Lilia Avelar
eu sei que voce entende minhas palavras que são tradução mal-feita dos meus sentimentos.
algumas pessoas podem se assustar com meu jeito de traduzir, mas eu sei que voce sabe direitinho o que vou falar. alias, pelo sr. nem precisava falar porque dai de cima voces tem esses super-óculos e podem ver tudo, né? mas sou eu que preciso dizer.
sabe pai, eu só tive duas grandes dores na minha vida. eu falo de dor de mesmo, de verdade, daquelas que a gente não consegue descrever. talvez um grande poeta consiga uma imagem, mas eu não sou poeta pai, e a dor que eu senti na sua partida me despedaçou todinha. voce lembra né? aqueles dias em que o medo se apoderou do meu corpo todo e que fiquei encolhida na cama, tremendo como se eu tivesse nua no polo norte. ai que frio. a mulher destemida virou pó de medo.
normalmente as pessoas dizem que perderam o chão... eu dizia que tiraram meu teto e dali pra frente eu teria que "negociar" diretamente com deus, sem voce pra mediar.. eu estava enganada, meu pai. agora mais do que nunca tenho um mediador me aproximando do pessoal aí de cima.
hoje, voce sabe melhor do que ninguém o quanto a sua partida foi importante pra mim. parece que voce ficou mais perto, ou melhor, ficou dentro. agora eu respiro fundo e sinto voce inteiro, me protegendo. me guiando. me iluminando, me dizendo as coisas que eu teimava em não ouvir. agora eu não só escuto e entendo, como sigo cegamente.
depois que o sr. partiu eu mudei tanto. depois que eu fui colar meus pedaços espalhados, eu me juntei de um jeito melhor, pai.
voce me fez uma pessoa feliz. mais feliz ainda. antes eu já me sentia privilegiada de ter nascido de voces e ter crescido rodeada de amor, carinho e valores impecáveis.
não posso me sentir de outro jeito, a não ser grata! é assim que eu acordo todo dia: vestida de gratidão. e por isso estou aqui, mais uma vez pra lhe agradecer. pra dizer o quanto eu te amo. este amor que é eterno mesmo, chama que não apaga nunca, transcende o corpo porque é amor da alma pai.
hoje tem festa no meu coração porque é aqui dentro onde voce ficará vivo, sempre!
Em uma reunião de pais numa escola da periferia, a diretora ressaltava o apoio que os pais devem dar aos filhos; pedia-lhes também que se fizessem presentes o máximo de tempo possível... Ela entendia que, embora a maioria dos pais e mães daquela comunidade trabalhassem fora, deveriam achar um tempinho para se dedicar e entender as crianças.
Mas a diretora ficou muito surpresa quando um pai se levantou e explicou, com seu jeito humilde, que ele não tinha tempo de falar com o filho, nem de vê-lo, durante a semana, porque quando ele saía para trabalhar era muito cedo e o filho ainda estava dormindo...
Quando voltava do serviço já era muito tarde e o garoto não estava mais acordado. Explicou, ainda, que tinha de trabalhar assim para prover o sustento da família, mas também contou que isso o deixava angustiado por não ter tempo para o filho e que tentava se redimir indo beijá-lo todas as noites quando chegava em casa. E, para que o filho soubesse da sua presença, ele dava um nó na ponta do lençol que o cobria.
Isso acontecia religiosamente todas as noites quando ia beijá-lo.
Quando o filho acordava e via o nó, sabia, através dele, que o pai tinha estado ali e o havia beijado. O nó era o meio de comunicação entre eles.
A diretora emocionou-se com aquela singela história e ficou surpresa quando constatou que o filho desse pai era um dos melhores alunos da escola.
O fato nos faz refletir sobre as muitas maneiras das pessoas se fazerem presentes, de se comunicarem com os outros. Aquele pai encontrou a sua, que era simples, mas eficiente. E o mais importante é que o filho percebia, através do nó afetivo, o que o pai estava lhe dizendo .
Por vezes, nos importamos tanto com a forma de dizer as coisas e esquecemos o principal, que é a comunicação através do sentimento, simples gestos como um beijo e um nó na ponta do lençol, que valiam, para aquele filho, muito mais do que presentes ou desculpas vazias.
É válido que nos preocupemos com as pessoas, mas é importante que elas saibam, que elas sintam isso. Para que haja a comunicação é preciso que as pessoas "ouçam" a linguagem do nosso coração, pois, em matéria de afeto, os sentimentos sempre falam mais alto que as palavras.
É por essa razão que um beijo, revestido do mais puro afeto, cura a dor de cabeça, o arranhão no joelho, o medo do escuro.
As pessoas podem não entender o significado de muitas palavras, mas SABEM registrar um gesto de amor. Mesmo que esse gesto seja apenas um nó...
Um nó cheio de afeto e carinho. E você?... Já deu algum nó afetivo hoje?
AUTORIA: não consegui achar a autoria deste texto. se voce souber, por favor me avise.
[Imagen: Lester J. Kern, "First Love II"]