmplices, com um ombro amigo nos momentos de dor ou com frases do tipo “Filho eu adoro ser seu pai. Tenho orgulho de você. Obrigado pelas coisas que você me ensina”.

No entanto, para muita gente expressar sentimentos não é tarefa fácil. Alguns pais têm muita dificuldade em dar carinho aos filhos, mas nunca é tarde para começar. Pode ser aos poucos, mas é preciso começar de alguma forma. Veja, abaixo, três dicas que eu considero essenciais para você incrementar o relacionamento com seu filho:

1. Entenda que cada filho é um ser único. Respeite suas características e necessidades particulares. Se você tem dois filhos, procure sair com cada um deles em dias distintos. É claro que alguns programas devem reunir a família inteira, mas é importante existir um momento em que seu filho se sinta especial. Para que ele possa reclamar da professora, comentar sobre um amigo ou contar uma façanha.
2. Dedique tempo também para o filho que não tem problemas. A maior parte dos pais tem a tendência de dar toda a atenção para o filho que está com dificuldades na escola, doente ou terminou o namoro. De imediato, o outro que está indo bem percebe que não há vantagem nenhuma em ser um estudante ou uma pessoa responsável. Cedo ou tarde, ele começará a criar problemas em troca de sua atenção.
3. Mantenha presença marcante na vida de seus filhos. Apesar da falta de tempo, não deixe tudo para o final de semana. Principalmente os pais que são separados. Mesmo que, lá pelas 7 da noite, você ainda esteja trabalhando, telefone perguntando como foi o dia das crianças. Conte também sobre seu cotidiano. Seu filho deve ter curiosidade em saber o que você faz quando está longe dele.

Uma palavra final para os pais que têm filhos problemáticos. Talvez seu filho não queira estudar e você esteja aí enchendo a paciência dele. Lembre-se: seus filhos tomam você como modelo. É um constrangimento imaginar que pais que nunca abriram um livro e nunca fizeram um curso exijam isso dos filhos. O mesmo ocorre com as mães que estão acomodadas, morrendo de medo de sair do emprego em que são desvalorizadas, e buzinam o dia inteiro no ouvido de suas filhas que elas tem de ter autonomia e coragem de ousar.

Seus filhos estão vendo você o tempo todo. Por isso, é interessante trazê-los para sua vida. Se você está se formando num curso, convide-os para assistir a cerimônia. Eles precisam notar que você continua estudando. Que a mãe continua ousando e aprendendo coisas novas. Isso vai ser um estímulo para eles. E mais: seja o ídolo de seus filhos. Mas isso você só vai construir no dia-a-dia, na simplicidade de estar aberto para aprender junto com eles, na maneira como conduz seus atos e sua vida. Adote seus filhos antes que eles saiam atrás de um beadhunter de pai.

Fonte: Viva SP
[Imagem: Chip Henderson, "Father and son on dock fishing"]

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agosto 27, 2005

A ARTE DE MENSTRUAR

Monika vom Koss

artedemesntruar-HelenNelsonReed-TheGoddessLightWhithin.jpg O que define uma mulher? Muitas respostas poderiam ser dadas a esta pergunta, mas o que caracteristicamente a define é o fato de que mulher menstrua. E em sua condição plena, ela menstrua regularmente, expressão redundante, pois a palavra menstruação, que significa, literalmente, ‘mudança de lua’, tem como sílaba-raiz mens, mensis, a medida, origem da contagem do tempo, i.é., da regularidade.

A sílaba latina mens forma palavras como medida, dimensão metro, mente, para citar algumas. No sânscrito, a sílaba original era ma, de mãe, mana. Na Suméria, os princípios organizadores do mundo, atributos da deusa Inana, eram os me, sílaba contida no nome de muitas deusas, como Medéia, Medusa, Nêmesis e Deméter.

Para as mulheres da Idade da Pedra, o sangue menstrual era sagrado. É provável que a palavra sacramento se origine de sacer mens, literalmente, menstruação sagrada. Um ritual exclusivamente feminino, conhecido pelos gregos como Thesmophoria, mas cuja origem se perde no tempo, era realizado anualmente no período da semeadura. As mulheres que tinham atingido a idade do sangramento se reuniam num campo sagrado, e ao primeiro sinal do fluxo menstrual, elas desciam por uma fenda para levar sua oferenda às Cobras, as grandes divindades primárias do mundo profundo, que representam o poder regenerador na terra, no campo e no corpo das mulheres. Ofereciam o melhor leitão da ninhada, cuja carne apodrecida junto ao sangue menstrual era misturada às sementes, que então eram enterradas no campo sagrado, para promover e propiciar uma colheita abundante.

Os antigos ritos de menstruação hindus estão relacionados com Vajravarahi, literalmente ‘Porca de Diamante’, a deusa que rege as divindades femininas iradas, que dançam o campo energético do ciclo menstrual. Ela é a dançante Dakini vermelha, filha da Deusa Primal do Oceano de Sangue, mais tarde denominado de Soma.

Representando o fluido da vida, o sangue menstrual sempre foi considerado tabu, palavra polinésia que significa ‘sagrado’ e que foi interpretada pelos antropólogos como sendo ‘proibido’. De fato, o sangue menstrual, como o poder de criar vida que conecta as mulheres com o próprio universo, era tabu, isto é, sagrado e portanto proibido àqueles que não menstruassem, como era o caso dos primeiros antropólogos homens.

No mais esotérico dos rituais tântricos, o Yoni Puja, os sucos liberados pela cópula eram misturados com vinho e partilhados pela congregação. O mais poderoso de todos os sucos era aquele obtido quando a yogini estava menstruando.

Ao longo dos milênios, as mulheres têm desaprendido a arte de menstruar, de fluir com a vida. Nas sociedades tribais, a menarca, o início do fluir do sangue, era celebrada com um rito de passagem, auxiliando a menina a realizar sua entrada para o reino do mana: o poder sagrado transmitido pelo sangue e que tanto podia dar como tirar a vida. Além de apaziguar o poder destruidor, o rito tinha como função auxiliar a menina a entender sua condição física e sua relação com a função procriadora da natureza. Ainda uma criança em espírito e condição social, a partir de suas regras, a jovem deve assumir o comando de sua vida. Sem ritos de passagem, o que temos para oferecer às nossas meninas, que as ajude a transformar e assumir sua nova identidade?

Ao longo do processo civilizatório, a menstruação foi sendo depreciada, relegada, virando tabu. O que era sagrado tornou-se proibido, sujo, contaminado. A regra passou a ser esconder a regra. O resultado disto foi que o evento central na vida de toda mulher madura tornou-se invisível. Ironicamente, retorna à visibilidade para se tornar um negócio milionário, o dos absorventes ditos ‘higiênicos’, mas que continua a reforçar a idéia de que o sangue menstrual é ‘sujo’. O apelo maior da propaganda de absorventes é tornar a menstruação invisível. Promete que usar tal ou qual marca de absorvente possibilita à mulher levar a vida como se nada estivesse acontecendo em seu corpo. Descaracteriza-a como mulher, negando sua característica mais distintiva.

Devemos abolir os absorventes? É claro que não, pois não vivemos na Idade da Pedra. Mas talvez devêssemos nos espelhar no exemplo das índias andinas, que simplesmente se agacham e deixam seu sangue fluir para a terra. Impossibilitadas de agir assim numa terra coberta de asfalto, podemos, contudo, transformar esta prática num ritual. É importante para as mulheres recuperarem o sentido sagrado do fato biológico central em suas vidas. Pois, ainda hoje, a maioria das mulheres ‘liberadas’ acredita que suas regras (aquilo que as rege) é uma inconveniência que, se possível, deveria ser eliminada. Se formos capazes de romper com esta crença, talvez possamos desvincular o feminino da idéia de fragilidade e instabilidade. A decantada imprevisibilidade feminina é, em grande parte, decorrente das oscilações a que a mulher está submetida, ao longo de seu ciclo mensal. É a expressão da imprevisibilidade da própria vida.

O ciclo hormonal feminino apresenta dois pontos culminantes: a ovulação e a menstruação. O polo branco da ovulação, chamado muitas vezes de rio da vida, é o polo ovariano, procriativo, momento do ciclo em que, biologicamente, a mulher se coloca plenamente a serviço da espécie. O polo vermelho da menstruação, também chamado de rio da morte, é o polo uterino, quando a mulher se volta para si mesma. Ou pelo menos deveria, pois a arte de menstruar, a habilidade de fluir com a vida, é o momento em que somos chamadas para dentro, a fim de curarmos a nós mesmas.

Desprezada e negligenciada, não é de estranhar que a menstruação revide. A TPM (Tensão entre Patriarcado e Menstruação) é a expressão do conflito que nós mulheres vivemos, entre voltarmo-nos para o acontecimento sagrado dentro de nós ou atender à demanda do mundo externo. O período menstrual nos torna mais sensíveis, captando os acontecimentos em torno de nós através de uma lente de aumento e reagimos de acordo. Se aprendermos a respeitar o movimento energético que acontece em nosso interior, poderemos usar esta sensibilidade de um modo mais significativo e reverter a depreciação a que o sangramento foi submetido, recuperando sua sacralidade.

Como mulheres modernas, inseridas num mundo que funciona de acordo com os valores masculinos, nem sempre podemos nos recolher na cabana de menstruação, como faziam nossas antecessoras, onde descansavam e partilhavam suas experiências. Mas podemos reduzir nossas atividades ao mínimo, deixando para outro momento algumas delas. Também podemos nos recolher para dentro de nós, enquanto executamos as atividades diárias que nos competem. Depois de cumpridas as tarefas, podemos nos retirar para um lugar tranqüilo e prestar atenção ao que acontece no nosso útero, observar as sensações e os sentimentos, os sonhos que emergem. O período menstrual é o momento em que podemos aprender mais a nosso respeito e curar nossas feridas. Assim reverenciada, a arte de menstruar pode ser recuperada, possibilitando uma vida mais plena e feliz como mulher.

Fonte: Caldeirão
[Imagem: Helen Nelson Reed, "The Goddess Light Whithin"]

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agosto 26, 2005

Lição do Bambu Chinês

bamboochines-imagenabank.jpg Depois de plantada a semente deste incrível arbusto, não se vê nada por aproximadamente 5 anos, exceto o lento desabrochar de um diminuto broto, a partir do bulbo.
Durante 5 anos, todo o crescimento é subterrâneo, invisível a olho nu, mas...
Uma maciça e fibrosa estrutura de raiz, que se estende vertical e horizontalmente pela terra está sendo construída.
Então, no final do 5º ano, o bambu chinês cresce até atingir a altura de 25 metros.
Um escritor de nome Covey escreveu:
Muitas coisas na vida pessoal e profissional são iguais ao bambu chinês.
Você trabalha, investe tempo, esforço, faz tudo o que pode para nutrir seu crescimento e, às vezes, não vê nada por semanas, meses, ou anos.
Mas, se tiver paciência para continuar trabalhando, persistindo e nutrindo, o seu 5º ano chegará e, com ele, virão um crescimento e mudanças que você jamais esperava...
O bambu chinês nos ensina que não devemos facilmente desistir de nossos projetos, de nossos sonhos...
Em nosso trabalho, especialmente, que é um projeto fabuloso que envolve mudanças... de comportamento, de pensamento, de cultura e de sensibilização.
Para ações devemos sempre lembrar do bambu chinês, para não desistirmos facilmente diante das dificuldades que surgirão.
Tenha sempre dois hábitos: persistência e paciência, pois você merece alcançar todos os seus sonhos!!!

É preciso muita fibra para chegar às alturas e, ao mesmo tempo, muita flexibilidade para se curvar ao chão."

{não consegui encontrar a autoria deste texto. se voce souber, por gentileza queira me avisar}
[Imagem: ImageBank]

Posted by Lilia at 11:32 AM | Comments (0)

Aprendendo a perdoar a si mesmo

Rosemeire Zago

aprendendoperdoar-VanGogh-Sunflowers.jpg Algumas pessoas prejudicam outras e pedem perdão, que pode ser aceito ou não; mas há algumas atitudes em que o único prejudicado é você mesmo. Se você vive apontando seu dedo indicador constantemente para seu próprio nariz, cuidado!

A culpa varia de acordo com crenças e valores que cada um traz consigo desde a infância, e que muitas vezes não corresponde mais aos valores e crenças atuais. Culpa, remorso, arrependimento, são inimigos constantes de algumas pessoas e traz junto a humilhação, vergonha, o medo e a maior conseqüência: a autopunição.

Perdoar a si mesmo talvez seja um dos maiores desafios, pois está relacionado com a capacidade - e leia-se também dificuldade - que cada um tem de se amar e se aceitar. As pessoas não se amam por acreditarem terem feito algo muito terrível, às vezes isso até corresponde à verdade, mas muitas vezes não.

Algumas chegam ao máximo de se culparem por terem nascido e sentem-se como um grande fardo. Para compensarem essa rejeição sentida em algum momento de sua vida, passam a vida tentando mostrar aos outros o quanto são úteis, importantes, como que para provarem para si próprias que são merecedoras da vida.


Procure observar se busca aprovação e reconhecimento de pais, amigos, das pessoas em geral, se está sempre à disposição de todos, cedendo em quase tudo, pela necessidade inconsciente de agradar, ser aceito, mas que muitas vezes confunde-se com a desculpa de querer ajudar e que na verdade oculta a busca pelo amor e atenção.

Por exemplo, as pessoas por não se sentirem amadas quando crianças e não acreditarem em si mesmas passam a ignorar os próprios sentimentos e recorrem à fuga pela comida, como forma de compensação e obtenção do prazer. Com isso, se culpam e como punição, engordam.

Não conseguindo eliminar alguns quilos, mais culpas e assim, desviam o foco da origem de tudo para a comida. O foco passa a ser emagrecer e não o que as levou a engordar. Negam a si mesmas a subnutrição emocional que sentem e que pode levá-las a sentimentos de vazio e fome.

A comida passa a representar uma maneira de alimentar e preencher um vazio emocional. Ou seja, inconscientemente desviam a atenção dos problemas para a necessidade de emagrecer, os problemas continuam ou aumentam por não serem resolvidos e acabam consumindo mais calorias do que o corpo necessita, engordam, culpam-se, punem-se, criando-se assim, um círculo vicioso.

O perdão oferece saída para esse círculo vicioso, como uma escolha consciente de mudança. Será que a verdadeira causa está sendo considerada? Do contrário, tudo tende a piorar. Será que essa fome, esse vazio, não seria a necessidade, também inconsciente, de amor? É preciso perceber que a comida não será transformada em afeto, amor, mas apenas em gordura quando consumida de forma descontrolada. Por que não buscar outras fontes de prazer?

Uma maneira de cultivar a culpa é estar sempre exigindo perfeição de si mesmo. A anorexia e bulimia são exemplos disso. Nunca há satisfação consigo mesmo, gerando culpa, insatisfação e uma enorme dificuldade de se perdoar. Tudo que faz poderia ser melhor. Não importa o que faça ou conquiste. Ou o pior, não importa quem se é, parece que nunca é o bastante.

Para se livrar disso tudo faça uma lista de tudo aquilo que você se culpa, aquilo que fez e não fez. Seja honesto consigo mesmo. Depois, pense sobre as motivações que o fizeram fazer certas escolhas, agir de determinada forma e, ao invés de se culpar, punir ou se castigar, comece a lembrar que muitas escolhas foram feitas porque era o melhor que se podia fazer naquele momento e que na verdade, tudo foi avaliado com valores da época e que nem sempre serão os mesmos neste momento. Nunca julgue situações passadas com valores do presente.

Para perdoar-se é preciso rever todas suas crenças, valores, que muitos esquecem que com o tempo podem, e devem, se modificar. Analisar o que fez ou deixou de fazer para poder mudar e crescer é válido, como sentir remorso pela dor que pode ter causado a alguém e pedir perdão. Mas se esse remorso começar a dominar sua vida, estará alimentado seu papel de vítima e a autopiedade. Livre-se disso. Você deve aprender e crescer com a experiência passada e isso não quer dizer se punir eternamente por algo já feito.

Perdoar a si mesmo exige uma completa honestidade e integridade para que se alcance a cura de tantos males, de tanta falta de amor-próprio. É um processo de reconhecer a verdade, assumir a responsabilidade pelo que fez, aprender com a experiência, reconhecer os sentimentos que motivaram determinados comportamentos, abrir seu coração para si mesmo, ouvir seus medos, curar certas feridas e isso você pode conseguir sendo amoroso e responsável consigo mesmo.

Você pode e deve se livrar de certos padrões de pensamentos e sentimentos. Mude o que não acredita mais, livre-se de tudo que te faz mal, cure a ferida que mais lhe dói, cure sua vida emocional. A verdadeira cura é fazer as pazes consigo mesmo. O poder curativo do perdão e do amor talvez seja o remédio mais poderoso que temos. E está nas mãos de cada um de nós. E você pode começar com você mesmo!

Fonte: Cyber Diet

[Imagem: VanGogh, "Sunflowers"]

Posted by Lilia at 08:25 AM | Comments (0)

agosto 19, 2005

A felicidade

Swami Sunirmalananda*

afelicidade-Alece-Birnbach-Cheri-Danish.jpg O que é a felicidade? Felicidade é uma sensação agradável da mente. Por exemplo: eu como um doce e isto me traz à mente uma sensação agradável. Ouço uma linda música, ela gera a mesma sensação, e, a isso, chamo felicidade. Mas se eu comer novamente o mesmo doce e ouvir a mesma música quando uma tragédia acontece, já não desfrutarei deles, não mais me trarão alegria. Assim, a felicidade é algo pessoal, depende inteiramente de cada um. Ou seja, é subjetiva.

A mesma pessoa, lugar ou objeto que trouxeram felicidade em uma ocasião podem trazer sofrimento em outra. Por que isto acontece? Porque nós - e não as coisas do mundo externo - somos os responsáveis por nossa felicidade. Pessoas, lugares e objetos são apenas estímulos que afetam o cérebro, nos trazem sentimentos bons ou ruins e dependem do nosso estado de espírito.

Onde encontramos a felicidade verdadeira? Ela é intrínseca a cada um de nós. Onde está localizada? Não está propriamente localizada: nós mesmos somos a felicidade. Sim, somos feitos da natureza da felicidade. Nossa natureza é felicidade imortal. O problema é que nos esquecemos desta simples verdade.

Então, o que é esta experiência a que chamamos felicidade? É apenas um tênue reflexo, uma pequena fagulha do brilhante sol da felicidade que está oculto dentro de nós. É apenas uma sombra dessa felicidade eterna que aguarda para ser exposta. O que agora chamamos felicidade e sofrimento nada mais é do que diferentes estados de espírito.

Assim, o mundo, com todo o seu brilho e esplendor, é só um salão de exposições estimulando sensações em nossas mentes.

A verdadeira felicidade, chamada ananda, em sânscrito, é a meta de todos os seres. Todos têm esta meta, alguns de forma consciente, com conhecimento, outros não.

De acordo com os Vedas, há um aumento gradual de felicidade à medida que evoluímos na vida: felicidade mundana, felicidade mental e felicidade espiritual. A maior delas, a felicidade espiritual, ocorre quando queremos conhecer Deus, ou quando queremos saber quem somos.

Disse certa vez o sábio Swami Vivekananda: ''Nesta vida breve, se nós pudermos trazer, mesmo que seja apenas um momento de felicidade, para alegrar o coração de alguém, isto será religião de verdade. Todo o resto é disparate''.

Portanto, você der alegria aos outros, você terá alegria. Porque nós e os outros não somos diferentes. Nós todos somos um. Para dar alegria aos outros, precisamos servi-los. Este é um dos melhores modos de viver na felicidade.

Para concluir, uma mensagem de Sri Sarada Devi, a Santa Mãe : ''Quem tem mente pura vê tudo puro. Se desejas paz mental, não busques faltas nos outros. Ao contrário, procure ver tuas próprias faltas''.

* Swami Sunirmalananda é monge budista da Ordem Ramakrishna
Fonte: JB Online
[Imagem: Alece Birnbach, "Cheri Danish"]

Posted by Lilia at 12:58 PM | Comments (0)

agosto 17, 2005

O lado bom do perdão

ladobomperdao-Helen-Frankenthaler-Eve.jpg Se guardar mágoas e alimentar sentimentos de vingança permitem ilusões como a de que somos perfeitos, perdoar leva à libertação

Maria Helena Matarazzo

Todos fomos machucados na vida. Todos fomos rejeitados por um amante, traídos por um amigo, passados para trás numa promoção. Apesar de aprendermos que "perdoar é esquecer" ("o que passou, passou"), a maioria de nós acredita que as pessoas que nos feriram devem pagar pela dor que nos causaram; afinal, elas merecem ser castigadas, mesmo que inconscientemente ("nada como um dia atrás do outro" ou "um dia a pessoa vai ver o que perdeu").

Não se trata de esquecer a maldade alheia ou minimizar o próprio sofrimento. Para ser capaz de um perdão verdadeiro e sadio basta entender que ele traz muito mais benefícios do que o rancor.

Na verdade, temos muito o que aprender com essas experiências. Em primeiro lugar, perdoar não é retaliar, se vingar ou fazer o outro sofrer tanto quanto nos fez sofrer. Mas, por outro lado, perdoar não é esquecer, deixar para trás quilômetros de mágoa, toneladas de ressentimentos ou ainda fechar os olhos e deixar os "bandidos" se darem bem com as trapaças que cometeram.

Quando perdoamos as pessoas que nos machucaram, não estamos dizendo que o que foi feito contra nós não teve importância ("não foi nada") ou não deixou marcas profundas (aquelas a ferro e fogo). Essas perdas foram terríveis e fizeram grande diferença em nossa vida, mas nos ensinaram muitas coisas: tanto a não nos tornarmos vítimas novamente, como não fazermos o mesmo para terceiros.

De fato, algumas pessoas perdoam, outras não, outras estão tentando. Porém, fingir que perdoamos, ranger os dentes, engolir em seco, não é perdoar. Os terapeutas americanos Sidnei e Suzanne Simon, em seu livro Forgiveness, explicam o que significa perdoar e não perdoar. Começam dizendo que não perdoar tem certas vantagens porque nos dá algumas ilusões.

A primeira, e mais comum, é a ilusão de que, se aquele problema não tivesse acontecido, nossa vida seria perfeita. Só bastaria que as coisas tivessem sido diferentes e não tivéssemos sido machucados naquela época e pela pessoa que nos machucou; agora, estaríamos "numa boa". Mas, como aquilo aconteceu, temos a explicação ideal, a desculpa perfeita para estarmos e ficarmos na pior ( a responsabilidade da nossa infelicidade é sempre do "outro").

Em segundo lugar, não perdoar nos dá ilusão de sermos perfeitos. Os maus, os bandidos, são os que nos machucaram, e se nós os perdoarmos nunca mais poderemos dividir o mundo ao meio, todos os mocinhos de um lado e todos os bandidos de outro. Vamos ter de aceitar que as pessoas são "híbridas", potencialmente boas e más. Tanto os outros quanto nós mesmos.

Não perdoar também nos dá a ilusão de força, de poder ("agora eu controlo"). Não perdoar ajuda a compensar a sensação de falta de poder que nós sentimos quando fomos machucados. De fato, se trancarmos na prisão de nossa mente essas pessoas que nos machucaram, vamos nos sentir onipotentes ("agora é minha vez") pela força do nosso ódio silencioso.

E, por último, não perdoar nos dá a ilusão de que não seremos machucados outra vez. Mantendo a dor viva, os olhos bem abertos para qualquer perigo em potencial, reduzimos o risco de voltamos a sofrer rejeição, traição ou qualquer outra forma de ferimento.

Mas será que os benefícios de não perdoar valem o preço que pagamos por armazenar essas mágoas, remoer esses sentimentos e nos agarrarmos com unhas e dentes à dor do passado? Será que vale a pena continuarmos alimentando a raiva, revidando com palavras ou com silêncio e assim nunca sentirmos o verdadeiro prazer de viver?

O perdão se torna uma possibilidade quando a dor do passado para de reger nossas vidas; quando não precisarmos mais do ódio e do ressentimento como desculpas para obter menos da vida do que queremos ou merecemos. Perdoar é chegar à conclusão de que já odiamos bastante e não queremos odiar mais; portanto, perdoar é usar a energia da vida, não para reprimir esses sentimentos, mas para quebrar o ciclo da dor se voltando para o futuro e não machucando outras pessoas como fomos machucados.

Há quem diga que perdoar é escolher entre se vingar e se aproximar, entre ser vítima ou sobrevivente. Na realidade, perdoar é um processo que vem de dentro. É uma libertação. Uma aceitação. Perdoar é aceitar que a coisas ruins podem e de fato acontecem na vida das pessoas, e que as pessoas mesmo quando amam, se machucam. Perdoar é um sentimento de bem-estar, é reconhecer que existe algo melhor que queremos fazer com a energia da vida e fazê-lo.

Fonte: Mais de 50

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A Complicada Arte de Ver

Rubem Alves

complicadaartedever-bernardomagalhaes.jpg Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".

Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...

Fonte: Folha de São Paulo

[Imagem: Bernardo Magalhães peguei aqui

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agosto 15, 2005

A Fé

Elisabeth Cavalcante

fe-om-mantra.jpg "Um menino, no meio da tempestade em alto mar, continuava a brincar, enquanto os outros, amedrontados, temiam pelas suas vidas. Era o filho do timoneiro do barco. Quando, ao desembarcar, lhe perguntaram como tinha estado tão tranqüilo no meio daquele furacão, respondeu: Como poderia ter medo? O leme estava nas mãos de meu pai". *Dom Frei Daniel Tomasella - Fonte: Jornal "No Meio de Nós".

A fé é um dos mais importantes sentimentos que podemos cultivar. Na verdade ela se relaciona com uma energia poderosa, capaz de fazer acontecer em nossa vida tudo o que desejarmos.

Cultivar a fé não depende de seguirmos ou estarmos atrelados a qualquer religião institucional, podemos encará-la como uma postura mental de confiança e certeza, que deve preceder cada uma de nossas ações.

Quando acreditamos, é o nosso lado sábio, aquela parte de nós que é consciente de nosso poder quem atua e, portanto, quanto mais desenvolvermos esta prática maior será o domínio deste eu divino sobre nosso ego.

A fé tem dois alicerces: a crença de que os poderes divinos estão sempre presentes em nossa vida e, como conseqüência desta, a força que nos torna destemidos frente aos desafios da vida, ampliando a confiança em nosso próprio poder.

Portanto, quanto mais alimentarmos em nós a confiança na proteção de Deus, mais esperança, força e poder estaremos ativando, de modo a encontrar saídas adequadas para nossos dilemas e dificuldades.

TORNE-SE SEU PRÓPRIO GUIA INTERIOR
"Sempre que estiver confuso numa situação e não estiver sabendo como sair fora dela, não pense; simplesmente permaneça em um profundo estado de não-pensar e permita que o seu guia interior o conduza. No começo você se sentirá com medo, inseguro, mas logo, quando você chegar sempre à conclusão certa, quando chegar sempre à porta certa, você juntará coragem e se tornará confiante.
Se esta confiança acontece, eu chamo isso de fé. Isso é realmente fé religiosa – a confiança no guia interior. A razão é parte do ego. É você acreditando em você. No momento em que você vai mais fundo dentro de você, você chega à própria alma do universo. Seu guia interior faz parte da direção divina. Quando você o segue, você segue o Divino; quando você segue a si mesmo, você está complicando as coisas, e você não sabe o que você está fazendo. Você pode se achar muito sábio. Você não é.

A sabedoria vem do coração, não é do intelecto. A sabedoria vem da mais recôndita profundidade de seu ser, não é da cabeça. Corte fora a cabeça, fique sem cabeça – e siga seu ser, para o que quer que ele o conduza, para onde quer que ele o leve. Mesmo que ele o leve para o perigo, entre no perigo, porque esse será o caminho para você e para o seu crescimento. Através desse perigo você crescerá e se tornará maduro". Osho: Trecho de The Book of Secrets.

Fonte: Somos Todos Um
[Imagem: do site allposter. sem autoria]


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agosto 14, 2005

meu querido pai,

Lilia Avelar

pai2000.jpg eu sei que voce entende minhas palavras que são tradução mal-feita dos meus sentimentos.
algumas pessoas podem se assustar com meu jeito de traduzir, mas eu sei que voce sabe direitinho o que vou falar. alias, pelo sr. nem precisava falar porque dai de cima voces tem esses super-óculos e podem ver tudo, né? mas sou eu que preciso dizer.

sabe pai, eu só tive duas grandes dores na minha vida. eu falo de dor de mesmo, de verdade, daquelas que a gente não consegue descrever. talvez um grande poeta consiga uma imagem, mas eu não sou poeta pai, e a dor que eu senti na sua partida me despedaçou todinha. voce lembra né? aqueles dias em que o medo se apoderou do meu corpo todo e que fiquei encolhida na cama, tremendo como se eu tivesse nua no polo norte. ai que frio. a mulher destemida virou pó de medo.
normalmente as pessoas dizem que perderam o chão... eu dizia que tiraram meu teto e dali pra frente eu teria que "negociar" diretamente com deus, sem voce pra mediar.. eu estava enganada, meu pai. agora mais do que nunca tenho um mediador me aproximando do pessoal aí de cima.

hoje, voce sabe melhor do que ninguém o quanto a sua partida foi importante pra mim. parece que voce ficou mais perto, ou melhor, ficou dentro. agora eu respiro fundo e sinto voce inteiro, me protegendo. me guiando. me iluminando, me dizendo as coisas que eu teimava em não ouvir. agora eu não só escuto e entendo, como sigo cegamente.
depois que o sr. partiu eu mudei tanto. depois que eu fui colar meus pedaços espalhados, eu me juntei de um jeito melhor, pai.
voce me fez uma pessoa feliz. mais feliz ainda. antes eu já me sentia privilegiada de ter nascido de voces e ter crescido rodeada de amor, carinho e valores impecáveis.
não posso me sentir de outro jeito, a não ser grata! é assim que eu acordo todo dia: vestida de gratidão. e por isso estou aqui, mais uma vez pra lhe agradecer. pra dizer o quanto eu te amo. este amor que é eterno mesmo, chama que não apaga nunca, transcende o corpo porque é amor da alma pai.
hoje tem festa no meu coração porque é aqui dentro onde voce ficará vivo, sempre!

Posted by Lilia at 10:25 AM | Comments (0)

Um Nó do Afeto

nodoafeto-LesterJKern-FirstLoveII.jpg Em uma reunião de pais numa escola da periferia, a diretora ressaltava o apoio que os pais devem dar aos filhos; pedia-lhes também que se fizessem presentes o máximo de tempo possível... Ela entendia que, embora a maioria dos pais e mães daquela comunidade trabalhassem fora, deveriam achar um tempinho para se dedicar e entender as crianças.

Mas a diretora ficou muito surpresa quando um pai se levantou e explicou, com seu jeito humilde, que ele não tinha tempo de falar com o filho, nem de vê-lo, durante a semana, porque quando ele saía para trabalhar era muito cedo e o filho ainda estava dormindo...

Quando voltava do serviço já era muito tarde e o garoto não estava mais acordado. Explicou, ainda, que tinha de trabalhar assim para prover o sustento da família, mas também contou que isso o deixava angustiado por não ter tempo para o filho e que tentava se redimir indo beijá-lo todas as noites quando chegava em casa. E, para que o filho soubesse da sua presença, ele dava um nó na ponta do lençol que o cobria.

Isso acontecia religiosamente todas as noites quando ia beijá-lo.

Quando o filho acordava e via o nó, sabia, através dele, que o pai tinha estado ali e o havia beijado. O nó era o meio de comunicação entre eles.

A diretora emocionou-se com aquela singela história e ficou surpresa quando constatou que o filho desse pai era um dos melhores alunos da escola.

O fato nos faz refletir sobre as muitas maneiras das pessoas se fazerem presentes, de se comunicarem com os outros. Aquele pai encontrou a sua, que era simples, mas eficiente. E o mais importante é que o filho percebia, através do nó afetivo, o que o pai estava lhe dizendo .

Por vezes, nos importamos tanto com a forma de dizer as coisas e esquecemos o principal, que é a comunicação através do sentimento, simples gestos como um beijo e um nó na ponta do lençol, que valiam, para aquele filho, muito mais do que presentes ou desculpas vazias.

É válido que nos preocupemos com as pessoas, mas é importante que elas saibam, que elas sintam isso. Para que haja a comunicação é preciso que as pessoas "ouçam" a linguagem do nosso coração, pois, em matéria de afeto, os sentimentos sempre falam mais alto que as palavras.

É por essa razão que um beijo, revestido do mais puro afeto, cura a dor de cabeça, o arranhão no joelho, o medo do escuro.

As pessoas podem não entender o significado de muitas palavras, mas SABEM registrar um gesto de amor. Mesmo que esse gesto seja apenas um nó...

Um nó cheio de afeto e carinho. E você?... Já deu algum nó afetivo hoje?

AUTORIA: não consegui achar a autoria deste texto. se voce souber, por favor me avise.
[Imagen: Lester J. Kern, "First Love II"]

Posted by Lilia at 10:19 AM | Comments (0)

agosto 11, 2005

HEDONISMO

José A. Pimentel

picasso-pablo-la-joi-de-vivre.jpg


Eu li em um dos livros do Ruy Castro que, ainda mais legal do que unir o útil ao agradável, é unir o agradável ao agradável.

A exaltação do desfrute. Há tempos venho ruminando sobre isso. Conheço muitas pessoas que vão ao cinema, a boates e restaurantes e parecem eternamente insatisfeitas. Até que li uma matéria com a escritora Chantal Thomas na revista República e ela elucidou minhas indagações internas com a seguinte frase: "Na sociedade moderna há muito lazer e pouco prazer". Lazer e prazer são palavras que rimam e se assemelham no significado, mas não se substituem. É muito mais fácil conquistar o lazer do que o prazer. Lazer é assistir a um show, cuidar de um jardim, ouvir um disco, namorar, bater papo. Lazer é tudo o que não é dever. É uma desopilação. Automaticamente, associamos isso com o prazer: se não estamos trabalhando, estamos nos divertindo. Simplista demais.

Em primeiro lugar, podemos ter muito prazer trabalhando, é só redefinir o que é prazer. O prazer não está em dedicar um tempo programado para o ócio. O prazer é residente. Está dentro de nós, na maneira como a gente se relaciona com o mundo. Chantal Thomas aborda a idéia de que o turismo, hoje, tem sido mais uma imposição cultural do que um prazer. As pessoas
aglomeram-se em filas de museus e fazem reservas com meses de
antecedência para ir comer no lugar da moda, pouco desfrutando disso tudo.

Como ela diz, temos solicitações culturais em demasia. É quase uma obrigação você consumir o que está em evidência. E se é uma obrigação, ainda que ligeiramente inconsciente, não é um prazer.

Complemento dizendo que as pessoas estão fazendo turismo inclusive pelos sentimentos, passando rápido demais pelas experiências amorosas, entre elas o casamento. Queremos provar um pouquinho de tudo, queremos ser felizes mediante uma novidade. O ritmo é determinado pelas tendências de comportamento, que exigem uma apreensão veloz do universo.

Calma. O prazer é mais baiano.

O prazer não está em ler uma revista, mas na sensação de estar aprendendo algo. Não está em ver o filme que ganhou o Oscar, mas na emoção que ele pode lhe trazer.

Não está em faturar uma garota, mas no encontro das almas. Está em tudo o que fazemos sem estar atendendo a pedidos. Está no silêncio, no espírito, está menos na mão única e mais na contramão.

O prazer está em sentir. Uma obviedade que merece ser resgatada antes que a gente comece a unir o útil com o útil, deixando o agradável pra lá.

Fonte: Fatos e Dados
[Imagem: Picasso, "La Joi de Vivre"]

Posted by Lilia at 04:19 PM | Comments (1)

agosto 10, 2005

Em busca da sabedoria

buscasabedoria-Heart-Mandala.jpg Desenvolver o que se chama de inteligência espiritual é um grande passo rumo à paz de espírito

Alcançar o sentimento de felicidade alheio às condições financeiras e circunstâncias da vida. Uma tarefa aparentemente impossível, não é? Não. Pelo menos para quem cultiva uma inteligência que vai além do raciocínio lógico, do conhecimento científico e de outros parâmetros que costumam medir o intelecto humano. Trata-se de desenvolver a chamada inteligência espiritual, uma faculdade difícil de ser alcançada, mensurada ou definida, mas que começa a ser pensada como uma ferramenta de transcendência do espírito, sustentada pela fé - seja ela religiosa ou não -, em que se percebe o quão rico é o universo e que o apego a pequenas coisas pode impedir a concretização de uma vida mais leve e feliz.

À primeira vista, parece conversa de maluco. Mas basta o convívio - ou um mero contato - com quem vive uma busca constante pelo autoconhecimento e por meios de apreciar cada detalhe da existência, para questionar esse rótulo e perceber que de loucos eles não têm nada.

Dalai Lama, Mahatma Gandhi e São Francisco de Assis são exemplos de gente que soube traçar um caminho em busca da espiritualidade. Mas não é preciso ser um mito para ser admirável. A inteligência espiritual independe de classe social, raça, religião ou profissão.

A atriz paulista Odete Lara, musa da bossa nova e do Cinema Novo, escandalizou o Brasil ao fazer sexo com Norma Bengell no filme Noite Vazia, de Walter Hugo Khoury, em 1964. Uma cena polêmica que incomodou os moralistas da época e encheu os homens de desejo. Apesar do sucesso que fazia, Odete não se sentia realizada. ''Minha vida era agitada, cheia de correria, voltada unicamente para o trabalho. Seguia um ritmo baseado na competição que normalmente impera nos grandes centros urbanos. Eu não era feliz. Só conhecia a falta de sossego e a ansiedade.''

Aos poucos, a então atriz começou a procurar outras formas de ser e de viver. Com muita leitura e travando contato com pessoas que buscavam tanto quanto ela a paz de espírito, Odete se transformou. Largou a carreira em 1974 e hoje vive em um sítio em Nova Friburgo, Região Serrana do Rio. Convertida ao zen-budismo, mantém uma rotina simples e pacata, porém bem mais agradável.

''Tenho o hábito de cuidar da qualidade da minha alimentação, faço exercícios de ioga, caminho e medito diariamente'', conta.
Apenas uma coisa a entristece. ''O sistema voltado unicamente para o lucro, que reina no mundo e causa tanta injustiça e, conseqüentemente, violência. Não fosse isso, minha felicidade seria total''.

A prática da meditação realmente parece ser um grande instrumento para alcançar esse estágio de transcendência, desapego material e autoconhecimento. Mas, não é necessário ser budista como Odete para desenvolver uma ''alma inteligente''. A fé, seja em Deus, Alá ou em uma força superior ''não nominada'' leva a uma conexão com o inexplicável e ajuda o ser humano a entender o que não é palpável nem óbvio. Ajuda a preencher, por exemplo, o vazio deixado pela falta de respostas para famosas questões como ''quem somos?'', ''de onde viemos?'', ''para onde vamos?''.

''Ter fé é possuir a capacidade de lidar com a vida e com o que ela nos oferece e propõe. A gente deve aprender a apreciar isso tudo'', ensina o rabino Nilton Bonder, autor do livro Fronteiras da Inteligência - A Sabedoria da Espiritualidade (ed. Campus). Assim como Bonder, o antropólogo Leonardo Boff acredita no poder das religiões para atingir a inteligência espiritual, já que são expressões claras e ferramentas de transcendência.

''Por caminhos diferentes, todas as religiões querem dizer que o ser humano não é refém deste mundo. No Brasil, é lindo o fato de nós não nos fixamos em uma só expressão de religiosidade. Incorporamos várias, como a católica, a evangélica, a budista, a tradição afro-brasileira do candomblé, o santo daime, entre outras'', exemplifica Boff, autor de Tempo de Transcendência (ed. Sextante).

O antropólogo explica que essa transcendência é a capacidade que o ser humano tem de superar os limites impostos. Não em termos materiais, mas na construção de um pensamento infinito, que ultrapassa as barreiras. ''Esse termo define o homem como aquele que está no mundo e no universo, mas que não pode ser aprisionado. Somente o infinito sacia sua busca sem fim'', completa.

Apesar de concordarem com o papel positivo que a prática religiosa pode desempenhar na busca pela espiritualidade, Leonardo Boff e Nilton Bonder alertam para o risco da má interpretação ou da ignorância. ''Todas as religiões incorporam não apenas limitações, mas também equívocos e erros. Por exemplo, dificilmente se nota a espiritualidade numa religião que rebaixa a mulher ou despreza minorias, como os homossexuais. Devemos sempre, a partir da transcendência, submeter todas as religiões a uma crítica severa. Verificar se elas favorecem esta experiência ou se a dificultam'', ressalta Boff, expulso da Igreja Católica por ir de encontro a certos paradigmas da instituição.

Bonder também faz seu alerta. ''É preciso ter cuidado com as tradições religiosas, porque elas também podem ser uma forma de preencher a ignorância apenas para gerar dominação e superstição'', pondera o rabino.

Ma Prem Achala, que se chamava Rosana San Juan e era uma típica workaholic, parece já ter entendido esses recados. Se durante uma época ela foi, como conta, ''histérica, nervosa, impaciente, ansiosa'', entre outros adjetivos comuns para pessoas dominadas pela competição capitalista, hoje ela aprecia e dá valor a cada momento simples da vida. ''O mundo é mágico. Precisamos enxergar tudo o que acontece como uma possibilidade de crescimento, procurando aprender inclusive com os episódios mais tristes e difíceis'', afirma.

Para ela, até de sentimentos negativos podemos tirar proveito. ''Devemos trabalhá-los procurando canalizar a emoção que proporcionam para atitudes positivas'', diz ela, que apesar de bem mais tranqüila, jura que não perdeu a intensidade com que realiza suas atividades diárias.

Achala, que trabalha com grupos de meditação e autoconhecimento no centro Namastê, acredita tanto na melhora de sua qualidade de vida que se autodelegou uma missão: ''Procuro ser uma agente de mudanças no mundo, pois não podemos nos ausentar dos problemas que existem. Gosto de fazer com que as pessoas sejam mais felizes e vivam mais em paz com elas mesmas. Assim, dou minha contribuição para mudanças de vida, que podem ser individuais ou para a sociedade como um todo'', diz.

Leonardo Boff, um crítico severo da cultura que predomina no mundo, não poupa certas formas de busca de autoconhecimento na hora de definir o papel da inteligência espiritual. ''Valoriza-se o que pode ser desfrutado e consumido imediatamente. Há uma oferta de todos os tipos de produto para preencher as carências que todo ser humano possui, mas esse não é o caminho. Transcendemos quando procuramos melhorar, crescer e abrir novos horizontes. Além de recomeçar. Sempre'', ensina.

Quem pode deter os tsunamis, furacões, terremotos e tempestades? Boff responde à própria pergunta sem titubear. ''Nem Bush com toda a sua arrogância.'' Fenômenos naturais como os que vêm assolando o mundo são exemplos para vermos como a vida é efêmera e o ser humano é pequeno diante do universo.

O lado prático
Por ser uma expressão teoricamente nova e sem um significado completamente definido, o conceito de ''inteligência espiritual'' conta com diferentes interpretações. Em seu livro Inteligência espiritual (ed. Mauad), a escritora Maria Nunes atribui à expressão características práticas - com uma pitada de psicologia -, fugindo da espiritualidade, mas sem abandonar a idéia do autoconhecimento.

Para a autora, a inteligência espiritual ajuda a compreender e a conviver com fenômenos que ocorrem em nossas vidas e que, segundo ela, não têm explicação lógica. Entre eles, sonhos lúcidos, coincidências, clarividência, premonição, telepatia e o tão corriqueiro déjà vu.

''O pressentimento é um deles. É algo que vem de forma inesperada, não programada. É fruto de uma intuição. Onde entra a inteligência espiritual? No discernimento, na tomada de decisão sobre a crença ou não nesse presságio. Conforme a pessoa desenvolve a capacidade intelectual do espírito, ela será mais capaz de fazer essa distinção.''

Entre as maneiras de atingir esse estado de consciência, a escritora destaca atitudes como evitar reações automáticas e cultivar o silêncio.

Objetivos
* Conseguir dar um ''tom sagrado'' a pequenas coisas da vida
* Não se deixar abater facilmente e tirar lições positivas sempre, até de fatos ruins
* Buscar um estado constante de bom humor
* Ser otimista até em situações adversas
* Assumir a culpa por suas ações, sem se colocar em posição de vítima
* Ter capacidade de transcendência, ou seja, de superar limites
* Buscar atitudes nobres como perdão, compaixão, humildade, gratidão e solidariedade
* Transformar sentimentos negativos em atitudes positivas. Por exemplo: usar a raiva como fator de motivação
* Evitar o apego a bens materiais e amar mais os seres humanos
* Buscar sempre o autoconhecimento

Fonte: artigo publicado no Jornal do Brasil de 15 de janeiro de 2005.
AUTORIA: recebi e-mail da Maria Nunes que informou a fonte do texto e explicou "Especificamente a referência a meu trabalho foi O LADO PRÁTICO."

[Imagem: Creative Studio, "Heart Mandala"]

Posted by Lilia at 10:15 AM | Comments (0)

agosto 09, 2005

Psicoterapia não é coisa pra louco!

Maria Aparecida Diniz Bressani

psicoterapianao-Picasso-VisagedeFemmeSurFondRaye.jpg Fico estupefata que, mesmo estando no século 21, com uma gama de informações extraordinária disponivel, ainda haja tanto preconceito e mal entendido sobre o que seja e para quem seja psicoterapia.
Existe ainda grande resistência por parte das pessoas - mesmo por aquelas que buscam sites, livros ou qualquer outro veículo de auto-ajuda - sobre o fato de entrarem num processo de psicoterapia.

O que ocorre comumente é uma pseudo-precupação, onde a grande ânsia é apenas em tirar a angústia, a ansiedade, o mal estar ou qualquer outro sintoma e não em resolver, efetivamente, o que causa tais sintomas.
Quando sugiro para alguém que seria bom que fizesse psicoterapia sempre vem aquela pergunta: "Você acha?...", juntamente com aquele olhar interrogativo como que completando a pergunta "... que eu preciso?" Como se houvesse na minha indicação alguma insinuação de que a pessoa é louca ou coisa parecida.

E devido a este preconceito a pessoa vai se arrastando pela vida e arrastando as situações em que vive, sem conseguir resolvê-las com eficácia e a seu favor.
Eu até entendo que o que está por trás deste preconceito em relação à psicoterapia é o medo do encontro consigo próprio, de encarar-se e, consequentemente, de perceber os seus equívocos e suas ilusões sobre si mesmo. Sei também que, além disso, a maioria das pessoas não foi educada para se perceber e se levar a sério (a nossa cultura ainda tem dificuldade em olhar uma criança como alguém perceptivo!).

Outro grande problema que impede as pessoas de ir na busca do processo de psicoterapia é a baixa disponibilidade para si próprio - justamente por não se levarem a sério e às suas reais necessidades.
É difícil a pessoa colocar-se disponível para si mesmo, pois tem receio de cortar os fios da teia na qual está preso por tem medo de cair num vazio maior no qual já sente estar. Por isso, cria justificativas lógicas e plausíveis (racionalizações) que, na maioria das vezes, a coloca como vítima da própria vida, sem se dar conta da sua cota de responsabilidade sobre a mesma.
Existe por parte das pessoas, de uma forma geral, uma séria dificuldade em entender que psicoterapia é algo que tem como função ajudá-las no processo natural da vida, que é se desenvolver. Então, assim, ainda existe um certo constrangimento quanto ao porquê da necessidade da psicoterapia.
Nascemos com um "projeto de vida", que muitas pessoas chamam de "destino". E qual seria este senão o próprio desenvolvimento da consciência e o colaborar no desenvolvimento da nossa própria espécie?
Queiramos ou não esses desenvolvimentos acontecem (da consciência e da espécie) da mesma forma que o desenvolvimento físico também se dá.

O processo de psicoterapia ajuda no curso natural do desenvolvimento da consciência, elevando-a mais rapidamente e, muitas vezes, além da média; eliminando, desta forma, o sofrimento e as angústias vividas ao longo da vida. Isto não significa que não haverão mais problemas, mas, sim, que a pessoa aprende a lançar um novo olhar sobre si e sobre a vida, proporcionado-se satisfatória saúde emocional e boa qualidade de vida.

A psicoterapia é a possibilidade de encontrar-se com seu verdadeiro Eu - que Jung chamou de Self. É a possibilidade de desmanchar as ilusões e as racionalizações sobre seus comportamentos, além de poder compreender as reais motivações que os geraram. É a possibilidade de redirecionar positivamente o fluxo de energia da vida - que na maioria das vezes está represado ou canalizado para situações que são negativas ou até mesmo destrutivas e não proporcionam a verdadeira sensação de bem estar e realização pessoal. É a possibilidade de sair da teia, um emaranhado de fios de "verdades absolutas" estabelecidas (que não o foram, necessariamente, por si próprio e sim, muitas vezes, "herdadas" da família, via educação).
Normalmente, quando essas "verdades" são herdadas e vividas, ou a pessoa segue-as na íntegra, ou faz exatamente o contrário, por assim acreditar que está seguindo o próprio caminho (o que não é verdade, pois os parâmetros continuam sendo os familiares); sobrando a sensação de insatisfação e de vazio constante.

Acredito no trabalho da psicoterapia, justamente porque também já estive do "lado de lá" - no meu próprio processo de psicoterapia - além do meu trabalho como profissional, onde sou testemunha do bem que este processo de desenvolvimento da autoconsciência promove na qualidade de vida de uma pessoa.
Por isso, acredito que psicoterapia é uma modalidade de processo de autoconhecimento que serve para todos, em larga escala, sem restrição de idade ou crença.
A psicoterapia promove ampliação e expansão da consciência sobre si mesmo - elevando o nível de autoconsciência - sobre seu verdadeiro Eu - e, consequentemente, sobre suas reais necessidades e motivações.
Essa ampliação e expansão da consciência levam a um caminho de luz; pois, consciência é exatamente isso: Luz.
Enquanto que quando vivemos ignorantes de nós mesmos (sem o sabermos!), vivemos nas sombras, se não, na própria escuridão; andando pela vida como sonâmbulos, com comportamentos - movimentos, ações e reações – “no automático”.

A psicoterapia é o caminho para o desenvolvimento da luz na própria vida, ou seja, serve como canal para que a pessoa descubra dentro de si todo um potencial ainda desconhecido de si mesma e, a partir daí, aplicá-lo na própria vida. Afinal, só podemos utilizar o que sabemos que temos!
Apenas quando descobrimos nossos potenciais podemos administrar com tranqüilidade nossas limitações individuais e nos aproximar de nós, enquanto seres humanos que somos.
Apenas quando dissipamos nossos equívocos e ilusões sobre nós mesmos é que podemos nos levar a sério e aí, sim, colocamo-nos à nossa disposição - nos tornamos auto-disponíveis e mais abertos para a vida e para as pessoas.
Apenas quando conhecemos nossos recursos (tesouros escondidos!), conseguimos tranqüilizar nossa a ansiedade, eliminando o medo do futuro.
Apenas quando podermos olhar nos nossos olhos - sem medo do que encontraremos no fundo deles - é que conseguiremos viver uma vida mais pessoal e plena, com aplicação adequada dos nossos melhores recursos, proporcionando-nos uma real e boa qualidade de vida, impregnada de amor e respeito.
E com isso todos ganhamos: nós mesmos, as pessoas à nossa volta e a própria humanidade, da qual fazemos parte.

Então, sob este prisma, como alguém pode sequer pensar que psicoterapia é "coisa pra louco"??

Fonte: Somos Todos Um
[Imagem: Picasso, "Visage de Femme Sur Fond Raye"]

Posted by Lilia at 05:05 PM | Comments (0)

agosto 08, 2005

Troque a vítima pelo buscador...

Rubia A. Dantés

troquevitima-Picasso-SanLazzaroetSesAmis.jpg Estava pensando como o momento que estamos passando é tão decisivo para cada um de nós e para o planeta como um todo, que deveríamos aproveitar todas as oportunidades de crescimento com profunda gratidão, quando me veio na memória a lembrança de um tempo que passou onde a atitude de uma pessoa querida me magoou...

Na verdade eu me deixei magoar porque nós é que decidimos o que vamos fazer com as coisas que nos acontecem...
Naquela época eu não tinha essa clareza e lembro que fiquei um bom tempo triste, me lamentando... julgando o acontecimento a partir da minha visão limitada. E aquilo ao invés de me aliviar só aumentava a dor... Confesso que fiquei na posição de vítima indefesa... Mas isso de nada adiantou...

Depois de muito insistir na mesma tecla e não ver nenhum resultado a não ser ficar cada vez mais triste e sem motivação, resolvi mudar a minha visão e buscar o que mais poderia haver naquele acontecimento que tinha feito com que me magoasse tanto...

Afastei-me um pouco de tudo, tentando olhar de uma forma mais ampla... e foi aí que entendi o que aquela situação toda estava querendo me mostrar... Ficou claro que culpando o outro e me colocando como vítima eu estava tentando me proteger de entrar em contato com o que o Universo estava me dando com tanta perfeição. Uma oportunidade de liberar um medo antigo e até então, inconsciente.
A partir dessa nova perspectiva, pude perceber que aquela experiência continha inúmeras oportunidades de aprendizado... e me indicavam um caminho que fez grande diferença, um caminho onde passei por mortes e renascimentos... de onde saí mais inteira... mais próxima de mim e do Todo...

Neste momento tão especial que o planeta está passando, onde cada um... na sua história pessoal, também está passando por grandes transformações... é importante lembrar que todas as situações que trazem dor ou algum incômodo também trazem a chave da nossa transformação....

Muitas vezes culpar o outro e ficar na posição de vítima indefesa são mecanismos que usamos para não entrar em contato com as nossas dores, medos, culpas... etc.

Hoje eu sempre procuro o outro lado da história... antes de culpar a Deus e o mundo pelas coisas, busco o que aquela situação está me trazendo em oportunidades de crescer e de me transformar em alguém melhor e mais feliz... o que conseqüentemente beneficia ao Todo.

Vamos perceber que esse é o melhor caminho quando, ao liberamos o que quer que seja que estava nos impedindo de caminhar ou limitando a nossa vida, as coisas começam a fluir com muito mais facilidade, porque ganhamos uma dose extra de energia que estava bloqueada por aquelas situações...

Essa postura aparentemente simples tem um poder enorme de mudar tudo... parece milagre quando trocamos o papel de vítimas sem ação pelo papel de buscadores de oportunidades de crescimento.

Uma coisa que também tem um efeito grande para nos tirar da posição de vítimas é lembrar que tudo o que passamos fomos nós que criamos através dos nossos pensamentos, palavras e atos e que ninguém é vítima inocente de nada... Estamos apenas colhendo o que plantamos nessa e em outras vidas... e isso faz com que escolhamos com mais cuidado o que estamos semeando no presente.
Penso que o Universo em sua infinita sabedoria e compaixão nos traz sempre, nesses rebates do tempo, o retorno das nossas ações, como uma nova oportunidade para que nos tornemos seres mais inteiros ao resgatarmos partes nossas que estavam presas nessas histórias antigas...

Nos liberamos... liberamos energia, que pode então ser usada com mais consciência... Luz e Amor.

Fonte: Somo Todos Um
[Imagem: Picasso, "Lazzaro et Ses Amis"]

Posted by Lilia at 12:56 PM | Comments (0)

'Evoluídos' sentem raiva só por um minuto

Emilce Shrividya

evoluidosraiva-AtanourDoganAngryBoy.jpg As escrituras do yoga dizem que uma pessoa evoluída conserva sua raiva por um minuto; uma pessoa comum conserva-a por meia hora e uma pessoa ainda não evoluída conserva sua raiva por um dia e uma noite. Mas uma pessoa cheia de mágoas lembra-se de sua raiva até morrer.

É humano sentir raiva, faz parte de nossa evolução, mas devemos esquecê-la rapidamente. Não devemos alimentá-la nos lembrando dela, nem remoendo acontecimentos passados, porque a raiva causa uma grande inquietude interior.

Somos as primeiras vítimas de nossa própria raiva. Ela nos queima por dentro, tirando nossa paz; obscurece nossos pensamentos, distorce nossas percepções.

A raiva acumulada, guardada um pouco aqui e ali, nos prejudica muito e nos afasta de Deus, de nossa verdadeira essência divina, de nossa bondade e compaixão.

As pessoas pensam que alguém ou algo lhes provoca raiva, mas essa raiva já existe dentro delas, é criada e mantida por elas. Se você sente raiva, não pode culpar a ninguém a não ser você mesmo.

Aprenda a lidar com a raiva
É necessário aprender a lidar com a raiva e nos livrar de seus efeitos negativos tanto físicos, mentais e espirituais.

Como o desejo está muito ligado à raiva, é importante quando sentimos raiva perguntar a nós mesmos o que queremos desta situação que não estamos conseguindo. Isto cria uma mudança em nosso foco. E em vez de ficarmos presos na raiva, nós a observamos. E logo depois, podemos perguntar a nós mesmos de que outra maneira podemos conseguir o que queremos. E podemos perceber que idéias alternativas surgem na mente e isto melhora nossa frustração e diminui a raiva.

Existem pessoas que gostam de ficar com raiva. Sentem satisfação, poder e liberdade quando têm explosões de raiva. Acham que até aliviam as tensões, mas depois se culpam e lutam para controlar isso. Ajudaria muito se elas entendessem que mesmo que possam sentir alívio no momento, isto não funciona. A raiva apenas escraviza, e é prejudicial tanto fisicamente, psicologicamente e espiritualmente.

Porém existem momentos que a raiva é incontrolável e nem temos tempo de nos fazer perguntas sobre o que queremos. Nesses momentos, não é possível sentir desapego, ficamos presos completamente. O que podemos fazer?

A melhor saída
A melhor saída é sair da situação, dar uma volta, se afastar do ambiente ou da pessoa, tomar um copo de água, respirar algumas vezes profundamente, lembrar-se de Deus, do mantra.

Depois quando nos acalmarmos, podemos voltar e lidar com o assunto de uma maneira mais equilibrada, sem ofender e magoar os outros; sem nos desequilibrar.

Quando falamos de uma maneira tranqüila sem raiva, o outro pode até nos entender e ouvir melhor, mas quando falamos com raiva só criamos mais conflitos e desarmonia.

Para se afastar no momento da discussão ou apenas ficar calado até se acalmar é necessário humildade. Quando estamos com muita raiva, queremos que a outra pessoa admita que está errada e isto é orgulho. Esse orgulho impede que nos acalmemos. Mas se você admitir que dissolver a raiva é mais importante do que provar que o outro está errado, você sente a humildade que lhe liberta da tirania da raiva.

Todos os inimigos internos alimentam uns aos outros e se estamos presos no orgulho é mais difícil lidar com a raiva. A humildade nos ajuda a testemunhar o que está acontecendo dentro de nós.
Em vez de guardamos raiva por horas, ou dias, podemos largá-la logo e evitar assim muitos momentos de sofrimento. Basta não alimentarmos essa raiva, não remoendo e lembrando acontecimentos passados. Se voltarmos nossa atenção para outras coisas e para o momento presente, ficamos livres da raiva e podemos ter momentos felizes.

A raiva acumulada desde a infância gera a depressão que tira a alegria de viver. Hoje em dia muitos médicos receitam remédios para depressão que podem até aliviar um pouco os sintomas, mas enquanto a pessoa não for na causa verdadeira da depressão, ela vai ficar sempre dependente e triste, pois depressão é uma doença da alma.

Como diz a Bhagavad Gita, uma escritura do Yoga:
Aquele que é capaz de suportar, aqui na terra, a agitação que resulta do desejo e da raiva, é disciplinado; ele é verdadeiramente um homem feliz.[5:23]

Cultive emoções positivas
Porém não podemos nos libertar da raiva simplesmente suprimindo-a. É necessário cultivar com constância os antídotos da raiva: a tolerância e a paciência.

Perceba em sua vida os efeitos benéficos da tolerância e da paciência e perceba também os efeitos destrutivos e negativos da raiva, dos ressentimentos e mágoas.

Estas contemplação e conscientização vai lhe motivar a desenvolver esses sentimentos de tolerância, paciência e aceitação além de fazer com que você tenha mais cuidado em não alimentar pensamentos de raiva.

Para ficarmos livres desse inimigo interno tão destrutivo que surge de uma mente insatisfeita e descontente, é essencial gerar o contentamento interior, a gratidão e o entusiasmo; cultivar a bondade, a benevolência e a compaixão. Isto vai produzindo serenidade mental que impede a raiva de se manifestar.

A prática regular da meditação nos ajuda muito a dissolver a raiva e transformá-la em paciência, aceitação, e o perdão surgirá espontaneamente. Com o perdão podemos abandonar os sentimentos negativos associados aos acontecimentos passados nos livrando das sensações de raiva e ressentimentos. Fique em paz!

Referências bibliográficas:
Encontrei a Vida- Muktananda, Swami- Ed. Vozes.
Lama, Dali-A arte da Felicidade-Ed. Martins Fontes.
Meu Senhor ama um coração puro- Chidvilasananda,Swami- Ed. Siddha Yoga Dham Brasil

Fonte: Vya Estelar
[Imagem: Atanour Dogan, "Angry Boy"]

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agosto 06, 2005

Lugar do afeto

jornalista Juliana Krapp

lugarafeto-ConsueloGamboa-Afertnonn-TeaII.jpg Não basta fazer amigos. Psiquiatra reafirma a importância de se preservar as amizades conquistadas

É uma coisa esquisita, mas fica horrivelmente mais difícil fazer amigos depois da adolescência . A conclusão é do psicanalista Francisco Daudt da Veiga, exposta no seu livro "O Amor Companheiro", que fala sobre a amizade e seus desdobramentos. Mas, apesar das dificuldades, a vontade de compartilhar o próprio universo - esse amor companheiro, livre do desejo sexual - continua sendo uma das melhores coisas da vida.

E por que, afinal, é tão difícil fazer amigos? "Porque é algo que requer de duas pessoas abertura, confiança, afinidade, privacidade e tempo de investimento. A reunião de tantos fatores depois que ficamos adultos é muito rara, portanto difícil", responde Daudt. Ao mesmo tempo, o autor afirma que se torna mais fácil conquistar novos amigos depois dos 50 anos, quando "os receios do que vão dizer diminuem e o poder de escolha e o tempo disponível aumentam".

Daudt acredita que a base de fazer amigos não é muito diferente de paquerar: é preciso ter vontade. Ele cita inúmeras situações de convívio que criam oportunidades para isso: cursos, universidades, grupos de estudo, agremiações com fins variados. E a internet, por sua vez, está aí para dar uma mãozinha. Segundo Daudt, o e-mail é um reavivador de amizades antigas, "um grande lugar para a palavra breve e afetuosa: é o cartão-bilhete renascido", garante.

João Maia, pesquisador e professor de Teoria da Comunicação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), concorda que a internet é um ótimo lugar para fazer amigos. E destaca a facilidade que ela tem de agrupar tribos de interesses comuns. Mas como confiar em uma pessoa cuja face às vezes sequer conhecemos? Será que as amizades feitas no mundo virtual são válidas também para o real?

"Eu não faço distinção entre o virtual e o real. O que existe do outro lado da tela é sempre uma pessoa, com sua carga de mentiras e verdades, da mesma forma que no contato face a face. A vida é construída de encontros e desencontros, e a internet é um canal, uma possibilidade de estabelecer novos contatos", afirma.

Maia cita uma prova do sucesso dessas amizades via web: a profusão de ircontros , organizados por pessoas que se conheceram na rede, numa analogia a expressão IRC, Internet Related Chat , bate-papo na internet. Para ele, a rede tem um papel muito parecido com a correspondência feita antigamente, quando as pessoas passavam anos sem se ver, mas estabeleciam laços de afeto pela troca de cartas. "As pessoas constantemente inventam instrumentos para eliminar a distância entre si, e isso é uma coisa muito boa", garante.

Mas não basta fazer amigos. É preciso também mantê-los. Em seu livro, Daudt cita exemplos de certos cuidados que todos deveríamos tomar para preservar as amizades. Ele afirma que é preciso constantemente "aquecer o coração" daqueles que amamos: "Aquecer o coração é o pequeno gesto que, de tão pessoal, aciona a sensação de que alguém nos vê, nos percebe e gosta da gente. Outro dia um amigo me ligou só para dizer que os livrinhos do Carlos Zéfiro vão voltar às bancas. Que legal, que carinhoso e cúmplice, que nostálgico e pessoal, que consideração com nossa memória e nossa adolescência pela vida afora. Aqueceu meu coração".

[Imagem: ]

Posted by Lilia at 10:32 AM | Comments (0)

Artes Culinárias

Marcia Frazão

arteculinaria-linda-paul-french_country_kitchen.jpg Depois das refeições, Vitalina recolhia-se à cozinha. Lavava a louça, enxugava os pratos, arrumava os talheres na gaveta, sacudia a toalha de mesa e pendurava o pano de prato no varal do quintal. Depois, servia-se de um cálice de vinho do Porto, acendia um cigarro, sentava-se à velha mesa e ligava o rádio. As notas de Moon Light Serenade aninhavam-se no bolso de seu avental que não era sujo de ovo, mas guardava estrelas. Sílvio Caldas, talvez por ciúmes de Duke Ellington ou por não resistir a um regaço moreno, aveludava ainda mais a voz e cantava só para ela.
Vitalina gostava desses galanteios.

Cresci dentro de uma cozinha que cantava e recitava trechos de antigas novelas. Por premonição estética ou por vergonha de não saber ler, Vitalina tinha na cozinha (para ser usado no futuro) um grosso volume de poesias de Cruz e Souza. Não sabia decifrar as letras, mas aprendera a gostar do moço que dentro do livro morava. Ah, o livro! Um livro que aprendeu a falar à medida que na escola eu conhecia as letras. E, quando cheguei ao Z e ao domínio dos verbos, dos pronomes, das conjunções, dos hiatos e dos objetos diretos e indiretos, o moço do livro soltou a fala. Disse que era um poeta. Vitalina gostou tanto de suas palavras, que lhe pediu para trazer os amigos "para uma prosinha". O moço não se fez de rogado e trouxe um animado bando que, num piscar de olhos, transformou a velha cozinha num recanto boêmio. Todos os dias, enquanto Vitalina refogava o feijão ou assava um bolo, lá se reuniam Neruda, Eluard, Camões, Castro Alves, Gregório de Matos, Rimbaud, Allen Ginsberg, Baudelaire, Elisabeth Bishop, Pound, Augusto dos Anjos, Dorothy Parker, Lorca... para beber licor de jenipapo ao som da Rádio Nacional e das histórias que Vitalina tão bem narrava.

O endereço da boemia espalhou-se, e vieram os pintores. Picasso ficou maluco com os potes de barro que Vitalina ganhara de Mestre Vitalino. Dali levou Gala. Goya chegou desacompanhado. Degas apareceu com umas bailarinas. Vieram muitos, aos bandos. Os atores chegaram por último (trabalhavam até tarde), acompanhados por amigos cantores. Maria Callas chegou com Theda Bara, uma chegada triunfal; Callas nas vestes de Medéia, e Theda nas de Cleópatra. Procópio Ferreira surgiu com um querubim baixinho chamado Grande Otelo; Cacilda Becker com Pixinguinha e Donga; Fernanda Montenegro com uma nereida chamada Chiquinha Gonzaga. E foram tantos que lá foram, que eu poderia jurar que Eurípedes e Shakespeare também por lá apareceram.

Aos domingos, as mulheres da minha família se reuniam, e Vitalina narrava as artes da boemia. Ninguém se espantava. Afinal, eram bruxas, e se bruxas podiam voar em vassouras por que seria impossível poetas saírem dos livros, pintores surgirem das telas, atores reprensetarem à mesa e cantores fugirem dos discos? Não, as "artes" não eram nada improváveis.

Os anos se passaram e a boemia cresceu. Vieram os vizinhos e em pouco tempo o bairro inteiro. Vitalina cozinhava e o improvável acontecia. Os noivos se casavam, os feios embelezavam, os malvados adocicavam, e os velhos rejuvenesciam.

Um dia, Deus, que já estava cansado (e com ciúmes) de ouvir as histórias da tal boemia, não resistiu ao cheirinho do bolo que Vitalina assava e a chamou para viver com Ele. Vitalina aceitou o convite e fez de Deus sua última conquista. Dizem que ela foi a primeira a conquistá-Lo pela boca!

Fonte: tribuna do sol

[Imagem: Linda Paul, French Country Kitchen]

Posted by Lilia at 09:09 AM | Comments (2)

agosto 04, 2005

LIÇÕES DA VIDA

Jair Moggi

licoesvida-NellWhatmore-Birds-of-Feather.jpg "Cada período de sete anos é um ciclo que traz lições importantes para corpo, mente e espírito"

Somos atores, diretores e roteiristas do filme de nossas vidas – que é único e exclusivo. Também atuamos nos filmes alheios, como personagens. O trabalho biográfico, sob a forma de coaching, encara essas histórias como um patrimônio existencial formado por nossos encontros e desencontros, emoções e atitudes. Mais ainda: reconhece essas experiências como uma fonte que revela os potenciais de cada um para a felicidade e para a missão que tem na vida. Apesar da imensa diversidade – afinal, não há duas pessoas iguais neste mundo –, algumas leis biográficas são imutáveis e valem para todos.

Conhecer essas leis e entender como elas atuam em nossas vidas é um dos instrumentos mais poderosos para quem deseja tomar o destino nas mãos.

Na linha de pesquisas do pensador austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), esse trabalho promove uma aproximação consciente de três aspectos fundamentais de nossa existência: as questões espirituais e as relacionadas à vida e ao trabalho.

Com essa visão, a busca da felicidade ganha sentido amplo e envolve aspectos pessoais e familiares, além daqueles ligados à carreira, à liderança e ao nosso papel dentro das organizações. Quando as pessoas conhecem as leis que regem a vida, encontram coincidências e discrepâncias. Muitos executivos, por exemplo, evoluem precocemente no nível intelectual (pensar) e no querer (agir), em detrimento da maturidade emocional (sentir). O grau de realização profissional depende em grande parte da qualidade de nossas vidas, de nosso equilíbrio interno. Assim, ao conseguir respostas satisfatórias para as questões espirituais, teremos uma chance muito maior de viver uma existência plena.

As referencias para nosso desenvolvimento nas diversas fases da vida são as seguintes: do momento em que nascemos aos 21 anos há o amadurecimento biológico, do corpo; dos 21 aos 42 anos, nos desenvolvemos psicologicamente; e a partir dos 42 anos acontece o amadurecimento espiritual. Cada uma dessas fases pode ser subdividida em três períodos de sete anos – exatamente como faziam os antigos, que encaravam a vida como uma serie de setênios e os marcavam com ritos de passagem. Alguns desses ritos sobrevivem até hoje.

Para os católicos, por exemplo, 7 anos é a idade que se faz a primeira comunhão; aos 14 anos, vem a crisma. Os 14 anos também marcam o final da fase infantil e o início da juvenil. Aos 21 anos, segundo tradições romanas, começa a maioridade.
Há também fenômenos fisiológicos ligados à passagem dos setênios. Aos 7 anos, os dentes de leite caem. A cada 7 anos, nossos órgão têm todas as suas cédulas renovadas. É possível usar o mesmo raciocínio em relação à carreira. Se alguém me pedisse para descrever os setênios da vida pessoal e profissional, poderia fazer desta maneira:

Fase emotiva: Dos 21 aos 28 anos
Para representar essa fase, os gregos usavam a imagem arquetípica do centauro. Metade homem, metade cavalo – querendo dizer que somos “meio bestas” porque ainda não conseguimos dominar as emoções. Nesse setênio as habilidades técnicas tornaram-se mais evidentes. O jovem quer saber como as coisas funcionam e como o conhecimento técnico é aplicado. Muitos trainess chegam à empresa nessa etapa da vida, sem noção da complexidade que os espera. O 28º ano de vida geralmente é marcado pela crise do talento. Até então, tudo é espontâneo, mas a partir daí as realizações dependem 90% da transpiração – a inspiração contribui com apensas 10% do sucesso. Depois dos 28 anos, muitos talentos vão para o anonimato e não são poucos os profissionais que entram em depressão por não saber lidar com isso.

É mais ou menos assim que acontece
O gráfico abaixo mostra as curvas do desenvolvimento descritas nesta reportagem. A curva A, por exemplo, é a do desenvolvimento biológico, que apresenta forte crescimento até os 21 anos. Dos 21 aos 42 anos, as forças vitais mantêm o equilíbrio, e a partir dos 42 anos inicia-se o declínio biológico. A Curva B representa a individualidade, o eu. Todos nascemos com potencial espiritual, talento e vocação. A individualidade toma posse do corpo ao nascimento, integra-se com ele até o meio da vida. A partir daí começa a desprender-se até desligar-se do corpo físico na morte. Finalmente vem a curva C, que representa o desenvolvimento psicológico ou da alma. É o palco das vivencias e lutas internas e sofre influências do meio ambiente. Na primeira metade da vida, a curva da alma (C) acompanha a curva biológica (A). Mas depois para onde evolui a curva anímica?

Para baixo, acompanhando a curva biológica, ou para cima, seguindo a curva espiritual? Depende de como conduzimos a vida – essa é uma questão de escolha pessoal.

Fase racional: Dos 28 aos 35 anos
De centauros, nos transformamos em cavaleiros, uma vez que conseguimos controlar mais as rédeas de nossas emoções. A razão domina os impulsos e começamos a ponderar antes de tomar decisões. Nessa fase, desabrocham as habilidades sociais e passamos a considerar os outros em nossas decisões. Saber falar e saber ouvir é uma característica evidente em profissionais dessa faixa etária. É a fase em que o eu está mais ligado ao corpo físico. Até aqui quase todos os ventos nos foram favoráveis.

Agora é hora de começar a devolver ao mundo os benefícios que recebemos. O momento é crucial. Entre os 30 e os 33 anos, vemos a diferença entre a biografia interna (ser) e a externa (ter). É possível ter dinheiro, bens , diplomas, sexo, poder e status. A biografia interna preocupa-se com questões de outra natureza. Do tipo: qual é a qualidade de minhas relações pessoais? Qual é meu papel na família e na comunidade? Qual é o sentido mais profundo de uma experiência, de um encontro ou de uma conversa? Profissionalmente falando, nessa fase muitas pessoas já ocupam cargos de chefia e precisam se preocupar em delegar. Mas há conflito entre delegar responsabilidades reais e delegar apenas tarefas, mantendo o controle da situação. Alguns executivos dessa faixa etária têm uma lógica implacável, muitas vezes marcada pela insensibilidade. Eles se deixam fascinar por modismos de gestão, planejamento, organização e controle. Desejam o poder e tudo o que os cerca.

Fase consciente: Dos 35 aos 42 anos
Essa é a época de assumir responsabilidades. Os frutos de nossos esforços começam a aparecer. Sentimos segurança interior, estamos em pleno vigor físico e ainda dispostos a assumir riscos. Conseguimos entender situações complexas. No setênio anterior, vivemos a ilusão de que o céu é o limite – agora, percebemos que nós mesmos é que somos o limite. Perto dos 40 anos, começamos a nos fazer perguntas como: quem sou eu? Qual é o sentido da vida? O que me dá satisfação? O que faço é coerente com meus valores? Trata-se da crise da autenticidade. Partimos em busca de algo novo, mais verdadeiro e autêntico. Ninguém tem respostas para nossas questões a não ser nós mesmos. A vivencia é de solidão. As mulheres fazem esse questionamento em torno dos 35 anos. Os homens podem passar por esse conflito um setênio para a frente, quando têm entre 45 e 50 anos.

Depois dos 42 anos, homens e mulheres começam a sentir o declínio das forças físicas. Muitos, no entanto, continuam mantendo o pique anterior. Há casos de exageros que terminam em rupturas, infartos ou estafas que levam a pessoa reavaliar a vida. Na carreira, essa é uma fase em que se tem consciência de que motivação e entusiasmo são fundamentais. Por causa disso, o profissional que ocupa cargos de comando começa a delegar responsabilidades e a estimular a autoconfiança da equipe. A grande preocupação é administrar pessoas. Nessa fase também é possível perceber se o profissional iniciou seu caminho de autodesenvolvimento ou se ele enveredou pela biografia externa, o que fica claro quando se torna um tirano frustrado. Quanto mais autoridade exerce, menos liderança tem. Em torno dos 42 anos, o eu começa a se retirar aos poucos, iniciando pelo sistema metabólico/sexual/motor. Aos 49 anos, a mulher tem a menopausa. Entre os 49 e os 56 anos, o eu se retira do sistema rítmico (formado por coração e pulmões), e a partir dos 56 do neurossensorial. É quando vem o amadurecimento espiritual, resultado das vivencias da alma.

A frase que diz que a vida começa aos 40 tem realmente uma razão de ser, já que é mais ou menos nessa faixa etária que temos a noção exata da identidade que procuramos a vida inteira. Aprendemos a dizer não às expectativas dos outros e tentamos ser autênticos. Os detalhes passam a não ter tanta importância – o que vale é o todo e a inter-relação dos fenômenos. Nessa fase conquistamos o dom da visão holística e conseguimos enxergar fatos distantes e ralacioná-los entre si. Na carreira, seguimos administrando pessoas e nos preocupando com o desenvolvimento da equipe. Percebemos erros como oportunidades e incentivamos a criatividade do grupo. Executivos nessa fase agem com transparência, não seguem modismos e criam conceitos próprios. Eles enxergam a organização num contexto amplo e sabem antecipar-se a situações e desafios.

“A partir dos 50 anos enxergamos os problemas de vários ângulos. Com o tempo, a intuição fica mais e mais aguçada”

Fase inspirativa: Dos 49 aos 56 anosNo processo de perda da energia vital, o eu afrouxa a ligação com o sistema rítmico. Por isso, nessa fase, recomenda-se cuidado redobrado com os ritmos (dormir, comer e as horas dedicadas ao trabalho e ao lazer, por exemplo), pois eles trazem vitalidade. Na carreira, desenvolve-se a capacidade de enxergar os problemas de vários aspectos. O profissional que está nessa fase reconhece que todos os caminhos acabam levando a Roma e, por isso mesmo, deixa que seus subordinados encontrem o próprio caminho.

Tem consciência de que o sucesso futuro reside nos talentos. Prepara as pessoas para desafios e sente prazer em atuar como coach. Um profissional dessa faixa etária costuma trabalhar com perguntas e entende que os jovens têm direito de errar. Visualiza pontos estratégicos e deixa espaço para auto-realização. Administra o potencial estratégico e “do vir a ser” das pessoas e da empresa em que trabalha.

Fase intuitiva: Dos 56 aos 63 anosMais de dois terços das obras da humanidade que resistiram ao tempo foram criadas por pessoas acima dos 60 anos. Há grandes estadistas, compositores, escritores, pintores e outras celebridades que realizaram seus efeitos nessa faixa etária. À medida que envelhecemos, o eu emancipa-se e fica livre para criar.

Perto dos 60 anos, os sentidos, que funcionam como janelas para o mundo exterior, começam a se fechar. Usamos óculos, a capacidade auditiva diminui, o paladar, o tato e o olfato ficam menos aguçados. Isso cria a possibilidade de uma viagem para dentro de nós mesmos, na qual poderemos encontrar nossa essência interior. Enxergamos que cada experiência por que passamos tem a ver com nossa identidade. Um profissional que tem mais de 56 anos de idade desenvolve visões de futuro, inspira as pessoas, é um exemplo de conduta ética, fala pouco e ouve muito. Ele dá as diretrizes e deixa aos outros a execução das tarefas. Sabe aconselhar e administrar os potenciais espirituais da empresa, zelando por sua missão, seus valores e princípios. Enxerga tendências e dá respostas intuitivas e criativas para as necessidades futuras.

Cada vez mais a vida se alonga e temos um período produtivo maior. No entanto, as pesquisas sobre pessoas com mais de 63 anos no contexto empresarial ainda estão sendo realizadas. Mas a experiência mostra que o processo de espiritualização se acentua com o tempo, tornando-nos cada vez mais hábeis em desvendar os mistérios que nos cercam.

Fonte: Adigo

[Imagem: Nell Whatmore, "Birds of Feather"]

Posted by Lilia at 06:11 PM | Comments (1)

A coragem para ser feliz

OSHO

coragemserfeliz-NellWhatmore-Chasing-Rainbows.jpg Continuamos a perder muitas coisas na vida só por causa da falta de coragem. Na verdade, nenhum esforço é necessário para conquistar – só é preciso coragem – e as coisas começarão a vir até você, em vez de você ir atrás delas. Pelo menos no mundo interior é assim.

E para mim, ser feliz é a maior coragem. Ser infeliz é uma atitude muito covarde. Na realidade, para ser infeliz, não é preciso nada. Qualquer covarde pode ser, qualquer tolo pode ser. Todo mundo é capaz de ser infeliz; para ser feliz é preciso coragem – é um risco tremendo.

Não temos o costume de pensar assim. Nós pensamos: “ O que é preciso para ser feliz? Todo mundo quer ser feliz.” Isso está absolutamente errado. É muito raro uma pessoa estar pronta para ser feliz – as pessoas investem tanto na infelicidade! Elas adoram ser infelizes. Na verdade, elas são felizes por serem infelizes.

Há muitas coisas para se entender – sem entendê-las é muito difícil se livrar da mania de ser infeliz. A primeira coisa é: ninguém está prendendo você; é você que decidiu ficar na prisão da infelicidade. Ninguém prende ninguém. O homem que está pronto para sair dela, pode sair quando quiser. Ninguém mais é responsável. Se uma pessoa é infeliz, é ela mesma a responsável. Mas a pessoa infeliz nunca aceita a responsabilidade – é por isso que continua infeliz. Ela diz: “ Estão me fazendo infeliz” .

Se outra pessoa está fazendo com que você seja infeliz, naturalmente não há nada que você possa fazer. Se você mesmo está causando a sua infelicidade, alguma coisa pode ser feita... alguma coisa pode ser feita imediatamente. Então ser ou não ser infeliz está nas suas mãos. Todavia as pessoas ficam jogando nos outros a responsabilidade – às vezes na mulher, às vezes no marido, às vezes na família, no condicionamento, na infância, na mãe, no pai... outras vezes na sociedade, na história, no destino, em Deus – mas não param de jogar nos outros. Os nomes são diferentes, mas o truque é sempre o mesmo.

Um homem torna-se realmente um homem quando aceita a responsabilidade total – é responsável pelo quer que seja. Essa é a primeira forma de coragem, a maior delas. É muito difícil aceitá-la porque a mente vai continuar dizendo: “Se você é responsável, porque criou isso?”. Para evitar isso, dizemos que os outros são responsáveis: “O que eu posso fazer? Não tem jeito... sou uma vítima! Sou jogado daqui para ali por forças maiores que eu e não posso fazer nada. Posso no máximo chorar porque sou infeliz e ficar ainda mais infeliz chorando”. E tudo cresce – se você cultiva uma coisa, ela cresce. Então você vai cada vez mais fundo... mergulha cada vez mais fundo.

Ninguém, nenhuma outra força, está fazendo nada a você. É você e só você. Isso resume toda a filosofia do karma – que é o seu fazer; karma significa fazer. Você fez e pode desfazer. E não é preciso esperar, postergar. Não é preciso tempo – você pode simplesmente pular fora disso.

Mas nós nos habituamos. Se pararmos de ser infelizes, nos sentiremos muito sozinhos, perderemos nossa maior companhia. A infelicidade virou nossa sombra – nos segue por toda a parte. Quando não há ninguém por perto, pelo menos a infelicidade está ali presente - você se casa com ela. E trata-se de um casamento muito, muito longo; você está casado com a sua infelicidade há muitas vidas.

Agora chegou a hora de se divorciar dela. Isto é o que eu chamo de a grande coragem – divorciar-se da infelicidade, perder o hábito mais antigo da mente humana, a companhia mais fiel.

Fonte: Corpo Mente

[Imagem: Nell Whatmore, "Chasing Rainbows"]

Posted by Lilia at 01:54 PM | Comments (0)

TPM como Sintoma

Maria Aparecida Diniz Bressani

tpmsintomas-GarryCutrell-PainandSadness.jpg TPM é uma síndrome que apresenta um conjunto de sintomas psico-físico-emocional e atinge cerca de 80% das mulheres em fase reprodutiva.

No campo psíquico, vemos predominância da ansiedade, excitação e agressividade. No campo emocional, crises acentuadas de depressão, ou estados depressivos, com forte sentimento de desesperança e tristeza profunda; sentimentos de rejeição e pensamentos auto-depreciativos; irritabilidade e facilidade para chorar; além de dificuldade de concentração em atividades do cotidiano, insônia e mau humor.

Acontecem também alterações físicas, como a retenção de líquidos, inchaço, dores musculares, de cabeça, nos seios e dores em geral; há também acentuado desejo de comer algum tipo de alimento, sobretudo doces e chocolates, ou um aumento generalizado do apetite. Todos esses sintomas e outros mais são decorrentes da mudança hormonal, típica do próprio ciclo menstrual da mulher; somados ao stress decorrente do ritmo e qualidade de vida que a mulher vive.

O tratamento, normalmente, é feito através de recomendação de exercícios físicos, vitaminas e/ou anti-depressivos.
Por que algumas mulheres não têm TPM? Por que outras têm alguns sintomas mais acentuados e outras, menos? E, por que outras mulheres, ainda, têm um quadro gravíssimo de sintomas deixando-as com a sensação de falta de controle sobre si mesmas?
Entendo que as doenças desde as mais leves, como uma gripe, por exemplo, ou a TPM, até uma mais grave, como um câncer ­têm como fator decisivo desencadeante o psiquismo. Se pensarmos numa simples gripe, por exemplo, por que algumas pessoas “pegam” mais gripes que outras? Por que algumas pessoas demoram mais para se curarem e outras, recuperam-se mais rapidamente de uma mesma doença? Vírus estão no ar o tempo todo convivendo conosco, então, porque não somos “atacados” constantemente por eles e, sim, somente em algum determinado momento? Por que estamos vulneráveis e com baixa resistência num momento e em outros, não?
Acredito que as doenças ­inclusive a TPM ­são psicossomáticas.

Esclarecendo a tempo: doença psicossomática é uma doença real em todo o seu quadro de sintomatologia física, que precisa ser tratada com medicamentos, mas, tem como fator determinante o psiquismo.
E, como estudiosa do psiquismo humano, acredito que, inconscientemente, “escolhemos” nossas doenças ­como última instância ­para despertar e refletir e, obviamente, mudar nossas crenças e comportamentos.
Podemos tratar os sintomas da TPM, seja com um complexo vitamínico e/ou algum anti-depressivo; mas é preciso tratar a “causa”, caso contrário, a mulher torna-se refém, mês a mês, dos seus sintomas, tornando-a incapaz de viver, nestes períodos, sua vida com liberdade e assertividade.
A meu ver, tratar apenas seus sintomas é paliativo, pois no mês seguinte lá estão eles, à sua revelia, perturbando e alterando sua vida de uma forma geral.
Como psicóloga, entendo que qualquer situação que se repete na vida de alguém ­ e, aí incluo a TPM acontece para que ele reflita sobre as suas crenças e atitudes no que concerne à sua pessoa e à sua própria vida.

A TPM, com seu conjunto de sintomas, e de como e quanto perturba sua vida ­ pessoal e profissional ­ é um “sintoma” de que há algo de errado com a mulher.
Na fase do ciclo menstrual em que ocorre a TPM há extrema sensibilidade e tudo o que acontece neste período atinge intensamente a mulher. O que antes a mulher relevava, deixava passar e procurava dar pouca importância, nesta fase tem-se a impressão que ocorre o contrário. De fato, ocorre o inverso dos outros momentos!
Acredito que justamente por a mulher estar, realmente, extremamente sensível­ “com a sensibilidade a flor da pele” ­que tudo o que vive é sentido muito mais intensamente, portanto, sua reação também será intensa e super-dimensionada à situação em si.
Acontece que, antes, as situações eram sub-valorizadas e sub-dimensionadas em prol das relações ou da imagem que a mulher quer preservar; porem, durante o período em que ocorre a TPM, estando ela com elevado nível de sensibilidade, tudo a atinge de forma impactante, tornando muitas vezes insuportável o que era antes suportável.
Vemos, então, que por força da alta sensibilidade deste período seu nível de tolerância cai em progressão geométrica em relação aos momentos anteriores.
Portanto, a mulher deve ficar atenta ao que lhe acontece no período da TPM, pois suas reações vão “sinalizar” onde podem estar algumas de suas dificuldades e fontes geradoras de stress e frustrações.

Não justifique uma crise de choro ou uma explosão emocional, por exemplo, ocorridas durante este momento com “Ah, eu estava de TPM!”, como se não fosse nada. Ao contrário, o que acontece de “diferente” aí deve ser observado com atenção.
Embora não conheça nenhuma pesquisa neste sentido, acredito que a TPM seja uma doença da mulher moderna, sobrecarregada com atividades e obrigações múltiplas; com alto grau de exigência, onde ela tem que dar conta de tudo, 100% e perfeitamente.
Essas atividades múltiplas e o alto grau de exigência pessoal e social geram elevado nível de pressão ­ interna e externa e, conseqüentemente, levam a um stress tal que o organismo e o psiquismo não conseguem absorver, elaborar e transformar, revertendo assim numa sintomatologia patológica: a TPM, por exemplo.
Parece que a mulher na atualidade esqueceu-se do que é ser mulher, sobre o seu papel diante do homem e da sociedade.

O caminho que a mulher percorreu em nossa história ocidental, na busca de liberdade e autonomia do homem e na sociedade, fez com que ela se afastasse de si própria, negando seu próprio ritmo e necessidades femininas.
Ela conseguiu provar para si, para o homem e para a sociedade, sua inteligência e competência (dentro do universo masculino), mas a um preço muito alto, que foi ignorar a sua importância como mulher para a sociedade humana apenas por ser mulher.
Vive hoje num ritmo “como se” fosse um homem (até mais sobrecarregada!).
Homem é diferente da mulher: tem outro processo fisiológico, hormonal e psicológico. E, parece, que a mulher esqueceu-se disso. Esqueceu-se que mulher é diferente do homem. Por isso, seu corpo “grita” através dos sintomas da TPM, para despertá-la para a “sua” realidade como mulher.
É preciso que a mulher se redescubra enquanto mulher. Aprenda a valorizar-se, agregando suas qualidades naturais, como, por exemplo, sua receptividade e sensibilidade com as ‘recém descobertas’, tais como, a capacidade de estratégia e objetividade.

A mulher deve ser a primeira a dar o devido valor para o seu papel e o que este representa dentro da sociedade humana, começando consigo mesma.
Como disse anteriormente, qualquer situação que reincida na vida de alguém acontece para que a pessoa pare e reflita. Não acredito que o que passamos na vida e que chamamos “sofrimento” seja apenas para nos prejudicar gratuitamente, mas, sim, para “despertar”, refletir e resolver.
Para a mulher, a reincidência da TPM mostra o quanto ela não está respeitando o seu ritmo e suas necessidade psíquicas, emocionais e fisiológicas.

Para curar a TPM, a mulher precisa curar a causa, que é resgatar-se como mulher, despertando-se para seu autovalor e auto-estima e começar respeitando seus ritmos fisiológico, hormonal, psicológico e emocional.
A TPM, então, como “sintoma” existe na vida da mulher para que ela desperte, desperte para si mesma!

* Maria Aparecida Diniz Bressani é psicóloga e psicoterapeuta Junguiana, especializada em atendimento individual de jovens e adultos, em seu consultório em São Paulo.
Fonte: somos todos um

[Imagem: GarryCutrell, "Pain and Sadness"]

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Canos fumegantes

Maria Helena Matarazzo*

canosfumengantes-AlfredGockel-Endless-Love.jpg Parceiros descontrolados podem destruir uma relação se, por irrelevâncias, armarem brigas explosivas. Mas a raiva é um sentimento básico, e relacionamentos sadios possuem espaço para que o casal a expresse

A psicoterapeuta americana Bonnie Maslin, no livro " Até que a raiva nos separe?" (Editora Ática), observa que todos conhecemos casais raivosos: aqueles que vivem em uma espécie de estado irascível e, por questões que aos outros parecem irrelevantes, se atacam. A especialista divide os raivosos em dois tipos: os expansivos e os provocadores.

De acordo com ela, os expansivos são aqueles cuja relação é altamente inflamável. Discutem, brigam, batem os pés. A batalha eclode por tudo e por nada, e seu arsenal de insultos e acusações não tem fim. Pode até ocorrer que alguns expansivos controlem a raiva e só a soltem após se acomodarem no carro ou assim que as crianças estejam na cama, supostamente dormindo. Mas para os outros o sentimento é irrefreável: explodem no restaurante, em uma festa, na casa da sogra.

Públicas ou não, as brigas são sempre visíveis e audíveis. O que, para um casal comum, começaria com uma pequena discussão, mera descarga de tensão, entre os expansivos degringola em xingamentos e ameaças: "Talvez eu tenha mesmo um caso com ele!", "Você é que é louca!" - para não mencionar frases impublicáveis. As cenas terminam com saídas dramáticas, quebras de objetos, violentas batidas de porta e até agressões físicas.

Infelizmente, as brigas não levam a nada e apenas jogam lenha na fogueira, pois são os medos e as carências de cada um, normalmente inconscientes, que as provocam. Por não entenderem o que ocorre, nada é elaborado pelo casal; muito menos resolvido.

Quanto aos parceiros do tipo provocador, em geral só um deles é raivólatra - sem controle sobre a ira que o move. O outro resmunga e fica aborrecido. Um exemplo cotidiano: o provocador que se atrasa na hora combinada, enquanto o outro sente a pressão subir e, com o tempo, enlouquece.

Evidentemente, pode ocorrer que tanto o homem quanto a mulher tenham o pavio curto; nesse caso, um dos parceiros costuma ser ativo, enquanto o outro é passivo. O primeiro deixa a frustração jorrar livremente; o segundo, a reprime, fumegante. Isso não significa que a raiva, liberada de jeito miúdo e indireto, inexista. Entretanto, o efeito final é o mesmo: um sentimento crescente de inutilidade e desesperança. Esgotados um pelo outro, os provocadores fermentam a raiva e fervem, até que um explode e o outro implode.

Todo casamento raivoso precisa de ajuda, mas não da intervenção de pessoas amigas, procuradas para dar consolo, e que terminam fazendo acusações ou oferecendo conselhos, e, com freqüência, tomando partido.

Para superar o impasse, o essencial é empenhar-se na difícil tarefa do autoconhecimento. Porque quanto mais nos conhecemos - e é preciso tomar coragem para de fato sabermos quem somos, quais as circunstâncias que nos formaram -, maior a descoberta dos nossos sentimentos profundos, nossos medos, nossas carências.

É só com o autoconhecimento persistente, assumido, corajoso, que aprendemos a administrar a raiva, se somos expansivos. E, se provocadores, aprendemos a reparti-la. Em ambos os casos, a devolver-lhe a sua função original: uma forma de comunicação, por meio da qual o casal expressa suas necessidades para obter o que precisa um do outro.

Todos somos capazes de percorrer essa trilha em busca de nós mesmos. Se for necessário, devemos procurar ajuda na terapia. Vale a pena, no final da busca, encontrar uma pessoa compreensiva e generosa. Vale a pena encontrar caminhos construtivos para nos expressar. Vale a pena concluir que amamos a pessoa com quem tanto brigamos.

* Maria Helena Matarazzo é sexóloga e autora de, entre outros, "Coragem para Amar", da Editora Record.

Fonte: Mais de 50

[Imagem: Alfred Gockel, "Endless Love"]

Posted by Lilia at 09:24 AM | Comments (0)

TUDO O QUE EU PRECISAVA REALMENTE SABER, APRENDI NO JARDIM DA INFÂNCIA

Robert Fulghum – Trad. Ernesto H. Simon

tudojardiminfancia-Maud-Lewis-The-Schoolyard.jpg Grande parte do que eu realmente preciso saber sobre a vida, o que fazer, como ser, eu aprendi no jardim da infância.

Não foi na universidade nem na pós-graduação que eu encontrei a verdadeira sabedoria, e sim no recreio do jardim da infância. Foi exatamente isto que aprendi: compartilhar tudo, brincar dentro das regras, não bater nos outros, colocar as coisas de volta no lugar onde as encontrei, limpar a própria sujeira, não pegar o que não era meu, pedir desculpas quando machucava alguém, lavar as mãos antes de comer, puxar a descarga do banheiro.

Também descobri que café com leite é gostoso, que uma vida equilibrada é saudável e que pensar um pouco, aprender um pouco, desenhar, pintar, dançar, planejar e trabalhar um pouco todos os dias, nos faz muito bem. Tirar uma soneca todas as tardes, tomar muito cuidado com o trânsito, segurar as mãos de alguém e ficar juntos, são boas formas de enfrentar o mundo.

Prestar atenção em todas as maravilhas e lembrar da pequena semente que, um dia, plantamos em um copo de plástico. As raízes iam para baixo e as folhas iam para cima mas ninguém realmente sabia nem porquê. Mas nós somos assim!

Peixinhos dourados, hamsters e ratinhos brancos; e até mesmo a pequena semente do copo de plástico, tudo morre um dia. E nós também.

Tudo que você realmente precisa saber esta aí. Faça aos outros aquilo que você gostaria que eles fizessem para você. Amor, higiene básica, ecologia e política contribuem para uma vida saudável.

Penso que tudo seria melhor se todos nós - o mundo inteiro - tomássemos café com leite todas as tardes e descansássemos um pouquinho abraçados a um travesseiro. Ou se tivéssemos uma política básica em nossa nação e em todas as coisas também, para sempre colocarmos as coisas de volta ao lugar onde as encontramos, limpando nossa própria sujeira. E ainda é verdade que, seja qual for a idade, - o melhor é darmos as mãos e ficarmos juntos!

Fonte: Folha de São Paulo

[Imagem: Maud Lewis, "The Schoolyard"]

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agosto 03, 2005

O CAÇULA

Fabrício Carpinejar

ocacula-kimparker-augustgarden.jpg Sou o filho do meio. Pensando bem, nem do meio. Sou o penúltimo filho de número par. Mas não posso deixar de invejar o caçula. Uma inveja do bem, mais admiração e respeito do que ciúme. O caçula é o que ficará mais triste quando a casa está triste, é o que ficará mais alegre quando a casa está alegre. É a tomada, o trinco, a aldrava, o último a deixar a mesa, o último a trocar de quarto, o último a sair da residência, o último a casar, o último a receber as más notícias e o primeiro a descobrir as boas. Não é o mais mimado, todos os demais cresceram muito rápido e ele foi o raro que permaneceu perto dos pais. O caçula é o mais ponderado, ordeiro, generoso. Limpa a sujeira e se cala quando não formou opinião. Escapa dos vícios dos mais velhos, tampouco faz de si uma virtude. É a vítima da piada, não o algoz. Não devolve a ofensa, guarda para adubo. O caçula é nostálgico, o que viveu nunca será suficiente para se convencer de vida. O caçula é o filho inesperado, o amor inesperado, a amizade inesperada. Não tem jeito de profeta, tem jeito de profecia. Seria o anjo da família se não houvesse castigo. Seria o anjo da família se houvesse tempo. O caçula não tem vergonha de amar a mãe. Tem disciplina de amar. A mãe envelhece perante os demais, não para o caçula. O caçula não permite o asilo. Pode ser homem feito que continuará o caçula. É ele que colocará uma coberta de noite quando a mãe dorme. É ele que vai se distanciar do grupo para colher amoras para a mãe. É ele que vai arrumar o computador da mãe quando os outros dizem que estão ocupados. É ele que virá de longe para os aniversários. É ele que telefonará aos seus irmãos perguntando se precisam de alguma coisa. É ele que perdoará o pai com o fim do casamento. A família desmorona, mas o caçula não. Recomeça dos escombros como um animal resistente. A vitória do caçula é vista como obrigação. O caçula não culpa os outros, culpa a si mesmo. Não corrige, passa a limpo. O caçula dá a mesada que recebe, reparte o salário que não tem. É o sótão, a vitrola, os móveis antigos, enxerga fantasmas, porém não delata o que vê. O caçula abraça como se fosse uma despedida. Chega a doer o abraço do caçula. Dor alegre de irmão que não quer se separar. O caçula é o mais fiel dos amigos, pois deve ter sido o único que conheceu realmente a solidão. Duvida até da morte para se aproximar um pouco. O caçula acredita em qualquer lembrança contada que tenha seu nome e desconfia de qualquer lembrança que partiu de sua memória. O caçula é dos filhos o que não se acostumou a nascer.
[imagem: Kim Parker, "August Garden"]

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agosto 02, 2005

Questionamento é a base da Inteligência Espiritual

MÁRCIA DETONI

questionamentobase-fernandostickel-jambo.jpg Psicólogos, filósofos e teólogos identificam competência do homem para refletir sobre a existência para dar sentido à vida

Durante muito tempo, o mundo viveu uma verdadeira obsessão por testes para medir o quociente de inteligência (QI), baseados na compreensão e manipulação de símbolos matemáticos e lingüísticos. Nos anos 90, descobriu-se, no entanto, que QI elevado não era sinônimo de sucesso. Para se dar bem na vida, era preciso ter também inteligência emocional (QE), ou seja, ter autoconhecimento, autodisciplina, persistência e empatia.

Agora, o que psicólogos, filósofos e teólogos estão dizendo é que QI e QE podem trazer crescimento profissional e financeiro, mas, para ter paz interior e alegria, o ser humano precisa ter também inteligência espiritual. Precisa ter capacidade de encontrar um propósito para a própria vida e de lidar com os problemas existenciais que surgem em momentos de fracasso, de rompimentos e de dor.

"Do contrário, por que tantas pessoas inteligentes e sensíveis às necessidades dos outros sentem um vazio em suas vidas?", pergunta a psicóloga e filósofa americana Danah Zohar, autora do livro "Inteligência Espiritual", lançado no ano passado em vários países, inclusive no Brasil.

Formada na Universidade de Harvard e no MIT (Massachusetts Institute of Technology), Zohar descobriu a importância da inteligência espiritual durante seu trabalho como professora da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e como consultora de liderança estratégica para grandes empresas como Shell, Philip Morris e Volvo. "Eu estava falando com um grupo de executivos bem-sucedidos, e um deles, com cerca de 30 anos, disse que tinha um alto salário, uma família legal, mas sentia um buraco no estômago. E todos os outros fizeram um gesto com a cabeça, concordando com ele", contou Zohar.

O consultor de relações humanas e comunicação João Alberto Ianhez, que desde 1999 já deu cursos sobre inteligência espiritual para funcionários de cerca de 20 empresas brasileiras, diz que o materialismo e o egocentrismo do mundo moderno provocaram uma grande crise existencial. As pessoas passaram a buscar a felicidade em bens materiais e não conseguem mais encontrar um sentido para suas vidas. "Elas estão caminhando em busca do nada", comenta.

É em situações como essa que a inteligência espiritual, segundo os especialistas, tem um papel importante. "Ela nos permite encontrar um senso de propósito e direção", garante o rabino Nilton Bonder, que acaba de lançar o livro "Fronteiras da Inteligência, a Sabedoria da Espiritualidade".

O rabino ressalta, no entanto, que inteligência espiritual não tem nada a ver com religiosidade. Muitas pessoas religiosas, segundo ele, têm uma sabedoria espiritual baixíssima porque buscam na religião apenas certezas e "salvação"; não percebem a importância da dúvida e do questionamento. Bonder diz que a religião é apenas uma das linguagens que podem ser usadas para o desenvolvimento da espiritualidade.

Em seu livro, o rabino usa textos de várias religiões ocidentais e orientais para ajudar a despertar a reflexão ou, como diz ele, para ajudar a fazer "cair a ficha".

A inteligência espiritual, também chamada de QS (do inglês "spiritual quocient"), é a inteligência que leva o ser humano, segundo Zohar, a criar situações novas, a perceber, por exemplo, a necessidade de mudar de rumo, de investir mais num projeto ou de dedicar mais tempo à família. Enquanto o QI resolve primordialmente problemas de lógica e o QE nos ajuda a avaliar as situações e a reagir a elas de forma adequada, levando em conta os próprios sentimentos e os dos outros, o QS nos leva a indagar, de início, se queremos estar nessa situação, se o nosso trabalho, por exemplo, está nos dando a satisfação de que necessitamos ou se essa é a vida que queremos levar.

"Nós usamos a inteligência espiritual quando nos sentimos num impasse, quando enfrentamos as armadilhas de velhos hábitos ou quando temos problemas com doenças ou sofrimentos. O QS nos mostra que temos problemas existenciais e nos aponta os meios de resolvê-los", explica Zohar.


Provas científicas

Embora a expressão inteligência espiritual só tenha surgido na virada do século, a necessidade humana de encontrar um sentido mais amplo para a vida acompanha o homem desde o seu surgimento, afirma Zohar. A novidade, agora, é que alguns cientistas americanos estão começando a encontrar evidências de que o cérebro humano foi programado biologicamente para fazer perguntas como: "Quem sou?", "Por que nasci?", "O que torna a vida digna de ser vivida?".

No início dos anos 90, o neuropsicólogo americano Michael Persinger e, mais recentemente, em 1997, o neurologista Vilayanu Ramachandran, da Universidade da Califórnia, identificaram no cérebro humano um ponto chamado de "ponto Deus" ou "módulo Deus", que aciona a necessidade humana de buscar um sentido para a vida.

Esse centro espiritual localiza-se entre conexões neurais nos lobos temporais do cérebro. Escaneamentos realizados com topografia de emissão de posítrons (antipartícula do elétron) mostraram que essas áreas se iluminam toda vez que os pacientes discutem temas espirituais ou religiosos. Essa atividade do lobo temporal tem sido ligada há anos às visões místicas de epilépticos e de usuários do alucinógeno LSD. Mas a pesquisa de Ramachandran mostrou, pela primeira vez, que o centro espiritual também está ativo nas demais pessoas. O "ponto Deus" mostra que o cérebro evoluiu para fazer perguntas existenciais, para buscar sentidos e valores mais amplos, diz Zohar.

O médico terapeuta José Ângelo Gaiarça não integra o grupo de estudiosos da inteligência espiritual, mas reconhece a importância de o ser humano ter um propósito maior na vida. "Isso não é novidade, é uma idéia muito antiga", comenta. Gaiarça acha, no entanto, que o questionamento existencial por si só não basta para acabar com o vazio da vida moderna. O importante, segundo ele, é as pessoas começarem a perceber que não estão sozinhas no mundo, que fazem parte de um todo e que estão ligadas a tudo que as cerca. Ter espírito de cooperação é, na opinião dele, a forma mais elevada de inteligência espiritual.

Fonte: Folha de São Paulo
[Imagem: Fernando Stickel ]


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