junho 26, 2007

A FARSA ESPIRITUAL DO PENSAMENTO POSITIVO

Ferrari

woodpecker_stgeorgeisland_2007memorialday_240.jpg A poucas semanas do vestibular, o professor de português me aconselha:
"Se você quiser passar na prova de redação, diga que o copo está meio vazio, de preferência, ou então, meio cheio, mas, em hipótese alguma, diga que o copo com água é apenas um copo com água, entende? Nunca se mostre contente com a realidade".

Eu lhe perguntei qual era o problema em se mostrar contente com a realidade e recebi a seguinte resposta: "Felicidade tem gosto de leite desnatado e não convence o paladar da serpente."
Meu professor, por ser professor, estava me aconselhando a escrever como ele escreveria, adulto, crítico, cítrico, cético, Freud, Shopenhauer, Dart Vader, pois só assim eu agradaria uma língua de duas pontas que não tem apetite nem enzimas para apreciar a vida como ela é.

A frase ecoou no meu peito: "felicidade não convence o paladar da serpente". Neste dia, ficou claro pra mim, que no mundo racionalista, ver pêlo em copos e fazer tempestade dentro deles, é sinônimo de grande inteligência racional, pois depõe a favor de uma alma que está comendo o fruto do bem e do mal. Porém, ver a realidade pelada e aceita-la em paz de espírito, é burrice, pois só ocorre aquelas almas fracas que insistem em não cair em tentação (racional). Ou seja, no mundo racionalista, um copo com água não pode ser apenas o que é: um copo com água. O copo "tem que" estar meio cheio ou meio vazio. A realidade "tem que" entrar dentro do copo-bem ou do copo-mal.

Todo racionalista se intitula realista. Eu pergunto: que realidade é esta que só os racionalista vêem?
Qualquer verdade humana é como aquela brincadeira de procurar formas nas nuvens: elefante, pingüim, flor, baleia, infortúnio, aprendizagem, sorte, azar.
Então, quando enxergamos o copo meio cheio, somos otimistas.
Quando enxergamos o copo meio vazio, somos pessimistas. Porém, note: em ambos os juízos (otimismo e pessimismo) a consciência é obrigada a ignorar a árvore da vida e cravar os dentes nos frutos da árvore do bem e do mal (dualismo). No pessimismo, saboreamos um fruturo do mal. No otimismo, saboreamos um fruturo do bem. Mas que realidade tem o sabor otimista e pessimista se nenhum deles é o fruto-presente?

Otimismo e pessimismo são as duas margens de um mesmo pecado: comer o fruto da árvore do bem e o mal.
O caminho para a felicidade não é percorrido através da escolha do "raciocínio certo" frente ao "raciocínio errado", mas através da transcendência do certo e do errado, do bem e do mal.
É por isto que o caminho da transcendência não é o caminho da cultura, nem da contra-cultura, mas retorno a inocência.
Eis o livre-arbítrio, com suas duas opções de visão frente a vida e sempre pronto para nos levar de volta ao éden: positivismo ou negativismo.

Mas é preciso tomar cuidado, pois positivismo não é "pensamento positivo" e negativismo não é "pensamento negativo".
Positivismo é aceitar o presente, apesar do embrulho.
Negativismo é recusar o presente por causa do embrulho.

Quando focamos o presente, eterno, fixo, imutável, palco dos acontecimentos transitórios, mesmo que o presente venha embrulhado em julgamentos de bem/mal, certo/errado, aceitamos ingenuamente o presente e somos felizes, pois sabemos que o embrulho dual é ilusão.
Quando mudamos o foco do presente para o embrulho (bem ou mal), a transcendência deixa de acontecer, o presente é negado como paraíso, logo, negativismo.

Negativismo é resistência a vida. É separar a unidade, é identificação com um dos lados do copo, é focar o bem "ou" o mal.
Positivismo é aceitação. Positivismo é transcender a separação, transcender os lados, é focar o bem "e" o mal.
Por exemplo, uma pessoa vai procurar os chinelos debaixo da cama onde os deixou e não os encontra. Logo surgem julgamentos de valor e de como a realidade deveria ser diferente do que está sendo.
Se a pessoa se identifica com estes pensamentos, congela o presente e surge a resistência de negar o fluxo da vida.
Porém, se a pessoa mantém sua atenção focada no presente, mesmo que surjam julgamentos de valor e de como a realidade deveria ser diferente do que está sendo, esta pessoa está sendo positivista, pois está aceitando o fluxo do presente incondicionalmente.

Olhar para a realidade e não corporifica-la em problemas pode parecer burrice, agora, vai explicar isso pro coração, um órgão que trabalha vinte e quatro horas por dia sem remuneração e cantarolando What a Wonderful World.
Como toda criança, também nasci sabendo que a vida é bela. Depois, pra ser aceito no clube dos intelectuais, passei pro lado racionalista da força. É a fantástica fabrica de chocolate dos adultos, feita com sorvetes de parafuso,
bombons de maumau, bolos de estresse, pirulitos de medo, tortas de rancor e milkshake de autoflagelação.

Mas admito que o sabor ácido que meu professor disse realmente serve de alimento as cobras e lagartos, nossas e alheias. Assim, durante algum tempo, segui sabido, ardido, revestido com folhas de parreira e juiz do bem e do mal. Até que um dia choveu e as folhas caíram.
Não sei explicar o que eu entendi do que a nuvem me disse. Não foi um discurso racional. Foi absurdo. Mas era como um rosto que refletia o sentimento de ser um velhinho e um menino ao mesmo tempo, e que se traduzia num sorriso. A vida voltou a ser bela.

Ah! Não passei no vestibular.

Fonte: Pegando Buda para Cristo

[Imagem: foto Lilia Lima]

Posted by Lilia at 02:43 PM | Comments (0)