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  06.08.08- Uma Coisa de Cada Vez: Uma Experiência com a Consciênica

Stephen Levine

umacoisadecadavez_dawnpark23.jpg

Uma forma incrível de integrar a prática de meditação e da percepção em nossas vidas diárias é fazer uma coisa de cada vez. Entregar-se de forma integral ao que estiver fazendo no momento. Concentrando-se em um única tarefa. Quando estiver dirigindo, não escutar o rádio. Quando estiver escutando música, não ler ou comer. Ao comer, não assistir à televisão nem ler. Ao assistir televisão, não comer ou ler. Quando estiver andando, sentir o solo sob os pés. Ao comer sinta aquilo o que come e entre por inteiro em contato com as sensações e motivação que condicionam e dirigem o processo. Estar atento ao comer da mesma forma como se fica atento ao andar ou respirar. Respirar uma inspiração de cada vez, dar um passo de cada vez, uma mordida por vez. Vivenciar de maneira plena "apenas isto", o momento tal como ele é.

Há uma história de dois monges zen que se encontraram à beira de um rio. Eles logo verificaram que eram de monastérios vizinhos, e cada um mostra curiosidade quanto à natureza do mestre do outro. Um dos monges diz: "Meu mestre é o maior de todos. Ele pode voar, pode caminhar sobre a água, pode ficar sem respirar por vinte minutos!" O outro balança a cabeça lentamente e sorri, dizendo: "Oh, seu mestre é de fato notável. Mas o meu é ainda mais: quando ele anda, ele apenas anda. Quando ele fala, ele apenas fala. Quando ele come, ele apenas come". Um dos mestre tinha "poderes" mas o outro tinha poder. Os poderes são desejados somente por aquela parte de nosso interior que se sente impotente. Considerando o tamanho respeitável do labirinto do ego, para a maioria, "os poderes" são armadilhas. Milagre maior é estar presente em nossas vidas, capazes de nos abrirmos para o momento, acumulando compaixão e percepção como preciosidades.

Certa manhã, um amigo nosso, mestre Zen, sentado à mesa do desjejum, lia o jornal enquanto comia. Um de seus discípulo, conhecendo a técnica de uma coisa de cada vez, zombou: "Você está comendo e lendo! Como pode estar atento a uma coisa só?!!". Ao que o esperto e prático mestre retrucou: "Quando eu como e leio eu só como e leio". Vá com calma. Se você tiver crianças em casa, pode ser quase impossível fazer uma coisa de cada vez. Neste caso, faça apenas seis coisas de cada vez. Ou, como disse uma mãe ao verificar que a prática seria bastante difícil para ela: "Minha agenda é uma bagunça. Acho que é dia do ventre".

Fazer uma coisa por vez nos ajuda a recordar. Quando você estiver lavando os pratos, ou dirigindo para o trabalho, trocando a roupa do bebê, cavando uma trincheira, cozinhando, fazendo amor, pensando alguns pensamentos, seja o que for, cuide da tarefa em pauta. Vivencie, a cada instante, o corpo, a respiração, os mutáveis estados mentais. Viva "apenas isto" de cada vez.

Se "apenas isto" não for o bastante, nada será o bastante. Cuidar deste "apenas isto" é viver de maneira sagrada.

Fonte: trecho do livro Meditações Dirigidas, Stephen Levine

Posted by Lilia at 04:17 PM|Comments (0)
 
  13.09.05- Você pode se enganar com a meditação

OSHO

vocepodeseenganar-huna_detail.jpg Se o interesse for realmente profundo, ela se torna um fogo por si mesmo. Ela o transforma. Apenas através do intenso interesse, você começa a se tornar diferente. Um novo centro de ser aflora. Tantas pessoas parecem estar interessadas mas nada de novo surge nelas, não nasce nenhum centro, nenhuma cristalização é obtida. Elas permanecem as mesmas.

Isso significa que elas estão se enganando. O engano é muito sutil mas obrigatoriamente está aí. Se você continua tomando remédio, fazendo tratamento e a doença permanece a mesma - e bem ao contrário, continua aumentando - então, o seu remédio, o seu tratamento tem de ser falso. Talvez lá no fundo você não queira ser transformado. Esse medo é muito real - o medo da transformação. Então, na superfície, você continua achando que está profundamente interessado mas, no fundo, continua se enganando.

O medo da transformação é exatamente como o medo da morte. É uma morte porque o velho terá que ir embora e o novo terá de vir. Você não estará mais aí, alguma coisa totalmente desconhecida de você nascerá a partir de você. A menos que esteja pronto para morrer, o seu interesse na meditação é falso porque somente aqueles que estão prontos para morrer irão renascer. O novo não pode ser uma continuidade com o velho. O velho tem de ser descontinuado. O velho tem de ir embora. Somente então o novo pode vir a ser. O novo não é um crescimento a partir do velho, o novo não é contínuo com ele - o novo é totalmente novo. E ele vem apenas quando o velho morre. Existe uma brecha entre o velho e o novo - esta brecha lhe dá medo. Você está com medo. Você quer ser transformado mas, ao mesmo tempo, quer permanecer o velho. Esse é o engano. Você quer crescer mas você quer permanecer sendo você. Assim o crescimento é impossível; assim você pode apenas se enganar; assim você pode continuar pensando e sonhando que alguma coisa está acontecendo mas nada vai acontecer porque o ponto básico se perdeu.

Então existem muitas pessoas em todo o mundo que estão muito interessadas em meditação, moksha, nirvana, e nada está acontecendo. Existe tanto barulho sobre isso mas nada real está acontecendo. Qual é o problema?

Às vezes a mente é tão esperta que, porque você não quer ser transformado, a mente cria um interesse superficial para que você possa dizer para si mesmo, "Você está interessado, você está fazendo tudo que pode ser feito." E você permanece o mesmo. E se nada acontece, você acha que a técnica que está usando é errada, o guru que está seguindo está errado, a escritura, o princípio, o método, está errado. Você nunca acha que, mesmo com o método errado, a transformação é possível se existir interesse real; mesmo com um método errado, você será transformado. Se estiver realmente interessado em transformação, você se tornará diferente mesmo se estiver seguindo um guru errado. Se a sua alma e o seu coração estiverem no seu esforço, ninguém pode desorientá-lo exceto você mesmo. E nada é uma barreira para o seu progresso exceto os seus próprios enganos.

Quando digo que mesmo um mestre errado, um método errado, um princípio errado, podem levá-lo ao real, quero dizer que a transformação de verdade acontece quando você está intensamente envolvido nela, não através de qualquer método. O método é apenas um artifício, o método é apenas uma ajuda, o método é secundário - o seu ser envolvido nele é a coisa fundamental. Mas você continua a fazer alguma coisa - sem mesmo fazer, você continua a falar sobre fazer. E as palavras criam uma ilusão: porque você pensa tanto a respeito disso, lê tanto sobre isso, escuta tanto sobre isso que começa a sentir que está fazendo algo. As assim chamadas pessoas religiosas desenvolveram tantos artifícios enganosos.

Ouvi falar que um motorista, dirigindo por uma estrada, viu o prédio de uma escola em chamas. O professor desta pequena escola naquela cidadezinha era Mulla Nasrudin. Ele estava sentado embaixo de uma árvore. O motorista o chamou, "O que você está fazendo aí? A escola está pegando fogo!" Mulla Nasrudin disse, "Eu sei disso." O motorista ficou muito agitado. Ele disse, "Então por que você não está fazendo nada?" Mulla Nasrudin disse, "Desde que começou tenho rezado para chover. Estou fazendo algo."

A oração é um truque para evitar a meditação e a assim chamada mente religiosa desenvolveu muitos tipos de oração. A oração também pode se tornar meditação - quando não é apenas uma oração, quando é um profundo esforço, um profundo envolvimento. A oração também pode se tornar meditação, mas a oração comum é apenas uma fuga. Para evitar a meditação, as pessoas continuam orando. Elas oram para evitar fazer qualquer coisa. Oração significa que Deus deve fazer alguma coisa. Alguém mais tem de fazer. Oração significa que somos passivos - algo deve ser feito para nós. Meditação não é oração nesse sentido: meditação é algo que você faz para si mesmo. E quando você é transformado, todo o universo se comporta de maneira diferente para você porque o universo não é nada mais do que uma resposta para você, seja lá o que você for. Se você estiver silencioso, todo o universo responde ao seu silêncio de milhares e milhares de maneiras. Ele o reflete. O seu silêncio é multiplicado infinitamente. Se você estiver esfuziante, todo o universo reflete a sua felicidade. Se estiver em miséria, o mesmo acontece. A matemática é a mesma, a lei permanece a mesma: o universo continua multiplicando a sua miséria. A oração não vai funcionar. Somente a meditação pode ajudar porque a meditação é algo a ser feito autenticamente por você, é um fazer da sua parte.

Então a primeira coisa que eu gostaria de lhe dizer é para você estar constantemente alerta de que não está se iludindo. Você pode estar fazendo algo e ainda assim se iludindo.

Ouvi dizer que, certa vez, Mulla Nasrudin veio correndo a uma agência de correio, pegou o carteiro pela lapela, chacoalhou-o e disse: "Estou doido. Minha esposa desapareceu!" O carteiro sentiu muito e disse, "É mesmo? Ela desapareceu!? Infelizmente isso aqui é um departamento dos correios - você tem de ir à polícia para informar o desaparecimento dela." Mulla Nasrudin sacudiu a cabeça negativamente e disse, "Não vou cair nessa de novo. Antes, a minha esposa também desapareceu e quando informei à polícia, eles a encontraram. Não vou cair nessa novamente. Se você puder fazer o relatório, faça-o, do contrário, estou indo embora."

Ele quer dar a informação para se sentir bem, para sentir que fez o que poderia ter sido feito. Mas ele não quer informar a polícia porque tem medo.

Você continua a fazer coisas apenas para se sentir bem, apenas para sentir que está fazendo algo. Mas na verdade, você não está pronto para ser transformado. Assim, tudo o que você faz apenas se passa como atividade inútil - não apenas inútil, danosa também, porque é uma perda de tempo, energia e oportunidade. Estas técnicas de meditação são apenas para aqueles que estão prontos para fazer. Você pode ponderar a respeito delas filosoficamente - isso não quer dizer nada. Mas se você estiver realmente pronto para fazer, então alguma coisa começará a acontecer a você. Elas são métodos vivos, não doutrinas mortas. O seu intelecto não é necessário; a totalidade do seu ser é necessária. Se você estiver pronto para dar uma chance, qualquer método funcionará. Você se tornará um novo homem.

Os métodos são artifícios, repito de novo. Se você estiver pronto, então qualquer método pode funcionar. Eles são apenas truques para ajudá-lo a dar o salto, eles são apenas trampolins. Você pode pular no oceano a partir de qualquer trampolim. Os trampolins são insignificantes: que cores eles têm, de que madeira são feitos, isso é insignificante. Eles são apenas trampolins e você pode pular a partir deles. Todos estes métodos são trampolins. Seja qual for o método de sua preferência, não fique pensando sobre ele, faça-o!

As dificuldades surgirão quando começar a fazer alguma coisa - se você não fizer nada, não haverá dificuldade. Pensar é muito fácil de fazer porque você não está viajando de verdade, mas quando começa a fazer algo, as dificuldades surgem. Assim, se você vir que as dificuldades estão surgindo, pode sentir que está na trilha certa - algo está acontecendo a você. Então, antigas barreiras irão se quebrar, hábitos antigos se vão, haverá mudança, haverá perturbação e caos. Toda a criatividade vem a partir do caos. Você será criado novamente somente se tudo o que você for se tornar caótico. Então, estes métodos o destruirão primeiro, somente então um novo ser será criado. Se existirem dificuldades, sinta-se afortunado - isso mostra crescimento. Nenhum crescimento é macio... e o crescimento espiritual não pode ser macio, essa não é a sua natureza. Porque crescimento espiritual quer dizer crescer para cima, crescimento espiritual quer dizer alcançar o desconhecido, alcançar o não mapeado. Dificuldades existirão. Mas lembre-se de que com cada dificuldade passada, você é cristalizado. Você se torna mais sólido. Você se torna mais real. Pela primeira vez, sentirá alguma coisa centrando em você, alguma coisa se tornando sólida.

Como você é agora, você é apenas um fenômeno líquido, mudando a cada momento, nada estável. Realmente você não pode proclamar nenhum "eu" - você não tem um. Você é muitos "eus" apenas num fluxo, um fluxo como o de um rio. Você é uma multidão, não um indivíduo ainda. Mas a meditação pode torná-lo um indivíduo. Essa palavra, "indivíduo," é bela: ela significa indivisível. Agora como você é, você é dividido. Você é apenas muitos fragmentos reunidos de alguma forma, sem nenhum centro presente aí, sem qualquer mestre na casa, somente os serventes. E, por um momento, qualquer servente pode se tornar o mestre.

Você é diferente a cada momento porque você não é - e, a menos que você seja, o divino não pode acontecer a você. A quem ele vai acontecer? Você não está aí. As pessoas vêm a mim e dizem: "Gostaríamos de ver Deus." Eu pergunto a elas, "Quem vai ver? Você não está aí. Deus está sempre aí mas você não está aí para ver. É apenas um pensamento fugidio de que você quer ver Deus." No momento seguinte, elas não estão interessadas; no momento seguinte, elas se esqueceram de tudo sobre isso. Um esforço intenso e persistente e um anseio são necessários. Então qualquer método vai funcionar.

OSHO, Vygian Bhairav Tantra"
Fonte: Universo de Luz
[Imagem: Peter Eglington, detalhe da mandala "Huna"

Posted by Lilia at 03:39 PM|Comments (1)
 
  Meditação não é o que voce pensa

Yuri Vasconcelos

Meditation.jpg Quando se fala em meditação, a gente logo pensa em alguém sentado de pernas cruzadas sobre uma almofada no chão, com a coluna ereta, as mãos apoiadas sobre os joelhos, os olhos cerrados, a boca levemente aberta e um silêncio sepulcral dominando o ambiente. De fato, essa é uma maneira clássica de meditar, mas não a única. Existem várias técnicas para mergulhar nesse estado de introspeção. Dá para meditar de olhos abertos, ouvindo música, andando ou durante tarefas cotidianas como passar a roupa, cozinhar e tomar banho. Sim, porque meditação não é uma ação, e sim um estado de espírito. "Meditação é a qualidade de estar consciente e alerta. O que quer que você faça com consciência é meditação. A ação não é a questão, mas a qualidade que você traz para a ação", afirma em um de seus livros o líder espiritual indiano Mohan Chandra Rajneesh, também chamado de Osho, que morreu em 1990. Ou seja, o que importa é estar focado naquilo que se está fazendo. "Para colher os benefícios da meditação, não precisamos nos isolar do mundo, mas, pelo contrário, incorporar a prática meditativa ao nosso cotidiano", diz o médico Jou Eel Jia, presidente da Sociedade Brasileira de Meditação Médica.

O segredo está em prestar atenção em cada momento do presente. Parece simples, e é. Mas exige uma mudança de postura perante a vida. Uma mudança sutil, porém fundamental. Afinal, fomos ensinados que, para resolver os problemas cotidianos, é preciso pensar e se preocupar com eles. O resultado disso é que passamos a maior parte do dia, senão o dia todo, com a atenção dispersa no passado (o desentendimento com a colega de trabalho, a seção de ginástica perdida) ou no futuro (o projeto que precisa ser entregue amanhã, a viagem do próximo feriado). Pouco a pouco, esses pensamentos recorrentes vão acumulando uma carga nociva de angústia pelo que aconteceu e ansiedade pelo que vai acontecer.

Meditar é adotar a atitude contrária. É concentrar-se no presente, tornar conscientes os gestos automáticos mais banais. Ao tomar banho, por exemplo, atente para o que está fazendo em vez de lavar-se automaticamente enquanto pensa na lista de compras do supermercado. Note o cheiro do sabonete, a temperatura e o som da água. Quando for se sentar, no trabalho ou à mesa de jantar, preste atenção na postura, na posição de suas pernas e na sensação na coluna. Na fila do elevador, note como estão dispostos os ombros, o abdômen e os pés. Deixe para se aborrecer com o serviço atrasado quando chegar a sua mesa de trabalho. Em outras palavras, a recomendação dos mestres da meditação se parece com um bom conselho, daqueles que só uma avozinha querida seria capaz de dar: "Pare de pensar e de se preocupar e viva um momento de cada vez". Reconfortante, não?

Corpo, mente e espírito
A idéia é essa: confortar, acalmar a mente e trazer paz ao espírito. Resumindo: aumentar o bem-estar. "Ao meditar, a pessoa cultiva estados da mente que levam à paz e ao bem-estar", diz Ken O'Donnell, coordenador para a América Latina da Brahma Kumaris, universidade espiritual de origem indiana que hoje tem mais de 4 mil centros no mundo. Mas não é só isso. Os especialistas dizem que, ao meditar, é possível experimentar uma sensação de unidade com o cosmo que é nossa verdadeira essência, nosso ser real. "As pessoas meditam, fundamentalmente, por três razões: conhecer a si mesmas, ampliar a percepção da realidade e viver no espaço do sagrado e atingir uma comunhão com o divino", diz Lia Diskin, da Associação Palas Athena, de São Paulo, que organiza cursos de meditação.
Essas promessas já seriam suficientes para fechar os olhos e entoar um mantra, mas ainda tem mais. Meditar faz bem à saúde, dizem os mais respeitados cientistas e médicos dos melhores centros de estudos do mundo. Eles ainda não sabem por quê, mas a lista de benefícios comprovados não pára de crescer (leia quadro na página ao lado).

Não é de espantar, portanto, que haja tanta gente meditando. Só nos Estados Unidos, pelo menos 10 milhões de pessoas meditam regularmente, o dobro de uma década atrás. Lá, a prática está sendo incorporada ao cotidiano em escolas, empresas, hospitais, repartições públicas e escritórios de advocacia. Nas penitenciárias americanas, a meditação é usada para recuperar os detentos e tem conseguido evitar que muitos voltem ao crime depois de libertados (como há tempo de sobra, as sessões duram horas). No Brasil, não existem estatísticas que apontem quantos são os praticantes, mas acredita-se que o número cresce ano a ano.

Toda hora é hora
Mas em que momentos do dia-a-dia é possível meditar? Em tese, todos. Na verdade, os grandes gurus meditam ininterruptamente, ou seja, passam todos os momentos atentos ao presente, a cada momento. Para a maior parte das pessoas, porém, que não atingiu esse estado de atenção, convém exercitar a concentração. Veja a seguir algumas dicas de como aproveitar o cotidiano para treinar. Antes de mais nada, um lembrete importante: reserve um tempo para cada atividade. É impossível concentrar-se em uma ação se você ficar pensando que já está na hora de fazer a próxima.
Os vários minutos gastos no trânsito, por exemplo, podem ser aproveitados para meditar, segundo o médico acupunturista Jou Eel Jia. "Observe sua respiração ou entoe um mantra (não se assuste com o nome. Mantra pode ser qualquer som que ajude a concentrar). Isso vai ajudar a enfrentar os congestionamentos e trará um grande bem-estar físico e emocional." Segundo Jou, não tem perigo de bater o carro.

E por que não meditar caminhando? A terapeuta holística Veena Mukti diz que é possível fazer isso no caminho para o mercado ou na academia. "Quando estiver correndo ou caminhando na esteira, por exemplo, desligue-se da televisão que está ali na frente. Fixe o olhar em um ponto qualquer à sua frente e sinta a sua respiração. Ao mesmo tempo, observe cada movimento do seu corpo. Concentre-se no movimento de seus braços, de suas pernas, do seu pé. Tente manter a mente livre dos pensamentos e, quando eles vierem, simplesmente volte sua atenção à atividade que está fazendo", diz ela.

Também é possível meditar enquanto andamos no parque, no caminho para a padaria ou subindo e descendo escadas. O monge budista Thich Nhât Hanh, autor do livro Meditação Andando (Editora Vozes), criou uma técnica baseada na observação da respiração e das passadas. "Ao caminhar, mantenha um leve sorriso nos lábios e pratique a respiração consciente contando os passos", diz ele. "Observe cada respiração e o número de passos que dá ao inspirar e ao expirar. Se der três passos durante uma inspiração, diga baixinho 'um, dois, três', ou 'dentro, dentro, dentro', uma palavra a cada passo. Se der três passos enquanto expira, diga 'fora, fora, fora' a cada passo." Segundo o religioso, "quando estamos conscientes, intensamente em contato com o momento atual, aprofunda-se nossa compreensão do que está acontecendo e começamos a ser preenchidos de aceitação, alegria, paz e amor".

Hora de comer também pode ser hora de meditar. No almoço ou na janta, há muita coisa para reter a atenção. Aos poucos, você vai notar que cada alimento tem sabor, aroma, textura e temperatura próprios. Preste atenção na mastigação, na distribuição dos alimentos no prato, sua postura à mesa, sua respiração. Acabou a refeição? Medite na pia, ao lavar a louça. Observe o formato, as cores, a textura e o peso do prato. Fique atento ao movimento que você faz ao pegá-lo e sinta a temperatura da água e a textura da esponja e da espuma. Ouça o som da água saindo da torneira e o barulho da própria louça na pia. Sinta o aroma do detergente e observe sua respiração.

Terminou? Tudo limpinho no escorredor? Não disperse. Mantenha a sintonia também ao enxugar a louça, guardar os pratos, arrumar o guarda-roupa, pentear os cabelos, vestir-se e ao longo do dia todo. Isso é meditar. Com a prática, a cada dia dá menos trabalho conectar-se ao presente.

Idas e vindas
Mas, se você já tentou parar de pensar e concentrar-se totalmente no que faz, deve ter percebido que isso não é nada fácil. O problema é que a mente divaga com muita facilidade e logo está lá você pensando no telefonema que precisa fazer ou na reunião de amanhã. Isso é normal. "Nossa mente é um turbilhão de pensamentos. A grande dificuldade para conseguirmos meditar é conter a divagação. A toda hora nossos pensamentos nos levam para lugares aonde nem sempre queremos ir", diz a terapeuta holística Veena Mukti, coordenadora do Avathar Instituto de Formação Holística, de São Paulo.
Apaziguar a mente, então, seria o primeiro passo para poder mergulhar no estado meditativo de que nos fala o mestre indiano Osho. E como fazer isso? "Aceitando e abraçando o fluxo de pensamentos como se eles fossem a cena de um filme. Os pensamentos surgem, acontecem e passam", afirma a professora de yoga Márcia De Luca, fundadora do Centro Integrado de Yoga, Meditação e Ayurveda (Ciyma), de São Paulo. "Não devemos lutar contra eles, pois agindo dessa forma nós lhes damos personalidade e os fortalecemos", diz ela. "Quando a mente se dispersar, diga que agora não e continue com o seu propósito", ensina Lia Diskin.

Técnicas
Muito bem. Então é possível meditar durante as tarefas cotidianas, sem interromper a rotina diária. Ótimo. Mas acredite: sua concentração vai melhorar muito se você dedicar um tempinho do seu dia, ainda que mínimo, só para exercitar a atenção. Além do que, quem nunca meditou de uma maneira mais convencional, quer dizer, em um lugar tranqüilo, com os olhos fechados e concentrado na respiração, provavelmente terá dificuldades para manter a atenção focada nas tarefas do dia-a-dia, em meio a tantas distrações. Por isso, os estudiosos do assunto recomendam e praticam, eles mesmos, algumas técnicas de meditação que não precisam tomar muito tempo.

"A meditação rotineira é possível, mas antes é preciso conhecer um repertório de práticas ou técnicas que robusteçam nossa capacidade de atenção, de estar presente e de criar e manter um foco", afirma Lia Diskin, da Associação Palas Athena. "Toda a questão da meditação está na capacidade de criar um foco, seja ele um mantra, a respiração ou a própria observação das sensações. Para manter e criar uma força contínua nesse foco é preciso ter o que eu chamo de 'musculatura interna'."

É como andar de bicicleta: no início, levamos vários tombos, mas, depois que aprendemos a pedalar, é para o resto da vida. "Quando se está começando, o indivíduo precisa ter um pouco de persistência, pois tem que superar uma grande inércia", afirma O'Donnel. E para sair da inércia o primeiro passo é escolher o estilo de meditação que mais combina com você. As opções são muitas. Um dos mais utilizados é a meditação durante a respiração, em que a pessoa deve sentar-se com as pernas cruzadas, ficar atenta ao fluxo de ar que entra e sai de seus pulmões e, sempre que se distrair com algo, retornar a atenção a ela. Mas e se a perna doer? Adote uma posição mais confortável, diz o Dalai Lama em O Caminho da Felicidade - Um Guia Prático para os Estágios de Meditação. Mas ele insiste em que no início de cada prática, nem que seja em respeito à tradição, deve-se cruzar as pernas.

Outra técnica bastante utilizada é repetir um mantra, que tem a função de reduzir o fluxo de pensamentos. O cardiologista americano Herbert Benson, professor da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, um dos maiores pesquisadores da meditação e do poder das crenças na promoção da saúde, criou uma forma de meditar baseada na palavra one ("um" em inglês). O som lembra o mantra "ohm", considerado o som primordial do Universo, pelo hinduísmo. Outra técnica parecida, desenvolvida pelo líder espiritual Deepak Chopra, baseia-se na repetição do que ele chama de som primordial individual, que é escolhido a partir da hora, local e data de nascimento da pessoa. Ele ensina que a repetição desse som nos transporta para o campo da pura potencialidade de que nos fala Márcia De Luca, sua discípula e representante aqui no Brasil.

Pode-se ainda acalmar o fluxo de pensamentos mentalizando uma cor ou imagem - o rosto de Cristo, por exemplo - ou fixando o olhar em um objeto, como a chama de uma vela. Uma das meditações mais populares no Ocidente foi criada em 1957 pelo indiano Maharishi Mahesh Yogi, que a chamou de meditação transcendental. O iniciado deve praticá-la sentado confortavelmente e de olhos fechados. Cada pessoa recebe um som pessoal que deve ser entoado durante a sessão.

A raja yoga, por sua vez, um tipo de meditação milenar derivada do hinduísmo, não usa mantras nem técnicas associadas à respiração. Sentado da forma que desejar e de olhos abertos, o praticante deve fixar sua atenção em qualidades positivas do ser, como bondade, generosidade, compaixão, e assim gerar um estado mental elevado.

Existem também técnicas de meditação ativa, onde não é preciso ficar com o corpo parado. O líder espiritual Osho criou várias formas de meditação em movimento, misturando aspectos do hinduísmo, da tradição sufi e da bioenergética. Suas aulas parecem sessões de laboratório de teatro e utilizam música, dança e respiração. O objetivo é relaxar os músculos e manter a mente concentrada, longe dos pensamentos.

No fim das contas, não importa a técnica usada, contanto que ela ajude a pessoa a apaziguar a mente e manter-se focada. Os grandes mestres afirmam que para colher os benefícios da meditação o ideal é praticá-la duas vezes por dia, em sessões de 20 a 30 minutos. Para quem está começando, pode ser uma tarefa difícil. "Muitas pessoas não têm disciplina para isso e acabam desistindo. Por isso, aconselho que, depois de escolher a técnica que mais lhe agrada, comece com cinco minutos diários", afirma Márcia De Luca, do Ciyma. "Aguarde um mês para que os efeitos dessa prática fiquem gravados na sua memória celular e gerem o desejo de meditar, criando assim o hábito. Os efeitos da meditação são tão prazerosos que os cinco minutos serão insuficientes e o tempo irá se alongando gradativa e espontaneamente."

Outra dica para quem começa é participar, ao menos uma vez por semana, de um grupo de meditação. Além de ser um parâmetro para avaliar sua própria evolução, o grupo ajuda porque dá suporte energético para a pessoa ficar mais presente e centrada.

E como saber se a meditação funcionou? É fácil. Se, ao final dela, você for invadido por uma sensação de bem-estar, plenitude e apaziguamento, pode estar certo de que você meditou. A terapeuta holística Veena Mukti, no entanto, faz uma ressalva: "Quando se começa a meditar, a sensação pode não ser tão agradável. A pessoa começa a perceber que sua mente é um turbilhão de pensamentos e que seu corpo tem diversos pontos de tensão que antes não eram percebidos", diz ela. Com o passar do tempo, no entanto, a dispersão mental e os pensamentos banais naturalmente desaparecem. A mente vai serenando e o corpo já não dói tanto. As primeiras sensações de bem-estar começam a aparecer. E você, enfim, começa a colher todos os benefícios dessa prática milenar.

Mente sã, corpo são
. Meditar ajuda na liberação de endorfina, um forte tranqüilizante que provoca a sensação de alegria e de bem-estar.
. Diminui a produção de adrenalina e cortisol, hormônios secretados em situações de estresse, e de radicais livres, substâncias que atuam no envelhecimento humano.
. Quem medita tem auto-estima mais elevada, maior poder de concentração, mais facilidade para aprender coisas novas e maior poder de raciocínio. Isso porque o fluxo sanguíneo aumenta na região do cérebro que comanda essas funções.
. Meditadores também são mais tolerantes, estão mais preparados para lidar com situações difíceis e conseguem se relacionar melhor com os outros.
. Por fim, meditar fortalece o sistema imunológico, que fica mais resistente a doenças psicossomáticas, como gastrite e enxaqueca, e a doenças autoimunes, como esclerose múltipla e artrite reumatóide.

Escolha sua linha
Meditação na Respiração
É uma das mais comuns e simples. Sentado de pernas cruzadas num lugar tranqüilo, feche os olhos e fixe a atenção no fluxo de ar que entra e sai de seus pulmões.

Meditação no Som Primordial
Criada pelo mestre espiritual Deepak Chopra, consiste na repetição de um som, chamado primordial, que está relacionado com a hora, a data e o lugar em que você nasceu.

Meditação Zen-Budista
Uma das técnicas dessa corrente do budismo é a meditação andando do monge Thich Nhât Hanh. Ao caminhar, conte os passos e sincronize-os com a respiração.

Meditação Raja Yoga
Sentado numa posição confortável e de olhos abertos, mentalize aspectos positivos da natureza humana, como os sentimentos de bondade, generosidade, compaixão e amor.

Meditação Transcendental
Formulada pelo indiano Maharishi Mahesh Yogi, não requer concentração ou contemplação. É baseada na repetição de um som pessoal só conhecido pelo iniciado.

Meditação Cristã
Resgatada pelo monge beneditino inglês John Main (1926-1982), está baseada na repetição de um mantra. O mais usado é o "Maranatha", (em aramaico, "Vem, Senhor").

Meditação Dinâmica
Foi criada pelo líder espiritual Mohan Chandra Rajneesh, o Osho, especialmente para os ocidentais. Mescla elementos de várias culturas e usa dança, som e movimentos.

Meditação Self
Tem como base os ensinamentos do iogue Paramahansa Yogananda e objetiva disseminar técnicas que levem seus praticantes a atingir a experiência pessoal e direta com Deus.

No início, havia Deus
Embora pareça que a meditação só tenha entrado em moda no Ocidente nos últimos anos, ela já é praticada nesta metade do mundo há muitos séculos, embora travestida de fé religiosa. Criada no Oriente, a meditação já era praticada na Índia há cerca de 5 mil anos e é descrita nos primeiros textos sagrados do hinduísmo. Tempos depois, irradiou-se para a China, o Japão e outros países orientais - não se pode esquecer que foi meditando debaixo de uma figueira que o príncipe Sidarta Gautama alcançou a iluminação, por volta de 590 a.C., tornando-se o Buda.
A partir do século 3 de nossa era, a meditação foi assimilada por monges cristãos que viviam no Egito e na Síria, conhecidos como "Padres do Deserto". Eles acreditavam que, meditando, aproximavam-se de Deus. Os muçulmanos também renderam-se à meditação, notadamente os integrantes da seita sufi, que a incorporaram aos seus cultos por volta do ano 1000. Rezar, portanto, é uma maneira de meditar, só que com cunho religioso.

Os benefícios à saúde, é verdade, só foram descobertos nos últimos anos pela medicina ocidental, que desde então vem fazendo pesquisas para entender como o estado de meditação afeta o corpo.

Para começar já
1. Encontre um lugar tranqüilo. Um quarto em casa está bom.
2. Sente-se numa postura confortável (não precisa ser com pernas cruzadas) e feche os olhos.
3. Respire profundamente e concentre-se na entrada e saída do ar. Um mantra, como o clássico "ohmmmmmm", ajuda a concentrar.
4. Se o pensamento divagar, não se recrimine: apenas volte a atenção à respiração ou ao mantra.

Fonte: Vida Simples
[Imagem: 3D Art, "Meditation"]

Posted by Lilia at 01:20 PM|Comments (0)