setembro 30, 2006

CONSCIÊNCIA E CURA

Mani Álvarez

curaeconsciencia_sunsetquietwaterpark_lilia.jpg O que teria a ver Consciência com Cura? Somos prevenidos e pagamos nossos planos de saúde; quando estamos doentes vamos a um médico ou tomamos um remédio; e se a coisa piora buscamos um tratamento alternativo ou uma cura espiritual. Onde entra a Consciência?

De um modo geral, a cura ainda é vista como uma intervenção externa e não como um processo de autocorreção interno. Muitas vezes nos flagramos defendendo uma teoria holística maravilhosa, mas correndo atrás de um “bom” especialista ou de um diagnóstico “confiável” nos momentos de crise, mesmo sem fé no velho paradigma que sustenta tudo isso.

Se a Consciência é a grande sacada deste milênio, porque temos tanta dificuldade em integrar este conceito em nossa vida prática? Porque hesitamos tanto em reconhecer que possuímos um poder fantástico dentro de nós e que já é tempo de aprender a utilizá-lo? Atribuímos o poder de curar ao psicoterapeuta, ao médico, aos remédios, ao curandeiro, à benzedeira, aos espíritos, aos gurus, mas não nos damos conta de que somos nós que autorizamos a nossa própria cura, venha ela de onde vier. Quando o paciente não quer se curar, não adianta qualquer método ou intervenção terapêutica. Isto significa que existe uma instância de autoconsciência que diz sim ou não, seja à cura, seja à doença.

Sobre esse potencial que todos nós possuímos, disse certa vez o médico espiritualista Albert Schweitzer: “Cada paciente leva seu próprio médico dentro de si. Este paciente nos procura sem saber dessa verdade. O melhor que fazemos é dar ao médico que reside dentro de cada paciente a chance de trabalhar”.

Esse “médico interno” é a Consciência. Colocá-lo para trabalhar é tirar o ego do comando e entregar tudo àquela instância misteriosa que alguns chamam de Providência Divina, outros de inconsciente e outros ainda de “cura quântica”. Nomes diferentes para uma só realidade. Mas, em qualquer um dos casos, é muito difícil essa entrega. Ela exige de nós nada menos do que uma mudança radical de visão.

Quando o “movimento” Transpessoal se expandiu para além dos muros universitários americanos, na década de 70, seu método incorporou o conhecimento de antigas tradições orientais e, ao mesmo tempo, encontrou respaldo teórico nas modernas descobertas da física quântica. E aquilo que os místicos de todos os tempos diziam a respeito da união com Deus, os neurocientistas confirmavam falando sobre a integração entre os dois hemisférios cerebrais, sobre o “salto quântico” do pensamento, sobre o caminho hormonal das emoções, etc. Na confluência das duas linguagens, a Transpessoal teve o mérito de sistematizar vivências que poderiam facilitar o difícil percurso que vai da consciência pessoal e individual a uma instância muito mais abrangente e totalizante, que vai além da pessoa, do indivíduo, do ego.

E o que tudo isso tem a ver com Cura? Tudo! Pois, o maior problema que encontramos para colocar em ação a Consciência curadora que somos é justamente o obstáculo representado pela “pequena’ consciência do ego com o qual nos identificamos, e que “pensa” que não sabe, que não pode, que não é capaz, que é perigoso, que o outro é que sabe, que pode dar errado, e por aí vai...

Nosso trabalho é ir conduzindo essa “pequena” consciência a um questionamento de seus padrões autolimitantes, mudando o enfoque narcisista da imagem de seu ego, trazendo outras realidades muito mais gratificantes à percepção de si mesmo até o momento mágico do Oh! Existe algo maior em mim! Eu não sou só isso! Eu sou muito mais do que isso! Eu posso! Eu quero! Eu Sou!

Mas, percebam que em todos esses momentos o Eu que se manifesta é um Eu maior, o Eu Divino. Nesse domínio predominam valores maiores como a compaixão, a tolerância, a equanimidade, a solidariedade, o amor, a beleza, a gratidão, a saúde. Este é um momento de emergência da Consciência (com C maiúsculo). É nítida a diferença da realidade definida pelo nosso “pequeno” eu: egoísmo, intolerância, rivalidade, competitividade, inveja, medo, rancor, sofrimento. A sensação é ou de absoluta impotência ou de absoluta onipotência. Ambas irreais.

Talvez agora fique mais clara a relação que faço entre Consciência e Cura. Entendo que a verdadeira Cura é a emergência da Consciência em nós. Quando Ela nos toma, passamos para uma outra dimensão. Somos curados de nós mesmos.

fonte: somos todos um

[Imagem: Lilia, "sunset quiet water park"]

Posted by Lilia at 05:40 PM | Comments (0)

Educar é preparar para a vida

Flávio Gikovate

educarprepararparavida_gustavklimt_motherandchild.bmp Superprotegendo os filhos, nós impedimos que eles desenvolvam os meios necessários para se manter sobre as suas próprias pernas.

Um dos filmes mais bonitos e comoventes dos últimos anos foi Cinema Paradiso, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Foi um grande sucesso de bilheteria em muitos países e também no nosso. Quase todas as pessoas que conheço choraram em algumas partes do filme. A cena que provocou lágrimas no maior número de espectadores é aquela na qual o velho, que é o pai espiritual e sentimental do rapaz, que lhe ensinou quase tudo o que sabia da vida até então, diz a ele que se prepare para partir do vilarejo rumo à cidade grande: "Vá e não olhe para trás; não volte nem mesmo se eu te chamar". O pai manda embora o filho adorado e "ordena" a ele que vá em busca do seu caminho, do seu destino, dos seus ideais.

Nesse momento, eu não fui mais capaz de conter as lágrimas, coisa que tentava fazer até então em respeito a esse esforço que os homens fazem para não chorar - e que é absolutamente ridículo. Lembrei da minha história pessoal e lamentei, com enorme tristeza, que eu jamais tivesse ouvido coisa parecida. Parece que eu havia nascido essencialmente para realizar tarefas que fossem da conveniência dos meus pais. Eles jamais me estimularam a sair de perto deles, ainda que pudessem achar que partir seria bom para mim. Achavam intelectualmente; mas, como isso era inconveniente e doloroso para eles, optavam por me impor o que fosse melhor para eles.

Antigamente isso era feito de modo aberto e frontal. Os pais, em certas culturas, chegavam até mesmo a escolher algum filho - especialmente filha - que lhes servisse de companhia e amparo na velhice. Essa criatura não deveria se casar nem ter qualquer tipo de vida própria; seria a "enfermeira" e "empregada" dos pais nos seus últimos anos. A maior parte das famílias, isto há 40, 50 anos, não agia assim tão diretamente. Mas jamais estimulariam todos os filhos para que fossem estudar em outras cidades. Alguns podiam - e deviam - ir; outros deveriam ficar para dar continuidade aos negócios dos pais e para zelar por eles. Filho era, de certo modo, propriedade dos pais e seu destino era o que fosse decidido por eles. E as decisões eram feitas essencialmente em função das conveniências práticas - materiais e de conforto físico - dos patriarcas. Os aspectos emocionais da vida existiam, é claro, mas estavam submersos e invisíveis, colocados embaixo das questões práticas de todos os tipos. Não eram relevantes na hora das decisões. Se um filho era escolhido para ser padre, de nada interessavam suas reclamações de que não era esse o desuno que havia sonhado para si e que isso o faria infeliz. Ser infeliz não era argumento forte!

Temos a impressão de que esses tempos já se foram e que hoje em dia as coisas são muito diferentes. Parece que agora nós agimos respeitando a vontade dos nossos filhos e que eles podem fazer das suas vidas o que desejarem. Será mesmo? Não é essa a minha impressão. É evidente que há grandes avanços. Rapazes e moças são mais livres para escolher suas profissões; são mais livres para escolher seus namorados, para se casarem ou não - isso em termos, pois uma filha solteira com mais de 25 anos de idade ainda preocupa, e muito, os pais. Poucos são os pais que, hoje em dia, têm coragem de interferir frontalmente sobre o destino de seus filhos. Isso, é claro, desde que eles se comportem dentro dos limites, estreitos em muitos casos, dos padrões de conduta mais usuais. Filhos que decidem ser atores, bailarinos, músicos etc. esbarram em grandes obstáculos familiares. O mesmo acontece com os homossexuais que, até hoje, escondem suas práticas das famílias.

Agora, a forma mais sórdida e maldosa que existe de dominação é aquela que se mascara, que se traveste de grande amor e superproteção. A criança - e depois o jovem - é tão paparicada que não desenvolve os meios necessários para se manter sobre as próprias pernas. É evidente que, dessa forma, jamais poderá partir para longe dos pais. Foi carregada no colo o tempo todo e suas pernas ficaram, por isso mesmo, atrofiadas. Não pode andar por seus próprios meios e é dependente da família para a vida toda. Pais fracos e inseguros fazem isso porque, na realidade, querem os filhos perto de si, exatamente como se fazia no passado. Querem os filhos por perto para darem sabor e sentido às suas vidas pobres e vazias. Querem seus filhos sem asas e incapazes de voar por conta própria. Não prepararam seus descendentes para voarem seus próprios vôos e buscarem seu lugar na terra. Em nome do amor - o que é mentira - geram um parasita, uma criatura dependente. A coisa é mais grave do que era no passado: antes o indivíduo era proibido de partir. Hoje, é permitido que parta, mas ele não tem pernas para isso

fonte: somos todos um
[Imagem: Gustav Klimt, "Mother and Child"]

Posted by Lilia at 02:59 PM | Comments (0)

Como me separei do cigarro

Flávio Gikovate

comomesepareidocigarro_jamesrandklev_georgianoaks.bmp Quando escrevi Cigarro, um Adeus Possível, fazia uns três meses que tinha parado de fumar. Estava orgulhoso. Estava deprimido. De vez em quando, me atacava aquela vontade lancinante de acender um cigarro. Não pela dependência física, que em poucos dias se resolveu. A dependência dolorosa do cigarro acontece porque ele toca em fatos de enorme densidade psicológica. Isso explica porque pessoas inteligentes, determinadas, metódicas e disciplinadas não conseguem deixar de fumar. Por trás dessa incapacidade está um tema profundo: o desamparo da condição humana.

O desamparo se manifesta, desde a primeira infância, na boca. Eu, por exemplo, sempre chupei balinha, mesmo quando fumava. Há uma quantidade imensa de pessoas "viciadas" em chiclete. Chiclete só não vira vício de verdade porque não tem substâncias químicas que causem dependência física. Chiclete e bala aliviam a inquietação oral que nos acompanha a vida inteira. É através da boca que, desde pequenos, procuramos uma sensação de aconchego. Começamos sugando o seio. Em seguida vem o primeiro vício, a chupeta. Sai a teta, entra uma borracha. Sai a borracha, começamos a chupar o dedo ou a roer as unhas.

Sou contra o cigarro porque faz mal à saúde. Não tenho nada contra chupeta, chiclete ou bala - maneiras de atenuar o desamparo, sensação de que nenhum ser humano está livre.

Compreendendo a profundidade dessa questão, não subestimando o tamanho da dificuldade, montando uma estratégia lenta e progressiva, calma e ponderada é que, um dia, o viciado pode largar o maldito cilindrinho. Quando tentei parar de fumar faz uns 10 anos, sofri muito. Ainda não estava maduro. Desta vez, estava mais preparado. Tinha entendido melhor o motivo da intromissão do cigarro na vida da gente, me sentia mais seguro, um pouco tocado com a noção que os americanos introduziram de que o fumante é um cidadão de segunda classe, e incomodadíssimo com a dependência. Achei que teria condições de não substituir o cigarro, sobretudo por comida. Porque na última tentativa engordei barbaramente. Mas desta vez parei, fiz exercícios, não engordei nada.

Há uns dias, um amigo esqueceu um maço de Marlboro em casa. Essa era uma das marcas famosas na minha adolescência. Fumar cigarro americano, ser um pouco Humphrey Bogart. Aquele rótulo vermelho bateu em mim, me deu uma nostalgia funda de certo charme, de me imaginar num bar conversando, fumando, bebendo... Nem sei se tudo isso tem charme, mas foi o que nos ensinaram. É essa atmosfera que conta. Não é o pulmão da gente que anseia pela fumacinha.

Cigarro prende porque a gente se sente especial quando fuma - pelo menos no começo - e porque ele vira um companheiro, passa a fazer parte da identidade da gente. Um cigarro na mão ajuda a abordar uma moça numa festa. Para dar um telefonema difícil, certas pessoas acendem um cigarro. É por isso que o caminho para um controle progressivo sobre o vício consiste em quebrar esses hábitos.

Anos depois, as pessoas me perguntam como me sinto. Mais ou menos como um gordo que emagreceu. O gordo acha que, quando emagrecer, a vida vai lhe sorrir para sempre, que todos seus problemas estarão resolvidos. Aí, ele descobre que a vida continua tão complicada como antes, só que agora ele é magro.

Tenho os mesmos problemas que quando fumava. A vida é difícil, as incertezas são dolorosas, o desamparo é uma realidade inegável. Continuo frustradíssimo por não ser o Humphrey Bogart. Sou, agora, um desamparado consciente de que aquela vontade de fumar nascia da tentativa desesperada de procurar aconchego em alguma coisa. Rodar o dia inteiro em torno de cigarros que aplaquem minha vontade de fumar não me distrai mais. A vontade de fumar criava uma ansiedade que servia para mascarar essa outra ansiedade profunda e autêntica, comum a todo ser humano.

A vantagem é que posso peitar as questões intrincadas da condição humana sem confundi-las com vontade de fumar. Estou muito satisfeito com essa vitória difícil contra a dependência. O antigo orgulho de sentir-me "diferente" com um cigarro na mão, que me levou ao vício, transformou-se no orgulho de não fumar. Gosto muito mais de mim assim.

Para quem pensa seriamente em largar o cigarro, aqui vai o resumo de sete sugestões, algumas inspiradas nos Passos dos Alcoólicos Anônimos:

1- Prepare-se. A batalha é árdua
Parar de fumar é uma vitória tão extraordinária quanto uma medalha de ouro em uma Olimpíada. Preparar-se implica entrar em contato com as mesmas sensações de desamparo que nos levaram a refugiar-nos no cigarro. É preciso entendê-las em profundidade, para não cair em projetos imediatistas: uma mudança desse porte exige tempo.

2- Assuma: você é viciado
Admitir um vício não é propriamente um fortificante para a auto-imagem de ninguém. Não admiti-lo, porém, minimiza o problema e para o viciado não há meio termo. Ele só se livra da droga suprimindo-a por completo. Em tempo: muitas pessoas "normais" e "socialmente equilibradas" tornam-se dependentes do cigarro e continuam sendo seres humanos dignos. Pense nisso se admitir sua dependência o deixar deprimido.

3- Invista na saúde
Pessoas preocupadas com a saúde e a aparência desenvolvem aversão a tudo quanto as prejudica nesse sentido. Exercícios, dieta adequada, têm a ver com a busca de uma vida longa e de boa qualidade. Essa maneira de ser implica um constante esforço de construção e fortalece a auto-estima. Aí estão dois ótimos alicerces para os sacrifícios necessários ao seu projeto.

4- Altere hábitos ligados ao cigarro
Em outras palavras, crie seus próprios obstáculos ao ato de fumar. Não fume mais à noite, antes do café ou depois das refeições. Este item é o mais difícil e também o mais importante e pode ser combinado com o item acima. Exemplo: deixe de fumar no período em que pratica exercícios. Uma vantagem adicional será que o prazer (físico e psíquico) do exercício diminuirá sua vontade de fumar. Quebrar hábitos mostra como é forte e doída a vontade de fumar, ou seja, dá a verdadeira dimensão do desafio. Mas também vai trazendo à tona sua capacidade de agir contra a dependência.

- Desenvolva um fascínio pela independência
Atente para o quanto é humilhante a situação do viciado. Quanto mais se fuma, maior a vontade. Fuma-se apenas para afogar a dor de não fumar, sem maiores prazeres adicionais, já que, pelo menos do ponto de vista físico, as sensações não existem ou são desagradáveis. Tomar consciência dessas limitações gera a tendência inversa: cresce a vontade de entrar para o universo das pessoas livres e independentes.

6- Pare somente no momento oportuno
A sensação interior de que está pronto para a empreitada deve casar-se com as condições objetivas para que dê certo. Quando achar que é hora, parar ao mesmo tempo que alguém de sua família ou um colega de trabalho, ajuda. Qualquer truque - como aproveitar uma gripe - vale, sobretudo nos primeiros dias. Melhor ainda se, uma vez ultrapassado o pior, você se conceder uns 15 dias de férias fazendo exercícios e em companhia agradável.

7- Tenha em mente que a experiência é sofrida
Mesmo depois de cumprir as etapas anteriores, um vício é uma ligação tão profunda que romper com ele desperta todo tipo de dores e questionamentos. Mas como não há dor que dure para sempre, em pouco tempo a alegria da vitória estará amenizando a tristeza da perda.

fonte: somos todos um

[Imagem: James Randklev, "Georgian Oaks"]

Posted by Lilia at 02:42 PM | Comments (0)

Boa saúde: primeiro passo é perceber o organismo

Alex Botsaris

boasaude_sophia_jamesdinverno.jpg Todo dia recebo inúmeros e-mails me pedindo conselhos para uma infinidade de problemas. A maior parte das pessoas quer uma indicação médica para resolver seus problemas de saúde, coisa que não posso fazer por não ser ético nem correto em termos de responsabilidade profissional e conduta médica. Entretanto o que me chama a atenção nessas pessoas é que a maioria deseja solução para problemas cuja causa está em seus hábitos de vida, na sua rotina diária, que elas mesmas criaram.

Por outro lado, em meu consultório, vejo que uma das maiores dificuldades que os pacientes possuem, é para mudar seus hábitos de vida, livrando-se dos costumes que fazem mal à saúde. Tenho a impressão que isso é devido a uma dificuldade crescente das pessoas de perceberem a si mesmas, identificando suas necessidades e também aquilo que lhes faz mal a saúde.

Com a urbanização da sociedade, e em especial após a evolução tecnológica, as pessoas foram se acostumando a ter acesso aos bens de uso diário em lojas e foram se afastando cada vez mais da natureza. Cada vez mais produtos industrializados foram sendo usados na alimentação no lugar de alimentos naturais. A informação via mídia eletrônica está substituindo a experiência direta com a natureza. Crianças, por exemplo, estão, cada vez mais, tomando contato com animais e a vida selvagem na televisão e no computador.
Com a urbanização e o uso maciço de mídia eletrônica, as pessoas estão perdendo a capacidade de desenvolver seus instintos. Da mesma forma que perderam sua percepção da natureza (como o que pode fazer mal ou bem numa floresta), estão experimentando uma perda da capacidade de se autoperceber. Assim cada vez mais se acostumam com hábitos criados no ambiente urbano (como fumar ou usar drogas) que embotam os sentidos e apagam as percepções do próprio corpo.

Não sou o único a ter essa visão dos problemas de saúde atuais. O Dr Fernando Bignardi, professor de medicina na UNIFESP, escreve que um dos primeiros passos do processo psicoterapêutico é incentivar o paciente a fazer conexão com sua própria essência, ou seja aprender a escutar seu próprio organismo. Ele entende que muitos problemas de ansiedade e insatisfação, vêm da incapacidade das pessoas de saberem exatamente o que querem. A esse processo de escutar a si mesmo, ele chama de 'autoconexão'.

Estudo feitos no Canadá, revelaram que pessoas que têm hábito de leitura e evitam excesso de mídia eletrônica, têm melhores padrões de saúde, em atendimento primário à saúde, que aqueles viciados em televisão e jogos de computador. Em geral o primeiro grupo gosta de sair mais à rua e entrar em contato direto com as pessoas e as coisas. É possível que isso revele uma maior capacidade de percepção de si mesmo, nessas pessoas.

No Brasil um estudo com idosos revelou que pacientes que possuem mais capacidade de avaliar sua situação clínica e se cuidar, possuem melhor qualidade de vida que aqueles que não têm essa capacidade. Estudos revelaram ainda que, quanto maior a capacidade das pessoas de expressarem seu afeto, seja por si mesmas ou pelos outros, corresponde a uma menor incidência de doenças do coração câncer e diabetes.

Por isso, se você quer mesmo cuidar da sua saúde, comece por tentar escutar o seu próprio organismo e olhar em volta e buscar entender que desequilíbrios podem estar afetando negativamente a sua saúde. Não adianta procurar um médico, seja ele quem for, se não há disposição de mudar seus hábitos de vida que são nocivos. E isso depende fundamentalmente de identificar quais são esses hábitos.

Parar um pouco, ir para um local quieto e agradável e tentar sentir o que se passa em seu próprio organismo, são os primeiros passos nessa jornada. É bom reservar alguns momentos durante o dia para esses mementos consigo mesmo. Outro ponto é descobrir seus pontos fracos. Quase todo mundo sabe quais são. Não custa cuidar especialmente das fraquezas, não é verdade?

Bem sei que não basta identificar os problemas e desejar resolvê-los. Muitas pessoas conseguem chegar até esse ponto, mas não têm informação e força de vontade para galgar um novo patamar de qualidade de vida. Ai nesse momento que entra o médico. É ele que possui o conhecimento que vai permitir dar os próximos passos.

Por isso, não adianta ser qualquer um. É preciso escolher um profissional especial e qualificado, e que o paciente acredite em sua competência, mesmo que seja necessário esperar numa fila ou pagar uma consulta particular.

fonte: Vya Estelar
[imagem: James Dinverno, "Sophia"]

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setembro 26, 2006

O Bisturi e o Tear

Taunay Daniel

obisturieotear_anonimo.jpg Quando, em 1958, eu comecei a cursar a primeira série do ensino fundamental (que naqueles tempos chama-se ginasial), todos os alunos usavam uniforme. Tratava-se de uma escola pública de São Paulo, reconhecida pela alta qualidade do ensino que prestava aos seus discípulos.

Era um uniforme discreto: jaqueta cinza-azulado, camisa branca e calças grafite (saia para as meninas). Havia um detalhe muito importante na jaqueta, um emblema bordado do lado esquerdo superior onde se costuma dizer que é o lugar do coração. O desenho do emblema representava a idéia de átomo que se tinha naquela época. Eram três elipses, representando três órbitas de elétrons, todos girando em torno de um núcleo. No lugar do núcleo, entretanto, estava desenhado um livro aberto.

Era inegavelmente uma idéia interessante, um símbolo muito claro de uma época. Pretendia significar, explícita ou implicitamente, que a ciência clássica havia obtido o grande e definitivo sucesso de compreender e descrever a estrutura mínima da matéria, os micro-tijolos que compõem o Universo. Além disso, naquele emblema do uniforme, o núcleo do átomo era um livro, vale dizer, o conhecimento racional e sistemático que tudo poderia responder e explicar sobre os enigmas do mundo em que vivemos e sobre nós mesmos.

Era isso o que nos ensinavam na escola: que havia uma forma única e triunfal de conhecer o mundo. Uma forma objetiva que conduzia necessariamente à verdade, sem nenhuma "contaminação" de subjetividades inconvenientes que só fazem macular o saber cristalino que o racionalismo científico produz. Com isso podíamos nos sentir protegidos e confiantes.

E assim eu fui educado, como tantos outros o foram e são até os dias de hoje. Aprendemos a acreditar que existe uma maneira muito superior às outras de abordar e conhecer a realidade. Aprendemos a adotar uma determinada mentalidade, uma espécie de lupa especial supondo que, através dela e somente assim, podemos ver as coisas como realmente são.

Essa mentalidade, que podemos chamar de cientificismo, desde há muito se infiltrou em toda a sociedade, quer percebamos ou não. Ela tem uma origem histórica. Nasceu na Grécia antiga e foi se aprimorando e consolidando ao longo do tempo passando por diversas etapas até chegar ao seu grande apogeu em meados do século XIX até o início do século XX.

Foi tal o sucesso da ciência em fazer predições e estimular novas tecnologias, que a palavra "científico" passou a ser sinônimo de verdadeiro. Não é raro, mesmo atualmente, ouvir alguém dizer para por fim a uma discussão: "o que eu estou dizendo é científico"! O outro interlocutor da conversa fica paralisado quando é invocado algo tão poderoso como a Ciência.

Não é à toa que fazemos apelo à Ciência para justificar todo o tipo de ações na educação, na política, na economia, na saúde, na justiça, na publicidade, na indústria, no comércio, etc. A Ciência tornou-se a grande avalista dos procedimentos em inúmeras áreas da atividade social, desde os mais honestos e bem intencionados até os mais perniciosos.

É claro que uma criança (como eu era em 1958) não tinha nenhuma consciência do significado daquele emblema na jaqueta do uniforme escolar. Aquela mentalidade impregnou-se em mim sem que eu percebesse e custou-me muito esforço para livrar-me dela. Foram precisos muitos anos para desvestir aquele uniforme simbólico.

O mais curioso é que naquela época a ciência clássica já havia sofrido duros golpes que a removeriam do trono da soberania hegemônica do saber. A Física, a mais ortodoxa entre todas as disciplinas científicas, dava claros sinais, já no início do século XX, de que o método científico clássico não poderia a tudo responder.

Mais curioso ainda, é que mesmo hoje em pleno século XXI, com a rainha tendo sido deposta há muito tempo, tudo continua a ser como se ela ainda estivesse governando, como se os habitantes do reino não tivessem sido informados que o trono está vago. Ainda não sabemos que um novo império está sendo constituído e seguimos procedendo segundo o antigo regime.

O "Império da Razão" está cedendo lugar para o "Império da Consciência". Entretanto, a sociedade ainda levará algum tempo para reconhecê-lo, aceitá-lo e para reger-se pelas novas leis. Haverá muita resistência, muito enrijecimento, até que a flexibilidade se imponha.

Antes, éramos governados por uma mentalidade de bisturi que dissecava tudo, decompunha o mundo em pequenas partes, via o Universo como um amontoado de coisas separadas e desconexas umas com as outras, inclusive nós mesmos, como se nossa pele fosse uma fronteira bem nítida entre nós e o resto do mundo. Um mundo numérico, discreto, com demarcação precisa de limites. O mundo da verdade. Uma mentalidade que supunha que tudo poderia ser dito e descrito.

Na nova era que se impõe, seremos governados por uma mentalidade de tear , que entrelaça tudo com tudo, que entrevê a Unidade em tudo, que percebe o mundo como um organismo sistêmico, que percebe que há algo de transpessoal em cada um de nós que nos une a todos numa consciência única da Vida. Um mundo analógico, contínuo, sem demarcação de limites. O mundo da transcendência. Uma mentalidade que reconhece que o essencial é inefável.

Em 1958 tudo isso era ainda muito recente para que pudéssemos nos dar conta. Só quem estava na linha de ponta da pesquisa científica estava ciente das grandes transformações pelas quais o conhecimento iria passar. Meu uniforme e eu acolhíamos sem resistência o emblema simbólico.

Tudo leva a crer que o emblema a ser bordado na jaqueta do novo uniforme das escolas do século XXI deverá ser uma Mandala.

fonte: humanitatis

Imagem: anônimo, daqui

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setembro 08, 2006

É Possível Sair do Sofrimento, ou Uma Poética do Espaço

Isabela Bisconcini

whatthebleepdoweknow.jpg Estamos imersos no nosso próprio sofrimento. A cada evento que consideramos desagradável reagimos com desarmonia, com mais desagrado e assim geramos mais sofrimento. A esse círculo vicioso e condicionado o budismo chama "Samsara".

O filme "Quem Somos Nós?" (documentário com depoimentos de cientistas que fazem a ponte entre espiritualidade e ciência) em cartaz na cidade, nos diz que no nível subatômico, a essência de qualquer fenômeno físico é o espaço. O espaço das possibilidades, das quais a realidade que cada um vive é só uma dentre infinitas outras possíveis. Por que então insistimos nos mesmos caminhos?

Criamos desde que nascemos, ou se falarmos de uma perspectiva budista, desde um tempo sem início, marcas no nosso continuum mental; as sementes das situações que hoje experimentamos. O filme nos fala que: o que não existe no cérebro, com uma matriz previamente instalada, simplesmente não é percebido; não existe para aquela mente. De fato, o filme nos diz que temos acesso a cada momento a 4 bilhões de bits de informação, dos quais chegam à consciência apenas 2.000 bits. Ou seja, o que percebemos da realidade é condicionado e previamente filtrado, de acordo com os nossos programas pré-instalados. O budismo chamaria os programas já instalados das marcas mentais, ou as impressões que já temos gravadas no nosso continuum mental (poderíamos chamá-lo de disco rígido) e que condicionam o que da realidade perceberemos. Do ponto de vista científico, a mente é identificada com o cérebro, enquanto que do ponto de vista budista a mente não se resume à sua base química, é considerada do ponto de vista mais sutil, pois uma vez que acaba a realidade física (quando o corpo morre) a mente continua a existir. No entanto, ambos concordam absolutamente que o mundo interno é mais poderoso do que o externo, pois é ele que determina/ filtra o que você perceberá do mundo externo.

Assim, vamos criando uma teia de sinapses, de respostas para as situações que se nos apresentam, que se constituem nas ligações entre neurônios que, se freqüentemente repetidas, vão gerar o que no filme é chamado de "relação de longa duração entre os neurônios". Assim, geramos condicionamentos, as marcas mentais para o budismo, respostas habituais com as quais nos identificamos, pensando que isso é o que somos. A cada vez que reagimos de uma forma conhecida (habitual) reafirmamos - recriamos - os caminhos sinápticos pelos quais passa a percepção da realidade no nosso cérebro. Como uma trilha que quanto mais é utilizada vai reforçando um caminho, até que este vira uma estrada, assim funcionam nossas respostas bioquímicas diante das situações; assim estabelecemos as crenças do que é a realidade para nós: por fazermos sempre as mesmas associações de neurônios. Mas pense: neurônios são "soltos". Entre eles há o espaço, o espaço das infinitas possibilidades; somos nós que recriamos as ligações, refazendo as mesmas sinapses, e assim fazendo sempre o mesmo caminho de percepção da realidade.
Um outro ponto importante que o filme nos traz é o de que emoção e reação química são dois lados de uma mesma moeda. Nossas emoções geram descargas químicas que chegam às células através dos receptores celulares, e essas reações químicas viciam tanto quanto qualquer droga. Assim ficamos viciados às nossas emoções (sejam elas quais forem).
Como diz Ruth Toledo Altschuler: "Nossa biografia se torna nosso registro biológico".

Qualquer trabalho de transformação pessoal se propõe a abrir novos caminhos, visões, percepções, atitudes, em última instância, novas relações entre os neurônios cerebrais e entre estes e os receptores celulares. Mas, para isso precisamos gerar uma energia para mudança. Lama Gangchen Rinpoche nos diz que: "É preciso ter experiências positivas para querer repeti-las". É preciso relembrar através de nosso espelho de sabedoria que somos feitos de uma energia pura e bela e que, embora nossos condicionamentos nos mostrem um caminho "batido", há outras possibilidades. Eu não sou minha insegurança, não sou meu medo dos outros, não sou minha sensação de rejeição, mas estas são as marcas que cunhei, que gravei no disco do meu continuum mental. Precisamos atualizar a percepção de nós mesmos, deixando de nos contar a mesma história todo o tempo.

Nossas reações emocionais reforçam nossas crenças a respeito de nós mesmos. O espaço é a não reação.
Do espaço, brotam as situações que vivemos.
A partir do espaço, pela qualidade da intenção, as coisas ganham força e forma. O espaço das possibilidades da realidade subatômica é aquele em que a intenção plasma a realidade fenomênica.

O espaço é a desconstrução da dependência químico-emocional gerada pelos nossos condicionamentos. Desconstruir é primeiro sentir na pele a dor da cadeia do condicionamento, a dor do nosso samsara pessoal, onde nos percebemos como ratos correndo no carrossel das nossas reações habituais. Assim, em princípio, parecemos colapsar, pois passamos a enxergar as amarras. Todas as amarras. Uma maneira de desconstruirmos aquilo a que chamamos realidade é nos atermos às sensações da situação e não "irmos longe" nos emaranhando nas antigas sinapses dos nomes, julgamentos, rótulos, ou preconceitos que damos às situações. Lembro-me de uma praticante budista que, passando por uma doença, disse-me: se eu penso no nome que a doença tem, fico muito pior. Quando consigo deixar o nome de lado e fico só nas sensações, de momento a momento, e do meu dia a dia, tudo fica mais leve; de fato, não estou sentindo dor.

O filme nos aponta a direção do caminho da transformação: precisamos agüentar a retirada química das nossas adições (nossa projeção da realidade!) - a síndrome de abstinência ao vício das nossas reações emocionais/químicas; da história que nos contamos do que é a realidade - e arriscar um passo à frente e outro, de momento a momento, não respondendo ao impulso gravado que surge como "um pensamento natural". No fundo, tudo se resume a resistir à tentação de crer que o que vivemos é "A" Realidade, que as coisas "são assim". "A" Realidade não existe. Sobretudo, devemos nos concentrar na intenção de tudo o que fazemos e direcioná-la positivamente. A mente cria a realidade.

Precisamos nos ver como os co-criadores disto que chamamos realidade. Do espaço, brotam as coisas que vivemos. A partir do espaço, pela qualidade da intenção, as coisas ganham força e forma. A mente cria a realidade.
Como diz-se numa oração budista tibetana:
"Gentil Lama, Senhor que emana e reabsorve um oceano de infinitos mandalas, aos seus pés eu peço”.
A mente de cristal, livre das próprias adicções e não contaminada, como numa respiração, cria um oceano de infinitos mandalas e os reabsorve; a realidade se constrói e se desconstrói de momento a momento gerando e reabsorvendo estes infinitos mandalas. Por que precisamos ficar fixos nesta realidade condicionada e tediosa, se temos a todo instante o espaço - seja ele o espaço subatômico da ciência ou o de nossa mente de cristal puro, como nos propõe o budismo?

"Quem Somos Nós" é um chamado de responsabilidade pelo que criamos na nossa vida.

Fonte: Somos Todos Um

Posted by Lilia at 10:11 AM | Comments (0)