Rosemeire Zago
Você já reparou que por vezes queremos abraçar o mundo, quando na verdade não conseguimos abraçar a nós mesmos? Qual foi a última vez que você se abraçou?
Queremos cuidar de todos, quando não conseguimos, ou não sabemos, cuidar de nós e nem daqueles que amamos. Porque quando não recebemos amor e atenção de nossos genitores da forma que desejávamos quando crianças, passamos a vida em busca deste amor em forma de reconhecimento e aprovação.
Esperamos sempre, consciente ou inconscientemente, que alguém reconheça nosso valor, e quando não acontece, perdemos nosso referencial interno e também, nossa auto-estima. Esperamos aprovação pelo que fazemos e acima de tudo, pelo que somos e realizamos. E quando não somos reconhecidos, principalmente por pessoas significativas, deixamos de acreditar em nossa capacidade.
Assim, passamos a buscar amor sempre no outro, e nunca dentro de nós. Esquecemos o quanto é essencial aprendermos a nós amar. Em alguns momentos perdemos nosso amor-próprio e com ele nossa confiança, por isso a opinião dos outros se torna tão importante. Quantas vezes você disse a si mesmo do seu próprio amor? Quantas vezes você disse que se ama? Nunca? Pode ser! Mas nunca é tarde para começar.
Do mesmo modo que nosso físico precisa de água e alimento, nossas emoções também precisam ser alimentadas. Mas estamos sempre esperando que o outro nos ame, nos abrace, que reconheça nosso valor, demonstre o quanto somos importantes, pois não nos sentimos capazes. Por que não nos amamos? Não nos aprovamos? Não nos sentimos importantes? Já pensou que se não nutrirmos estes sentimentos por nós mesmos, como podemos esperar que alguém o faça, e ainda mais, que faça melhor que nós? Por que desprezamos tanto nossa capacidade? Já pensou sobre isso?
É preciso aprender a identificar cada sentimento, sabendo o que sente e depois respeitar estes mesmos sentimentos e não desprezá-los. Não nos respeitamos e depois reclamamos que os outros não nos respeitam. Quantas vezes você sentiu algo e ignorou este sentimento para você mesmo? Muitas vezes isto acontece porque durante a vida, as pessoas tidas como significativas, ignoraram suas reais necessidades emocionais e com o tempo você aprendeu a fazer o mesmo. Por que desprezaram sua dor, você vai fazer igual? Pare com esse círculo vicioso. Olhe para dentro de você. Não como quem olha no espelho, superficialmente e tentando encontrar algum defeito, e porque até neste momento a imagem refletida é invertida. Olhe de verdade para dentro de seu ser, de sua alma. Deixe o medo de lado, pois ele não permite que você cresça. Enfrente-o e acredite que irá descobrir muitas qualidades que talvez ninguém reconheça, mas que há dentro de você. E se encontrar defeitos, quem não os têm? Olhe para eles com carinho, para mudar cada um, se quiser.
Transforme este momento no que podemos chamar verdadeiramente de crescimento, evolução. Liberte-se das necessidades não supridas de amor, aprovação, reconhecimento e saiba que só você pode se aprovar. Aprenda a se abraçar, se respeitar, se aceitar, se amar. Dê a si mesmo todo o amor que espera receber de alguém, pois só assim você poderá ser realmente amado e amar. Liberte-se das culpas, perdoe e perdoe-se! Liberte-se também das mágoas e dos ressentimentos do passado que só aprisionam e machucam tanto.
Agora coloque a folha em algum lugar para que fique com as mãos livres e faça o seguinte exercício: coloque sua mão direita sobre seu braço esquerdo e sua mão esquerda sobre seu braço direito. Pronto! Você está aprendendo a se abraçar. Abrace-se com carinho, fale do quanto você é capaz, do quanto você pode conquistar com seus próprios méritos. Fale do quanto acredita em você e principalmente, do quanto você se ama. Fale que a partir de agora, só você mesmo pode aprovar ou não o que faz. Se ninguém o ama, você se ama. Se ninguém vibra com suas conquistas, você mais do que ninguém passará a valorizar e a celebrar cada uma delas.
Não espere mais que o “outro” venha te salvar, venha te aprovar e reconhecer tudo de bom que faz. Pare de colocar sua vida e seus sentimentos, que é tudo que você tem de mais valioso, nas mãos de alguém. É claro que você pode dividir tudo isso com alguém que seja muito especial e que o ame muito, do contrário, guarde tudo só para você.
Agora olhe para dentro de você, sem medo, para que possa se descobrir. Perceba sua essência, deixe brilhar sua luz, pois só assim encontrará paz e poderá valorizar sua maior dádiva: sua vida neste momento presente! Afinal, o passado já se foi... e o amanhã, ah, o amanhã! Quem saberá? Por isso, a hora de começar é agora, faça seu melhor já! Comece irradiando amor... primeiro por você, depois contagie aqueles que ama.
[Imagem: Bettman Archive, Mirrored Nude]
A auto-estima é tudo na história de uma pessoa: ela interfere no que fazemos, em todas as áreas. De um pedido de emprego a uma conquista amorosa. É o que dá estrutura e base à nossa existência. Vamos aprender a mantê-la em alta para encarar a vida com mais alegria, confiança e tranqüilidade.
HELOÍSA NORONHA
Em 1985, a cantora norte-americana Whitney Houston conquistou as paradas de sucesso com a música The Greatest Love of All, originalmente gravada por George Benson nos anos 70. É uma pena que, nos anos seguintes, a estrela não conseguiu aproveitar os conselhos tão sábios da canção, uma ode à importância da auto-estima - o maior amor de todos é o amor que sentimos por nós mesmos, diz o refrão. Whitney batalha até hoje para se livrar dos efeitos do álcool, das drogas e dos relacionamentos destrutivos, sinais evidentes de que durante muito tempo não esteve satisfeita com a própria vida e consigo mesma.
A boa auto-estima, assim como a saúde, é uma condição essencial para ser feliz. Mas, diferentemente do equilíbrio físico e psíquico, que muitas vezes sofre influências alheias à nossa vontade, a auto-estima positiva só depende de nós. E essa felicidade que caminha ao lado dela não é aquela alegria forjada de comercial de margarina, e sim algo que acontece nas entrelinhas do dia-a-dia: capacidade de acreditar nas próprias qualidades, maturidade para aceitar os defeitos e limitações, ânimo para seguir em frente apesar das dificuldades, orgulho das conquistas, aprendizado com os erros. Ter uma boa auto-estima é, sobretudo, enxergar a si mesma da maneira que você é - e gostar disso. "É se amar e se respeitar", sintetiza a psicóloga Sandra Samaritano, do Instituto Paulo Gaudencio, de São Paulo.
Todo mundo tem auto-estima, nem que seja baixa. Segundo o psicanalista Elko Perissinotti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, há inclusive uma predisposição genética para nascer com mais ou menos autoconfiança. Mas isso não é um fator definitivo. "Cabe aos pais se preocupar com o desenvolvimento da personalidade da criança. Essa tendência pode ser modificada", assegura. Especializada em orientação infantil, a psicóloga Suzy Camacho, autora do livro Guia Prático dos Pais (Green Forest), concorda com Perissinotti e afirma que a auto-estima da criança se constrói conforme o meio em que ela vive, o que inclui a família e a escola. "Os sete primeiros anos de idade são importantíssimos, pois envolvem as referências de mundo. A criança aprende o que é ser magro ou gordo, alto ou baixo, por exemplo. Se ela ouve que é desastrada e bagunceira, vai acabar acreditando nisso", destaca.
O conteúdo do que escutamos na infância, inclusive, é crucial para determinar o nível da nossa auto-estima. Frases como "Por que você não é tão estudioso quanto o seu irmão?", "Se continuar assim você nunca vai ser nada" e "Pare de colocar o dedo no nariz ou não vou gostar mais de você" provocam anos de cicatrizes profundas, marcadas por culpa, vergonha e medo. "O grande erro de alguns pais é criticar diretamente o filho, em vez de condenar a atitude. Comparações com outras crianças também precisam ser evitadas", sentencia Suzy. Ou seja, o certo seria dizer: "estudar pouco fará com que repita de ano" ou "cutucar o nariz é muito feio".
Para a psicóloga Sandra Samaritano, a maior demonstração de amor que os pais podem dar aos filhos é a imposição de limites, algo essencial para a formação da boa auto-estima. "Às vezes, as crianças até reclamam das decisões dos pais, mas é inegável que, no fundo, se sentem queridas e confortáveis, pois sabem que alguém se preocupa com o bem-estar delas", diz.
Ao contrário das gerações anteriores, hoje em dia é comum ver crianças pequenas com uma auto-suficiência de dar inveja ao mais ponderado dos adultos. De acordo com os especialistas, isso é fruto da maior busca por informação, já que os pais costumam recorrer a respostas na psicologia para suas dúvidas, e também de um certo preparo precoce para lidar com a vida - resultado, também, das dores e das delícias do mundo moderno. "É preciso prestar atenção, porém, se não está havendo permissividade na educação, o que gera níveis elevados de segurança nos pequenos, que se sentem capazes de tudo", alerta Sandra.
Benefícios valiosos
Pode haver a falsa impressão de que a vida é um verdadeiro mar de rosas para quem se gosta e se curte. Não é bem assim. O que acontece é que amar a si mesma e se aceitar permite circular pelo mundo com mais segurança. Ninguém está imune à dor, à decepção ou ao fracasso, evidentemente. No entanto, pessoas com auto-estima elevada não entregam os pontos por muito tempo. "Elas são dotadas de um incrível senso de resiliência, que é a capacidade de suportar as frustrações e extrair algo de positivo delas", diz o psicanalista Elko Perissinotti. No campo profissional, são pessoas que não têm medo de tomar a iniciativa ou de expor idéias e projetos. No plano afetivo, são mais felizes e estabelecem relações de igual para igual - a velha máxima de que é preciso primeiro se gostar, para depois gostar de alguém, é verdadeira.
Por outro lado, não seria exagero afirmar que quem tem baixa auto- estima leva uma vida de mentira. "A pessoa é mais observadora do que atuante", comenta a psicóloga Suzy Camacho. Outras características típicas: timidez, pessimismo, complexo de inferioridade, mania de bancar a vítima, boicotes. Há tendência para desenvolver compulsões (por comida, jogo, bebida ou drogas) e a se envolver em relacionamentos amorosos destrutivos - com direito à violência, inclusive.
Para o psicanalista lacaniano Jorge Forbes, o conceito de auto-estima é amplo, e inclui também o desejo de aceitação pelos outros das nossas escolhas e realizações. Segundo ele, a auto-estima tem duas fontes fundamentais: a aprovação alheia e a responsabilidade pessoal do que se deseja. "É comum a pessoa perder muito tempo montando estratégias de captura de sua aceitação pelos outros. O fracasso é previsível porque os outros, a quem se pede aprovação, estão em situação semelhante. Em graus variados, todo mundo questiona, no dia seguinte aos aplausos, como será possível mantê-los", exemplifica. Disso, tiramos um conselho: satisfazer a nós mesmos em primeiro lugar, e sermos fiéis aos nossos desejos e vontades. O resto é conseqüência.
Perigos e soluções
O excesso de auto-estima também é prejudicial e, para o psicanalista Jorge Forbes, sinal de alienação. "Além de conduzir à solidão, é paralisante", afirma. "A pessoa pode demonstrar uma falsa superioridade para amenizar a angústia emocional", opina Elko Perissinotti. "Excesso de auto-estima é diferente de arrogância, que esconde uma enorme insegurança", salienta Sandra Samaritano.
As experiências da infância podem contribuir para esse problema. Suzy Camacho, mais uma vez, lança mão do exemplo das frases dos pais. Compare a diferença entre "Você é a criança mais linda da escola" e "Para mim, você é a criança mais linda da escola". "No primeiro caso, por mais afeto que contenha, o elogio não é verdadeiro. No segundo, a afirmação cede espaço para uma opinião", argumenta Suzy. E qual será o resultado de crescer com a idéia falsa de que se é o centro do universo? Adultos infelizes e frustrados, com a sensação amarga de que foram enganados.
E o que fazer quando chegamos à idade madura com baixa auto-estima? É possível reverter esse quadro e trabalhar a autoconfiança? Sim, em qualquer fase da vida. O primeiro passo, do ponto de vista da psicóloga Sandra Samaritano, é parar de usar o passado como desculpa. Apesar de a forma como fomos criados estabelecer o nível da auto-estima, a educação que recebemos não deve ser usada como desculpa para continuarmos tristes e descrentes. "O passado é uma zona de conforto, sim. Só que o resgate da auto-estima depende de atravessá-la", diz Sandra. O trabalho de reorganização interior e de revalorização não é fácil, mas tem como prêmio o controle da vida - quem tem baixa auto-estima fica à mercê da opinião alheia, pois a própria de nada vale. Caso seja difícil enfrentar esse processo sozinha, é recomendável buscar terapia individual ou em grupo. O psicólogo Elko Perissinotti aconselha a prática de técnicas alternativas como yoga, tai chi chuan e meditação para reencontrar o equilíbrio interno, e esportes em geral, principalmente a hidroginástica.
"É uma atividade em grupo, o que favorece a sociabilização. E a água tem o valor simbólico da vida, do útero da mãe. Ela transmite carinho, aconchego, paz. Costumo recomendá-la para pacientes com depressão", diz Perissinotti. Embora muitos médicos façam vista grossa para livros e cursos de auto-ajuda, eles têm valor, sim, para conscientizar sobre atitudes erradas. E, por último, Sandra Samaritano recomenda prestar mais atenção nas críticas que, por acaso, receba. "O inimigo fala de mim pelas costas. O amigo fala para mim e funciona como uma espécie de espelho, que reflete quem eu sou."
Fonte: Revista Uma
[Image: Lichtenstein, "Aloha"]