julho 31, 2005

Importância da Reciprocidade

Antônio Roberto Soares

importanciareciprocidade-GilAdams-MoneyHeart.jpg "As relações que se fazem através do binômio favor-gratidão, em geral, são de muito conflito porque se estabelecem através do jogo da renúncia"

Não sei se o mundo tem jeito. Nós temos. Quando ajudamos alguém e esperamos algo em troca, ainda que seja gratidão, não estamos sendo bons, mas espertos. A bondade, a proteção e a ajuda têm sido usadas como instrumento de controle sobre o coração das pessoas. E, quando, apesar de tudo o que fizemos pelo outro, ele, no exercício de sua liberdade, nos dá um "não", nós o chamamos de ingrato e nos sentimos injustiçados.

Existe uma grande diferença entre amor e favor. No amor, temos grande alegria em fazer algo por alguém e somos pagos no próprio ato de fazer. No favor, tudo o que fazemos é contabilizado e futuramente cobrado. Chamamos de ingrata a pessoa a quem prestamos um favor e na hora de pagar ela não o fez. Mesmo porque nada foi combinado com ela. Ingrato é aquele que não se vendeu aos nossos favores. As relações que se fazem através do binômio favor-gratidão, em geral, são pesadas e de muito conflito porque elas se estabelecem através do jogo da renúncia.

Ensinaram-nos que, para o amor, é essencial renunciar. Que devemos abrir mão de nossa individualidade, dos nossos gostos, do nosso tempo, dos nossos sagrados, do nosso crescimento etc. Tudo por amor a alguém. Com o passar do tempo, todo esse sacrifício amoroso vira uma cruel cobrança no sentido de que o outro nunca nos contrarie e permaneça, através do agradecimento, escravizado a nossos desejos. Daí a importância do "sim" e do "não" em nossos relacionamentos.

Amigo é aquele que consente o meu "não" e eu o dele. Do contrário, é escravidão. A bondade só faz parte do amor se for absolutamente verdadeira. Usada para dominar alguém, é crueldade. Talvez esse seja o motivo para tantos problemas familiares. Casais que se acusam mutuamente da falta de reconhecimento de um pelo o que o outro fez. Mães e pais que se sentem injustiçados quando os filhos não atendem às suas expectativas e não "pagam" com o sucesso e bom desempenho o que foi feito para eles. É uma cadeia interminável de cobrança e de culpa que traz enormes desgastes num relacionamento.

A palavra sacrifício é muito interessante. Vem do latim e significa "tornar-se sagrado para o outro". Quando, porém, somos excessivamente bondosos para os outros eles respondem a isso com culpa. Nenhum filho, nenhum marido, nenhuma mãe, em sã consciência quer o próprio prazer à custa do sofrimento do outro. A reciprocidade nas relações é importante.

Todo relacionamento é uma troca, mas tem de ser combinada. O que não é adequado sou eu fazer pelo outro, sem acertar e posteriormente cobrar. As relações se tornam exploração. Vivemos com a sensação de injustiçados, não reconhecidos.

Há uma piada que reflete isso. Um rapaz passeava com uma moça de carro e a levou para o interior de um bosque. Parou o carro e começou a acariciá-la, insinuando um desejo de ter alguma intimidade sexual com a moça. Ela retrucou explicando:
- Eu sou uma prostituta e se você quer alguma coisa, terá de pagar.
- E quanto eu devo pagar? - perguntou o rapaz.
- Cinqüenta reais - respondeu a mulher.
Assim sendo, ele tirou uma nota de cinqüenta reais e entregou a ela. Depois de passar um bom tempo nas intimidades sexuais, se arrumaram e a moça notou que o rapaz não dava sinais de querer ir embora.
- Vamos, já fizemos o que era para fazer.
Ele respondeu:
- Não, temos de combinar, eu sou chofer de táxi. Você terá de pagar a corrida de volta.
- Quanto é? - perguntou a mulher.
- Cinqüenta reais!

A esperteza, o oportunismo, o se dar por amor e cobrar depois é a forma que aprendemos. Pessoas livres, autônomas, verdadeiramente amorosas se relacionam com o máximo de clareza. Comprar o possível amor do outro, através da renúncia, da bondade, do favor, do sacrifício, na esperança de ter o outro, é abrir um caminho complicado de sofrimento. Talvez isso explique a nossa grande dificuldade de dizer não à nossa compulsiva necessidade de agradar sempre, de "puxar o saco", de pensar mais no outro do que em nós mesmos. Se você espera resposta para sua bondade, é melhor não tê-la.

[Image: Gil Adams, "MoneyHeart"]

Posted by Lilia at 12:09 PM | Comments (2)

julho 28, 2005

A Alma dos Diferentes

Artur da Távola

almadiferente-fridakahlo-self-portrait.jpg Ah, o diferente, esse ser especial!

Diferente não é quem pretenda ser. Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.

Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para os outros. Que riem de inveja de não serem assim. E de medo de não agüentar, caso um dia venham, a ser. O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.

O diferente nunca é um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas. Um diferente medroso, este sim, acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente que não vingou.

Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro. Diferente que se preza entende o porque de quem o agride. Se o diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.

O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano. O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.

O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura. O que é percepção
aguçada em: "Puxa, fulano, como você é complicado". O que é o embrião de um estilo próprio em : "Você não está vendo como todo mundo faz? "

O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba incorporando. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram ( e se transformam) nos seus grandes modificadores.

Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham. É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde outros cansam.
Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito rotiniza. Sofre onde os outros ganham.

Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera. Aceita empregos que ninguém supõe. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar. Ele aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a média é má porque é igual.

Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados, magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo, excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba. Aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.

A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes.

Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja uficientemente forte para suporta-lo depois.

Fonte: Proarte Cultural

[Image: Frida Kahlo, "Self Portrait"]

Posted by Lilia at 09:28 PM | Comments (1)

Abundância de amor

Roberto Shinyashiki*

abundanciaamorGustavklim-tFulfillment.jpg Psiquiatra defende fim da economia de carícias e mesquinhez afetiva e diz que homens e mulheres guardam seus carinhos como um avarento guarda dinheiro.

Carícia é a unidade de reconhecimento humano. Começa no nascimento, com o toque físico. Depois passa para palavras, olhares, gestos e aceitação. Na "História de Carícias", existem conceitos de distribuição de carícias que levam a gente a acreditar que as carícias são poucas, tão poucas que precisamos guardá-las. O resultado é mesquinhez de afeto. Em contrapartida, todos nós queremos ser reconhecidos. Todos nós necessitamos de carícias.

Homens e mulheres guardam seus carinhos como um avarento guarda dinheiro. Ou sexualizam tudo (e vivem se culpando por isso, achando que estão pecando), fogem do contato real com as pessoas e acabam vivendo na miséria afetiva, ou sexualizam a vida de forma consumista, em que o orgasmo, a quantidade de parceiros, o desempenho "atlético" passam a ser mais importantes que a entrega.

Então nasce "o amor de troca". Se as carícias são em número limitado e podem acabar.

"Então, sempre que lhe dou algo, tenho que receber algo em troca (porque senão eu fico sem nenhuma carícia)".
"Você tem que cuidar de mim hoje... porque na semana passada eu cuidei de você".
"Cuidei de você quando pequena, agora você tem que cuidar de mim".
"Eu vou para a cama com você... se você casar comigo".

Como se o amor fosse uma moeda, o prazer da entrega é substituído pelo medo de ficar sem algo, de ficar vazio. Porque, com o pressuposto de que o amor acaba, é preciso escolher muito bem a pessoa, a situação, para dar carícias. Isso é miséria afetiva, em que as pessoas passam fome de amor, apesar da abundância de amor que existe na humanidade.

É como na miséria humana, na qual pessoas passam fome, apesar de produtivas, porque os recursos gerados são usados para aumentar o controle de umas sobre as outras.

A miséria afetiva é tão ou mais grave do que a miséria material, pois tira do ser humano a sua condição de homem participante de sua espécie, porque conduz o homem à mesquinhez, à solidão.

As pessoas, em razão da mesquinhez afetiva, começam a desconsiderar suas necessidades. Como diz o psiquiatra inglês Ronald Laing: "Com um trabalho enorme, um desejo é negado, substituído por um receio, que gera um pesadelo, que é negado, e sobre o qual é, então, colocada uma fachada".

Porque para alguém ser ele próprio é necessária uma dinâmica que respeite sua individualidade. Mas as pessoas condicionam-se a seguir padrões predeterminados em que o novo incomoda, amedronta, revela os sistemas que a família e toda a sociedade desenvolveram para anular a sua criatividade.

E o novo, o individual, é sacrificado, em benefício do coletivo. Se for muito revolucionário, cria-se a ameaça de punição ("Portanto, o melhor que você faz, é assumir a direção da nossa fábrica, porque com esta crise...").

E passa-se a viver dentro de um sistema de medo. Medo de ser abandonado, rejeitado ou criticado.

E é dada uma importância absurda ao perigo de não ser amado por todos.
Sempre vão existir pessoas que gostam de nós do jeito que somos (e isso é sensacional); outras podem não gostar, pelas mais variadas razões â€?e isso é um direito também. É importante entender que todo mundo tem o direito de amar quem quiser. Mas, independentemente da reação das pessoas, você tem o direito de seguir o seu caminho e buscar a sua forma de ser feliz...

*Roberto Shinyashiki é conferencista e escritor autor de 10 livros, entre eles "A Carícia Essencial".

[Imagem: Gustav Klimt, "Fulfillment"]

Posted by Lilia at 06:07 PM | Comments (0)

julho 27, 2005

Quem é você realmente?

OSHO
Texto adaptado por Conceição Trucom

quemevoce-Max-Ackermann-Entschwebende-Klange.jpg Uma aluna minha me perguntou: Nós nascemos para ser felizes, mas porque não somos? Eu respondo: Porque os modelos que nos são colocados de felicidade, desde que nascemos, são meros modelos dos nossos pais, parentes, sociedade, cultura, religião, etc.

Eles não correspondem, de forma alguma, às nossas verdades e valores internos. Eles não consideram o indivíduo em sua essência e singularidade. Os modelos sociais são selvagens e massacrantes, e são os chamados condicionamentos. Condicionamento é algo forçado de fora sobre você contra a sua vontade, contra a sua consciência. O condicionamento tem o objetivo de destruí-lo, manipulá-lo, criar uma falsa personalidade para que seu estado humano essencial seja perdido.

A sociedade tem muito medo da sua realidade. A Igreja tem medo, o Estado tem medo, todos têm medo de sua pessoa essencial, de seu Ser essencial, pois o Ser essencial é rebelde, é inteligente. O Ser essencial é livre, independente e singular, ou seja, único.

O Ser essencial não pode ser facilmente reduzido à escravidão, e também não pode ser explorado. Ninguém pode usar o Ser essencial como um meio, pois Ele é um fim em si mesmo. Daí, toda a sociedade tentar, de TODAS as maneiras possíveis, desconectá-lo de seu âmago essencial. Isso cria uma personalidade falsa e plástica a seu redor e o força a se identificar com ela. Durante muito tempo sofremos e perdemos MUITA energia quando tentamos ser hipócritas conosco mesmo.

A sensação é de vazio, fracasso, impotência. Enlouquecemos porque a nossa bússola simplesmente não consegue encontrar o sentido da "felicidade". Chama-se a esta grande "tabela" de condicionamentos de "educação", mas isso não é educação, é "deseducação". Isso é destrutivo e violento.

Toda essa sociedade sempre foi muito violenta com o indivíduo. Ela não acredita no indivíduo, é contra o indivíduo. Para seus próprios propósitos, ela tenta, de todas as maneiras, destruir você. Ela precisa de engenheiros, médicos, filhos vitoriosos, brilhantes, importantes, espertos, esbeltos, conquistadores... Ela não precisa de seres humanos serenos, pacíficos, simplistas, honestos sem relatividade, saudáveis emocionalmente. Até o momento, fracassamos em criar uma sociedade que precise de seres humanos livres, simples seres humanos.

A sociedade está interessada em que você seja mais habilidoso, mais produtivo, mais competitivo, mais consumista e menos criativo ou criador de casos. Ela deseja que você funcione como uma máquina, eficientemente, mas não deseja que você se torne desperto. Ela não deseja Budas e Cristos, Sócrates, Pitágoras, Lao Tzu ... Não, essas pessoas de modo nenhum são necessárias para a sociedade. Se, de vez em quando elas acontecem, não acontecem devido à sociedade, mas apesar dela.

É um milagre, de vez em quando, algumas pessoas serem capazes de escapar desta enorme prisão. A prisão é muito grande, é muito difícil escapar dela. E mesmo ao escapar de uma prisão, você entrará em outra, pois toda a Terra se tornou uma prisão. De hindu você pode se tornar cristão, ou de cristão pode se tornar hindu, mas está simplesmente trocando de prisão. De indiano você pode se tornar alemão, ou de italiano se tornar chinês, mas está simplesmente trocando de prisões... prisões políticas, religiosas, sociais. Talvez, por alguns dias, a nova prisão pareça com a liberdade, mas somente devido a ser uma novidade. Fora isso, ela não é liberdade. Uma sociedade livre é ainda uma idéia que precisa ser materializada.

Toda essa escravidão das pessoas depende dos condicionamentos. Os condicionamentos começam no útero da mãe ou, no máximo, no momento em que você nasce. Você é circuncidado e se torna um judeu, é batizado e se torna um cristão, e assim por diante. Você é levado para a igreja ou para o templo e é criado numa certa atmosfera onde irá descobrir que todos são cristãos ou todos são hindus. E, naturalmente, é fatal que a criança siga as pessoas à sua volta. Quando ela chegar aos 25 anos de idade e sair da universidade, estará completamente condicionada, e tão profundamente que nem estará ciente de seus condicionamentos.

Tudo tem modelo, inclusive e principalmente quanto aos relacionamentos. Todos necessitam casar, ter casa, ter filhos, ter empregos, e na época certa, e da forma certa, e com os modelos certos para ser competitivo, para ser invejado, para ser elogiado, para ser apreciado, para ... E os bens? E a profissão?

Tudo foi despejado em seu biocomputador. E a sociedade pune aqueles que são relutantes, resistentes a esses condicionamentos, e com medalhas de ouro, prêmios, recompensa aqueles que estão muito ávidos a serem escravos, a servirem aos interesses do sistema.

Toda a sociedade, milhões de pessoas à sua volta estão condicionando- o, conscientemente ou não. Elas foram condicionadas. Elas podem não estar cientes de que são destrutivas e violentas e que estão se auto destruindo. Elas podem pensar que estão sendo de ajuda a você devido à compaixão, pois amam a humanidade. Elas foram condicionadas tão profundamente que não estão cientes do que fazem às suas crianças e vidas. Os pais, os parentes, professores, conferencistas, instrutores, eles são os instrumentos, os sutis instrumentos de condicionar pessoas. Os sacerdotes, os psicanalistas, estas são pessoas muito espertas e eficientes em condicionar. Elas conhecem toda a estratégia, sabem como manipular, distorcer, como lhe dar uma falsa personalidade e afastar sua essência.

Como sair dos condicionamentos?

1) Ir lá dentro de você e descobrir quem é você realmente. Qual a sua natureza, suas qualidades, seus dons, seus desafios. Para esta viagem interna é necessário se dar espaço DIÁRIO de silêncio, MEDITAÇÃO, introspecção. Espaços de autoconhecimento e esclarecimento. Ler, estudar, aprender, meditar, pois ignorar e ignorar-se é pura escravidão.

2) Estar 100% alerta e desperto. Meditar sobre nossas atitudes, sonhos e desejos e perceber quanto deles pertence aos modelos de nossos pais, parentes e sociedade, e quanto deles pertence REALMENTE à nossa alma.

3) Uma vez detectado, sair dos condicionamentos e entrar na sintonia do Ser essencial e descobrir o que é Ser feliz para Ele.

Fonte: Somos Todos Um

[Imagem: Max Ackermann, "Entschwebende Klange"]

Posted by Lilia at 09:35 AM | Comments (0)

julho 26, 2005

A Mulher Selvagem

Ricardo Kelmer

mulherselvagem-dominguez-de-nice.jpg Nesta crônica quero fazer uma homenagem a um tipo especial de mulher. Eu a chamo de mulher selvagem. Sua beleza é arisca, arredia aos modismos. Ela encanta por um não-sei-quê indefinível... mas que também agride o olhar. É um tipo raro e não tem habitat definido: vive em Catmandu, mora no prédio ao lado ou se mudou ontem para Barroquinha. E não deixou o endereço.

A mulher selvagem em quase tudo é uma mulher comum: pega metrô lotado, aproveita as promoções, bota o lixo para fora e tem dia que desiste de sair porque se acha um trapo. Porém em tudo que faz exala um frescor de liberdade. E também dá arrepios: você tem a impressão de que viu uma loba na espreita. Você se assusta, olha de novo... e quem está ali é a mulher doce e simpática, ajeitando dengosa o cabelo, quase uma menininha. Mas por um segundo você viu a loba, viu sim. É ela, a mulher selvagem.

A sociedade tenta mas não pode domesticá-la, ela se esquiva das regras. Quando você pensa que capturou, escapole feito água entre os dedos. Quando pensa que finalmente a conhece, ela surpreende outra vez. Tem a alma livre e só se submete quando quer. Por isso escolhe seus parceiros entre os que cultuam a liberdade. E como os reconhece? Como toda loba, pelo cheiro, por isso é bom não abusar de perfumes. Seu movimento tem graça, o olhar destila uma sensualidade natural - mas, cuidado, não vá passando a mão. Ela é um bicho, não esqueça. Gosta de afago, mas também arranha.

Repare que há sempre uma mecha teimosa de cabelo: é o espírito selvagem que sopra em sua alma a refrescante sensação de estar unida a Terra. É daí que vem sua beleza e força. E sua sabedoria instintiva. Sim, ela é sábia pois está em harmonia com os ritmos da Natureza. Por isso conhece a si mesma, sabe dos seus ciclos de crescimento e não sabota a própria felicidade. Como todo bicho ela respeita seu corpo mas nem sempre resiste às guloseimas. Riponga do mato, Gabriela brejeira? Não necessariamente, a maioria vive na cidade. E há dias paquera aquele pretinho básico da vitrine. E adora dançar em noite de lua. Ah, então é uma bruxa... Talvez, ela não liga para rótulos. Sabe que a imensidão do ser não cabe nas definições.

Mulheres gostam de fazer mistério. Ela não, ela é o mistério. Por uma razão simples: a mulher selvagem sabe que a vida é uma coisa assombrosa e perfeita e vive o mais sagrado dos rituais. Ela sente as estações e se movimenta de acordo com os ventos, rindo da chuva e chorando com os rios que morrem. Coleciona pedrinhas, fala com plantas e de uma hora para outra quer ficar só, não insista.

Não, ela não é uma esotérica deslumbrada mas vive se deslumbrando: com as heroínas dos filmes, aquela livraria nova, o CD do fulano... Ela se apaixona, sonha acordada e tem insônia por amor. As injustiças do mundo a angustiam mas ela respira fundo e renova sua fé na humanidade. Luta todos os dias por seus sonhos, adormece em meio a perguntas sem respostas e desperta com o sussurro das manhãs em seu ouvido, mais um dia perfeito para celebrar o imenso mistério de estar vivo.

Ela equilibra em si cultura e natureza, movendo-se bela e poética entre os dois extremos da humana condição. Ela é rara, sim, mas não é uma aberração, um desvio evolutivo. Pelo contrário: ela é a mais arquetípica e genuína expressão da feminilidade, a eterna celebração do sagrado feminino. Ela está aí nas ruas, todos os dias. A mulher selvagem ainda sobrevive em todas as mulheres mas a maioria tem medo e a mantém enjaulada. Ela é o que todas as mulheres são, sempre foram, mas a grande maioria esqueceu.

Felizmente algumas lembraram. Foram incompreendidas, sim, mas lamberam suas feridas e encontraram o caminho de volta à sua própria natureza. Esta crônica é uma homenagem a ela, a mulher selvagem, o tipo que fascina os homens que não têm medo do feminino. Eles ficam um pouco nervosos, é verdade, quando de repente se vêem frente a frente com um espécime desses. Por isso é que às vezes sobem correndo na primeira árvore. Mas é normal. Depois eles descem, se aproximam desconfiados, trocam os cheiros e aí... Bem, aí a Natureza sabe o que faz.

Fonte: Delas

[Imagem: Dominguez, "De Nice"]

Posted by Lilia at 12:47 PM | Comments (1)

julho 25, 2005

Alegria diante do desconhecido

Bel Cesar

criancadivina-marycassatt-childrenplayingonthebeach.jpg Recentemente fui viajar para um lugar onde nunca havia estado. Que surpresa ao notar o poder que o desconhecido tem sobre nossa mente em gerar alegria!
Foram dias de descoberta e muita curiosidade: estava relaxada e dinâmica ao mesmo tempo! Com o passar dos dias, observei que este sentimento de bem-estar continuou em minha mente enquanto mantive-me atenta apenas ao momento presente. Sem pensar nos detalhes da rotina de minha vida estava livre do passado e do futuro! Férias!

Agora, de volta ao cotidiano, apesar de conscientemente querer preservar este estado livre-leve-e-solto, senti a energia da alegria diante do novo se esvaindo... Um sinal de alerta soou em minha mente: “Perigo à vista: não deixe que as pressões externas levem embora a sua alegria de viver!”. No entanto, a força dos padrões antigos invadiu a minha mente sem pedir licença: senti-me inquieta "presa ao passado", quando comecei a lidar com as tarefas inacabadas deixadas há um mês e pressionada pelo futuro quando reconheci quanto trabalho está por vir!

Passei então, a sentir e observar que esta ansiedade, feita de pensamentos sutis que vêm e vão, estava levando embora a calma da mente espontânea e relaxada conquistada nas férias. Até o momento em que, como um insight libertador, a questão-chave veio à tona: “Como manter o estado de alegria interna diante da pressão cotidiana”?
Encontrei uma resposta quando perguntei a mim mesma: “quem sente a alegria?”, e logo me respondi: “o lado da minha mente que sabe brincar”.

A dica estava dada: o segredo para manter o estado de alegria interna está na conexão com nossa criança divina interior: a capacidade inata de rir e sentir prazer.

Interiormente, evoquei minha criança divina, pedindo a ela que não me abandonasse frente à vida tensa da cidade! Aos poucos, timidamente, ela retornou trazendo inspiração até mesmo para escrever este texto...

Todos nós temos uma porção do arquétipo da criança divina em nosso interior. Quando nos conectamos com ela geramos automaticamente inspiração e coragem para lidar com o desconhecido, pois ela contém a inocência e flexibilidade necessária para não resistirmos ao futuro.

Se ficarmos a serviço de nossos deveres e obrigações, desconectados de nossa criança divina, nos tornaremos rígidos e sem-graça. Por isso, precisamos sempre levar em consideração a necessidade de repousar e literalmente brincar para ativar a criança divina que nos desperta a alegria e o bom-humor.

“Poderíamos dizer que a criança interior é o nosso cérebro direito – intuição, imaginação, entusiasmo – que vive no presente, que sente as coisas, enquanto que o adulto é o nosso cérebro esquerdo, que aprendeu a raciocinar logicamente, a acumular saber, que pensa e age.” esclarece Paule Salomon em A Sagrada loucura dos casais (Ed. Cultrix).

Infelizmente, aprendemos a ser adultos ainda quando crianças: nos foi ensinado a pensar, ao invés de sentir. Agora, para nos tornarmos adultos-saudáveis, teremos que fazer ao contrário: sentir nossos pensamentos. Senão cairemos facilmente nas exigências que internalizamos quando crianças ao não considerarmos nossos sentimentos como algo de valor.

É importante ressaltar que a criança divina se distingue da criança-ferida que também nutrimos em nosso interior. Todos nós temos um quantum de energia bloqueada devido à memória de vivências onde fomos negligenciados, abusados, humilhados e criticados quando crianças. Esta porção de criança ferida nos faz exigências muito intensas, pois ela não sabe se é seguro relaxar diante das constantes mudanças da vida.

A criança-ferida surge quando duvidamos de nossa capacidade de ser feliz. Por exemplo, observe a freqüência com que criarmos um problema “do nada” quando estamos diante de momentos felizes... Aqui vale até ficar gripado no dia do seu casamento...

Acessamos muito pouco nossa criança divina por não valorizarmos nossos sentimentos como autênticos e significativos. Se escutarmos nossos medos, eles não precisarão ser expressos por meio de somatizações ou esquecimentos  que nos impedem de seguir em frente.

Paule Salomon aprofunda esta questão em seu livro A Sagrada loucura dos casais: “A resistência à mudança vem do fato de o adulto tentar agir como se estivesse sozinho dentro de nós, sem levar em conta a criança interior, sem informá-la, sem educá-la. A maioria de nós recebeu uma educação de adulto dominador diante de uma criança dominada. Interiorizamos essa relação e repetimos esse enredo no nosso teatro íntimo. Enquanto as relações de dominação prevalecem sobre as relações de proteção, estamos numa situação de dureza, de força. Não temos confiança em nós. O adulto em nós está numa situação aparentemente paradoxal, pois, por um lado, ele preserva a criança e, por outro lado, ele precisa aprender a não se manter no sentido de fechamento, mas, ao contrário, a se abrir sempre cada vez mais a sensações da criança, inclusive a vulnerabilidade. Sua tentação é sempre camuflar esse aspecto por se julgar invulnerável”.

Pema Chödrön nos alerta: “O mais doloroso é que, quando desaprovamos, estamos praticando a desaprovação. Quando somos severos, estamos reforçando a severidade. Quanto mais o fazemos, mais fortes tornam-se esses aspectos. É muito triste ver como nos tornamos especialistas em causar mal a nós mesmos e aos outros. O truque está em encarar tudo o que surge com curiosidade, sem fazer disso algo muito importante. Em vez de lutar contra a força da confusão, podemos ir ao encontro dela e relaxar. Quando agimos assim, gradualmente descobrimos que a clareza está sempre ali”. (Quando tudo se desfaz. Ed. Gryphus).

Na próxima vez que você reconhecer sua criança-ferida evoque imediatamente sua criança divina para lhe fazer companhia. Comece por brincar com você mesmo: com a água do seu banho ou desenhando “bobagens” na sua agenda.

E por fim, afirme a si mesmo algo que gostaria de ter escutado, mas nunca lhe foi dito! Repetir interiormente mensagens positivas repetidas vezes é uma excelente maneira de nos nutrir emocionalmente.

Vale a pena testar: escreva algo que você queira dizer para sua criança-ferida e deixe-o à vista para que você possa lê-lo várias vezes durante o dia e tente observar o que acontece. Pois quanto maior for o contato com nosso mundo interno, maiores serão as chances de ocorrerem sincronicidades positivas em nossa vida. A vida flui a nosso favor quando deixamos de lutar contra nós mesmos!

Fonte: Somos Todos Um

[Imagem: Mary Cassatt, "Children Playing on the Beach"]


Posted by Lilia at 11:26 AM | Comments (3)

julho 24, 2005

Irretocável

Silvana Duboc

irretocavel-johnkelly-healani, hawaii.jpg Tenho cabelos vermelhos, pintados, para esconder os fios brancos.
Não me lembro exatamente em que ano eles começaram a branquear...

Tenho algumas rugas em volta dos olhos, também não me recordo quando elas começaram a aparecer.
Tento disfará-las, tantas novidades no campo da dermatologia, achei por bem aproveitá-las.

Do corpo não cuido quase, só recentemente entrei para uma academia por ordem médica.
Ele me disse que na minha idade preciso de exercícios.
Mais falto mais do que vou, não gosto de fazer ginástica.

Das minhas unhas cuido semanalmente, penso que elas são uma porta de visita.
Unhas maltratadas causam uma péssima impressão.

De uns dois anos pra cá descobri os cremes e aí compro um aqui, outro ali e no final não uso nenhum,
mas compro, só de olhá-los na prateleira já percebo que as rugas se retraem.

Sou assim, vaidosa, mas não sou em excesso, penso que sou na medida certa,
na medida correta para uma mulher.

Enfim os anos passam e as marcas que eles deixam em nós, não temos como conter.
Nem pretendo isso.
Acho que cada marca que meu corpo carrega tem uma linda história.

Às vezes me pego na frente do espelho descobrindo uma nova ruguinha e já me coloco a pensar o que a causou.
Depois reencontro com outra que já está lá vincada há anos e me recordo que ela apareceu quando perdi um grande amor.

Poderia enumerar também a história de cada fio de cabelo branco.
Foram filhos, maridos, amigos que colocaram eles ali.
Não quero me desfazer de nenhuma dessas marcas, apenas amenizá-las, acho que mereço isso.
A vida me deve isso.

Atualmente a parte que merece mais atenção minha tem sido a cabeça.
Tento todos os dias colocá-la no lugar, equilibrá-la, alimentá-la com sonhos e alegrias.
Corpo e mente caminham juntos, se um estiver em estado lastimável o outro provavelmente vai se deteriorar.

Não escondo minha idade, não adiantaria falar que tenho trinta e cinco e apresentar uma filha de vinte e sete.
Portanto eu confesso, tenho quarenta e oito anos.
Metade deles, bem vividos, a outra metade muito sofridos.

Mas é exatamente aí que está o encanto da minha idade.
Conheci de tudo um pouco, das lágrimas aos sorrisos e ambos me fizeram ser essa pessoa que sou hoje.

Ficaram as rugas no rosto e na alma, mas também ficaram sorrisos em ambos.

Minhas rugas mais bonitas são aquelas marcas de expressão que eu adquiri por tanto sorrir, muitas vezes, quando o coração chorava.

Posted by Lilia at 05:29 PM | Comments (0)

Gentileza gera gentileza

Cíntia Parcias e Clarisse Meireles

gentileza-pablopicasso-petitefleurs.jpg Retomar a delicadeza relegada ao esquecimento melhora a qualidade de vida e as relações cotidianas

Faça um rápido teste de memória. Você cumprimentou seu vizinho hoje de manhã no elevador? Desejou bom dia ao porteiro quando cruzou com ele na portaria como faz todas as manhãs? Deu passagem para o carro que precisava mudar de pista para entrar numa rua transversal? Esperou pacientemente o carro da frente andar sem buzinar quando o sinal ficou verde? Se respondeu negativamente a alguma das perguntas acima, saiba que, além de agir de forma tremendamente mal-educada, você está fazendo mal à sua própria saúde - e à das pessoas que o cercam.

Segundo o livro A arte da gentileza, de Piero Ferruci (ed. Alegro), pesquisas científicas confirmam que pessoas gentis são mais saudáveis e vivem mais, são mais amadas e produtivas, têm mais sucesso nos negócios e são mais felizes. ''Ser gentil nos faz tão bem quanto ser alvo de uma gentileza'', garante o autor. Por outro lado, a não-gentileza gera sentimentos negativos, atrapalha as relações e pode até deixar a pessoa doente, já que quando alguém é alvo de grosseria, falta de educação, o sistema nervoso reage liberando hormônios como a adrenalina, que desequilibram o organismo. Até a musculatura é afetada e reage à falta de gentileza se contraindo, deixando o corpo cada vez mais tenso.

''A falta de gentileza, caracterizada por um ambiente de grosseria e violência, se constitui em um fator estressor que leva o indivíduo ao desenvolvimento do estresse crônico. Por conseqüência, a qualidade de vida acaba sendo afetada, incluindo a saúde'', confirma a psicóloga Lucia Novaes, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretora do Centro Psicológico de Controle do Stress.

O que a ciência agora comprova vai ao encontro do que o profeta Gentileza passou grande parte da vida pregando e escrevendo nos 55 murais que criou sob o viaduto do Gasômetro, próximo à Rodoviária Novo Rio. Sua mensagem podia ser resumida na frase-síntese ''gentileza gera gentileza''.

Os murais, restaurados há cinco anos pelo projeto Rio com Gentileza, coordenado pelo filósofo Leonardo Guelman, hoje se encontram de novo danificados por pichações logo abaixo das inscrições do profeta. Mais ou menos como a própria gentileza, tão fora de moda nos dias que correm.

''O Gentileza denunciava uma crise ética, de valores. Segundo ele, tudo passa pelo favor. O simples fato de pedirmos 'por favor' e agradecer com um 'obrigado' denotava que adotamos a troca na base do toma-lá-dá-cá, típico do mundo individualista, produto do capitalismo que ele batizou de 'capeta capital''', afirma Guelman, autor do livro Brasil, tempo de gentileza (Eduff), sobre o profeta que morreu aos 79 anos, em 1996.

Para o profeta, ficamos cegos e surdos e perdemos a capacidade de ver e ouvir o outro. Segundo a psicoterapeuta e educadora Sandra Celano, o pronome nós, nesse mundo tão individualista, agrega no máximo o núcleo familiar. ''Então, como esperar que um seja gentil com o outro em pequenas ações cotidianas, se as pessoas não conseguem nem perceber o outro?'', questiona. Até em uma discussão é possível manter a gentileza. ''Basta prestar atenção ao que a outra pessoa diz e se expressar considerando suas razões e seu ponto de vista'', completa Sandra, que observa em seu consultório o crescimento da falta de gentileza como uma das queixas comuns de seus pacientes.

Um dos ambientes onde a falta de delicadeza e gentileza mais se manifesta é no local de trabalho. Muitas vezes, as pessoas confundem relações profissionais com frieza e rispidez. E deixam de agradecer um serviço só porque este está sendo pago.

''Hoje já existem empresas que têm como meta o bem-estar dos seus funcionários. Não porque sejam boazinhas, pois toda empresa precisa gerar lucros, mas, sim, porque descobriram que onde há bem-estar, há produtividade, pois as pessoas trabalham felizes'', observa Alkíndar de Oliveira, consultor de empresas e autor de Viver é simples, nós é que complicamos (ed. Didier). ''Neste novo mundo corporativo que está surgindo, há uma ferramenta que tende a ser a mais importante na convivência profissional. Trata-se da afetividade. E a gentileza é um dos frutos da árvore do afeto.''

Como todo profeta, Gentileza denunciava a crise e anunciava uma boa nova. Para ele, assim como a natureza nos dá tudo de graça, temos que retomar um tempo a troca desinteressada. O primeiro passo seria bem simples: dizer sempre 'agradecido' e 'por gentileza', em vez das fórmulas consagradas - que já foram esquecidas por muita gente, porém sem nenhuma substituição.

Uma das pessoas que foram tocadas pela obra de Gentileza foi a compositora Marisa Monte, que transformou alguns de seus versos em uma canção com o nome do profeta. Marisa fez a música no dia em que foi apresentar os murais ao parceiro Carlinhos Brown, antes do projeto de recuperação, e viu que não havia mais nada. Chocada, escreveu a música.

A cantora acha que a mensagem de Gentileza está cada vez mais atual. ''Com o ritmo acelerado das cidades, as pessoas estão perdendo a noção de gentileza, que é uma espécie de pureza refrescante para a vida, para o dia-a-dia.'' Ainda hoje, ela se comove em ver que alguém dedicou sua vida para falar da importância de ser gentil, e em vez de pedir dinheiro, ia de carro em carro oferecer uma flor. ''Ele foi uma pessoa linda que plantou a semente da gentileza.''

Buda também identificou alguns benefícios de se cultivar a gentileza, como dormir bem, ser amado, ter proteção dos seres divinos, e uma mente serena. De nada adianta, no entanto, começar a ser gentil para obter tais resultados e melhora da qualidade de vida, pois falsidade é algo diametralmente oposto à proposta. E, por princípio, a gentileza é necessariamente desinteressada. Como o escritor britânico Aldous Huxley afirmou, no fim da vida. ''É desconcertante que, após anos e anos de pesquisas e experimentações, eu tenha que dizer que a melhor técnica para transformar nossas vidas seja ser mais gentil''.

Algo bastante urgente de ser lembrado nos dias de hoje. Pois se gentileza gera gentileza, a sua falta só pode produzir uma carência ainda maior, daí o cenário aterrador de um mundo de rispidez e impaciência, e seus assustadores índices de violência - não como causa única, evidentemente.

''A falta de gentileza e a hostilidade nas relações podem contribuir para um mundo estressante, na medida em que essas atitudes são contagiosas. Violência gera violência, hostilidade gera hostilidade, raiva gera raiva'', acredita a psicóloga Lúcia Novaes. Por outro lado, diz ela, o mundo estressado, com tantas demandas, com a necessidade de se fazer cada vez mais coisas em menos tempo e mais perfeitas abre espaço para atitudes agressivas, raivosas e hostis. ''É um círculo vicioso.''

No ano que vem, para marcar os dez anos da morte de Gentileza, um grupo de artistas e intelectuais afinados com a causa do profeta deve retomar o projeto Rio com Gentileza, com manifestações festivas pela cidade para lembrar a atualidade do pensamento do profeta.

''Se ele estivesse entre nós, continuaria pregando a gentileza, já que seu avesso, a rudeza e a violência, infelizmente não saíram de moda'', acredita Guelman, que também reivindica junto à prefeitura um maior cuidado com os murais, que ele quer ver cercados e iluminados. ''São um patrimônio afetivo da cidade.''

A importância de se adotar a atitude no cotidiano é bem expressada pelo teólogo Leonardo Boff, em artigo intitulado ''Espírito de Gentileza'' (disponível na íntegra no site leonardoboff.com). ''Este espírito nunca ganhou centralidade, por isso somos tão vazios e violentos. Hoje ele é urgente. Ou seremos gentis e cuidantes ou nos entredevoraremos.''

Fonte: Fórum Saúde Br

[Imagem: Pablo Picasso, "Petite Fleurs"]


Posted by Lilia at 09:41 AM | Comments (0)

julho 23, 2005

Beleza interior

Médicos e psicólogos apelam à ciência para tentar entender a relação entre corpo, mente e doenças
Giovana Girardi (free-lance para a Folha)

belezainterior-toulouse-lautrec-maymilton.bmp Em seus 84 anos de vida, Maria José Vasconcelos mal se lembra das poucas vezes em que ficou doente. O mérito pela boa saúde ela entrega a Deus, mas suspeita de que a forma como encara o mundo deve ajudar. "Estou sempre assim, rindo, feliz. Comigo não tem tempo ruim", diz, entre uma gargalhada e outra. "Acho que por isso também estou sempre saudável."

Essa filosofia de vida, dona Cotinha -como é conhecida pelos amigos da periferia de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, onde mora- transmite às pessoas que atende como benzedeira. Para ela, a melhor bênção é aprender a encarar as di- ficuldades do mundo com serenidade: "Ficar choramingando não adianta nada". Encarada com algum grau de ceticismo, a receita de vida saudável de dona Cotinha desandaria em algo próximo da crendice ou do misticismo -não fosse a ciência ter enfiado a colher nesse caldo.

"Há pouco tempo deparávamos com situações clínicas que não compreendíamos, como pacientes obtendo resultados fantásticos apenas por acreditarem firmemente que iriam melhorar. Hoje compreendemos que existe uma interação clara entre as células do sistema imunológico e o cérebro, e que o estado de humor interfere em tudo isso", afirma José Roberto Leite, professor da Unidade de Medicina Comportamental da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e um dos pioneiros no estudo da relação mente-corpo no Brasil.

Estresse, ansiedade e depressão já receberam seus certificados de vilões da vida moderna. No lado oposto na escala do humor, a felicidade ocupa agora o posto de mistério a ser desvendado.

Uma série de estudos recentes associa otimismo, esperança, bom humor e fé a uma melhor resposta do sistema imunológico a diversas doenças, que vão de uma simples gripe a câncer e Aids. Pesquisadores têm posto à prova práticas que até então viam com maus olhos, como meditação e relaxamento.

"Se me perguntassem há alguns anos, eu diria que meditação era uma besteira, mas pus o preconceito de lado e fui testar. Hoje posso dizer que ela tem eficácia", afirma Leite, que liderou uma das pesquisas na área.

Ele submeteu 33 voluntários, selecionados após divulgação em jornais, a práticas de meditação e técnicas respiratórias de relaxamento por três meses. Ao final do estudo, constatou a diminuição dos níveis de ansiedade, depressão e da pressão arterial. "Hoje eu defendo que o comportamento e as emoções deveriam ser a preocupação central da medicina."

A premissa que dá a partida a todas essas pesquisas não diz respeito só à modalidade escolhida para encontrar equilíbrio, e sim à forma como a pessoa interpreta uma determinada situação. É isso quedeterminaria sua reação fisiológica. Indivíduos diferentes podem passar pelos mesmos traumas, mas alguns desenvolverão problemas psicológicos e de saúde e outros não. Assim como o estresse crônico pode debilitar o sistema imunológico, pressupõe-se que, ao reagir a situações estressantes de um modo mais equilibrado, é possível impedir tais efeitos maléficos.

"A partir do momento em que uma doença é causada ou agravada pelo estresse, a resposta de relaxamento pode ser considerada um tratamento efetivo", explica ao Equilíbrio Herbert Benson, diretor do Mind and Body Medical Institute, departamento da Escola Médica da Universidade Harvard.

Um grupo da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, nos EUA, constatou que pessoas felizes apresentam três vezes menos possibilidade de contrair resfriados. Eles utilizaram 300 voluntários que, após entrevistas, foram divididos, de acordo com traços de personalidade, em categorias positivas (felicidade, satisfação e relaxamento) e negativas (angústia, hostilidade e depressão). Em seguida, receberam uma borrifada de um vírus que causa resfriados. Os que se encaixaram nas primeiras categorias ficaram menos doentes. Outro exemplo é uma série de estudos feita na Universidade da Califórnia com indivíduos HIV positivo. A psicóloga Shelley Taylor e Geoffrey Reed, um dos diretores da Associação Americana de Psicologia, avaliaram o impacto de diferentes situações no bem-estar dos pacientes.

Notaram que acontecimentos como a morte de um amigo ou do parceiro por Aids, o preconceito enfrentado por gays e ainda um pensamento negativo em relação à doença aceleravam o aparecimento de sintomas em pacientes até então assintomáticos, em comparação com aqueles que mantinham uma visão otimista sobre seu prognóstico. Em contrapartida, aqueles que, mesmo tendo perdido um parceiro, se mantiveram dispostos e otimistas, conseguiram fortalecer seu sistema imunológico.

Mas, apesar de todos esses resultados apontarem para uma relação entre as emoções e o sistema imunológico, a comunidade científica ainda não tinha conseguido testemunhar essa comunicação. Foi só em 2003 que surgiu a primeira evidência.

O pesquisador Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, observou a atividade cerebral de 52 pessoas enquanto elas escreviam sua experiência de vida mais feliz e a mais intensa tristeza que já haviam sentido.

Os voluntários que tinham apresentado maior atividade no lado direito do córtex pré-frontal enquanto descreviam o momento infeliz tiveram uma baixa resposta imunológica após tomarem uma vacina contra gripe. De modo inverso, aqueles que tiveram uma atividade excepcional enquanto se lembravam de momentos felizes apresentaram altos níveis de anticorpos.

O pesquisador não conseguiu explicar fisiologicamente de que modo a atitude positiva impulsionou a atividade do sistema imune, mas obteve uma pista: os indivíduos que tiveram maior atividade no lado esquerdo do córtex pré-frontal apresentaram também baixos níveis de cortisol, um dos principais hormônios liberados em situações de estresse e que inibem o sistema imunológico.

O mantra da fé
Apesar de as informações parecerem promissoras, os pesquisadores alertam para o risco de tais estudos levarem as pessoas que tendem ao pessimismo a crer que tudo está perdido.

No caso de pacientes com câncer, a psicóloga Margaret Kemeny, da Universidade da Califórnia, é enfática: "Não acredite em tudo o que você lê sobre atitudes positivas e sua relação com o câncer. É uma doença difícil e culpar-se por isso só vai piorar. Tente reconhecer e aceitar seus sentimentos e trabalhar com eles em um caminho construtivo".

O alerta também vale para os que se consideram felizes. É uma armadilha comum imaginar que ser otimista, rezar ou fazer meditação são os atalhos necessários para uma boa saúde, afirma o médico Régis Cavini Ferreira, que se especializou em psiconeuroendocrinoimunologia. "O que provavelmente acontece é que, com essas práticas, o indivíduo consegue equilibrar o seu sistema hormonal e deixar seu corpo no ponto certo para responder a futuras situações de estresse, reduzindo as conseqüências negativas." É preciso lembrar, porém, que as doenças têm outras causas que precisam ser levadas em conta.

Benson, do Mind and Body Medical Institute, acredita que o organismo de toda pessoa seja munido de propriedades de cura que podem ser despertadas pelo relaxamento. "Funcionamos como um banquinho de três pernas: medicamentos, cirurgia e resposta de relaxamento."

O psicólogo americano vai além e, contrariando a idéia de que ciência e religião não combinam, propõe também a oração para quem não se interessa por métodos alternativos. "Para conseguir uma resposta de relaxamento levamos em conta a força da repetição. E a reza é uma maneira de obter isso." Ou seja, a oração é também uma forma de relaxamento.

Independentemente da religião ou da falta dela, o que os cientistas têm percebido é que as crenças -vistas aqui com o sentido de acreditar que algo de bom vá acontecer-, têm um efeito muito significativo na melhora da saúde. É o que ficou conhecido como efeito placebo, situação em que o paciente toma um remédio inócuo ou faz uma cirurgia de mentira acreditando que está sendo tratado de verdade e apresenta melhora.

Do mesmo modo, acreditar demais em algo negativo pode ser fatal. O psicólogo da Unifesp José Roberto Leite lembra as histórias de haitianos que, de tanto acreditarem que tinham sido vítimas de uma ação de vodu, morreram de causas não explicadas.

"A fé como forma de pensamento tem um poder de mobilização enorme, tanto para o bem como para o mal", defende o psicólogo Esdras Guerreiro Vasconcellos, do Instituto Paulista de Estresse e Psiconeuroimunologia. "O antropólogo franco-belga Claude Lévi-Strauss já falava há 50 anos que uma pessoa condenada socialmente pela sua tribo morre, sem que seja preciso fazer nada. Ele dizia que o sistema imunológico não resiste à condenação moral. É disso que estamos falando."

Fonte: OncoGuia

[Imagem: Toulouse Lautrec, "May Milton"]


Posted by Lilia at 05:09 PM | Comments (0)

julho 22, 2005

A armadilha da auto-sabotagem

Bel Cesar

armadilhasabotagem-MCEscher-ThreeWorlds.bmp Há momentos da vida que reconhecemos que estamos prontos para dar um novo salto, para efetivar uma mudança profunda. Nos lançamos num novo empreendimento, numa nova relação afetiva, mudamos de cidade e até mesmo de apelido. Mas, aos poucos, nós nos pegamos fazendo os mesmos erros de nossa "vida passada". É como se tivéssemos dado um grande salto para cair no mesmo buraco. Caímos em armadilhas criadas por nós mesmos. Nos auto-sabotamos. Isso ocorre porque, apesar de querermos mudar, nosso inconsciente ainda não nos permitiu mudar!

Em nosso íntimo, escutamos e obedecemos, sem nos darmos conta, ordens de nosso inconsciente geradas por frases que escutamos inúmeras vezes quando ainda éramos crianças. Toda família tem as suas. Por exemplo: "Não fale com estranhos" é uma clássica. Como a nossa mente foi programada para não falar com estranhos, cada vez que conhecemos uma nova pessoa nos sentimos ameaçados. Uma parte de nosso cérebro nos diz "abra-se" e a outra adverte "cuidado".

Num primeiro momento, o desafio em si é encorajador, por isso nos atiramos em novas experiências e estamos dispostos a enfrentar os preconceitos. No entanto, quando surgem as primeiras dificuldades que fazem com que nos sintamos incapazes de lidar com esse novo empreendimento, percebemos em nós a presença desta parte inconsciente que discordava que nos arriscássemos em mudar de atitude: "Bem que eu já sabia que falar com estranhos era perigoso".

Cada vez que desconfiamos de nossa capacidade de superar obstáculos, cultivamos um sentimento de covardia interior que bloqueia nossas emoções e nos paralisa. Muitas vezes, o medo da mudança é maior do que a força para mudar. Por isso, enquanto nos auto-iludirmos com soluções irreais e tivermos resistência em rever nossos erros e aprender com eles, estaremos bloqueados. Desta forma, a preguiça e o orgulho serão expressões de auto-sabotagem, isto é, de nosso medo de mudar.Dificilmente percebemos que nos auto-sabotamos. Nós nos auto-iludimos quando não lidamos diretamente com nosso problema raiz.

A auto-ilusão é um jogo da mente que busca uma solução imediata para um conflito, ou seja, um modo de se adaptar a uma situação dolorosa, porém que não represente uma mudança ameaçadora. Por exemplo, se durante a infância absorvemos a idéia de que de ser rico é ser invejado e assim menos amado, cada vez que tivermos a possibilidade de ampliar nosso patrimônio nós nos sentiremos ameaçados! Então, passaremos a criar dívidas, comprando além de nossas possibilidades, para nos sentirmos ricos, porém com os problemas já conhecidos de ser pobres. Não é fácil perceber que a traição começa em nós mesmos, pois nem nos damos conta de que estamos nos auto-sabotando!

Na auto-ilusão, tudo parece perfeito. Atribuímos ao tempo e aos outros a solução mágica de nossos problemas: com o tempo a dor de uma perda passará; seu amado irá se arrepender de ter deixado você e voltará para seus braços como se nada houvesse ocorrido. No entanto, só quando passarmos a ter consciência de nossos erros é que não seremos mais vítimas deles! Temos uma imagem idealizada de nós mesmos, que nos impede de sermos verdadeiros. Produzimos muitas ilusões a partir desta idealização. Muitas vezes, dizemos o que não sentimos de verdade. Isso ocorre porque não sentimos o que pensamos!

Muitas vezes não queremos pensar naquilo que sentimos, pois, em geral, temos dificuldade para lidar com nossos sentimentos sem julgá-los. Sermos abertos para com nossos sentimentos demanda sinceridade e compaixão. Reconhecer que não estamos sentindo o que deveríamos sentir ou gostaríamos de estar sentindo é um desafio para conosco mesmos. Algumas de nossas auto-imagens não querem ser vistas!

É nossa auto-imagem que gera sentimentos e pensamentos em nosso íntimo. Podemos nos exercitar para identificá-la. Mas este não é um exercício fácil, pois resistimos em olhar nosso lado sombrio. No entanto, uma coisa é certa: tudo que ignoramos sobre nossa parte sombria, cresce silenciosamente e um dia será tão forte que não haverá como deter sua ação. Portanto, é a nossa auto-imagem que dita nosso destino.

O mestre do budismo tibetano Tarthang Tulku, escreve em seu livro "The Self-Image" (Ed. Crystal Mirror): "A auto-imagem não é permanente. De fato, o sentimento em si existe, no entanto o seu poder de sustentação será totalmente perdido assim que você perder o interesse por alimentar a auto-imagem. Nesse instante, você pode ter uma experiência inteiramente diferente da que você julgou possível naquele estado anterior de dor. É tão fácil deixar a auto-imagem se perpetuar, dominar toda a sua vida e criar um estado de coisas desequilibrado... Como podemos nos envolver menos com nossa auto-imagem e nos tornar flexíveis? Somos seres humanos, não animais, e não precisamos viver como se estivéssemos enjaulados ou em cativeiro. No nível atual, antes de começarmos a meditar sobre a auto-imagem, não percebemos a diferença entre nossa auto-imagem e nosso eu. Não temos um portão de acesso ou ponto de partida. Mas, se pudermos reconhecer apenas alguma pequena diferença entre a nossa auto-imagem e nós mesmos, ou eu ou si mesmo, poderemos ver, então, qual parte é a auto-imagem".

"A auto-imagem pode representar uma espécie de fixação. Ela o apanha, e você como que a congela. Você aceita essa imagem estática, congelada, como um quadro verdadeiro e permanente de si mesmo", explica Peggy Lippit no capítulo sobre Auto-Imagem do livro "Reflexões sobre a mente" organizado por seu mestre Tarthang Tuku (Ed. Cultrix).

Na próxima vez que você se pegar com frases prontas, aproveite para anotá-las! Elas revelam sua auto-imagem e são responsáveis por seus comportamentos repetitivos de auto-sabotagem. Ao encontrar a auto-imagem que gera sentimentos desagradáveis, temos a oportunidade de purificá-la em vez de apenas nos sentirmos mal. O processo de autoconhecimento poderá então se tornar um jogo divertido e curioso sobre nós mesmos!

Fonte:

De Quantos “EUS” Somos Feitos?

Vera Ghimel

eus-keith-haring-monkey-puzzle.jpg Recebi esta pergunta à queima-roupa, faz alguns meses. Teria ficado tranqüila se não fosse feita por um pré-adolescente, de 12 anos, muito conhecido meu. Meu filho Lucas Ian.
Parei tudo para entender bem a pergunta. Ele me relatou que percebe ser UM com os amigos, OUTRO com o pai, MAIS OUTRO comigo, AINDA OUTRO com as professoras e só identifica quem é o EU mais próximo dele, quando está tomando banho. Segundo ele, é nesse momento solitário que vê quem realmente é o Lucas. Dei-lhe uma explicação sobre os nossos papéis sociais, muito aparentes nessa idade, mas eu mesma não me convenci. Fiquei matutando sobre o assunto durante dias. Afinal, eu tiro arquétipos das pessoas, e disso, eu entendo um pouco. Já havia feito a retirada de seus arquétipos, aos 5 anos de idade, à distância, o que resultou numa melhora fantástica. Resolvi perguntar-lhe se gostaria de fazer o processo, dessa vez, presente. Topou. Fiz novamente uma nova retirada de arquétipos. Saíram uns 10. Ele me disse que era “sinistro” me ver falando igual a ele quando estava com os seus amigos. Ele notou e eu também, uma nova mudança.

Ainda não era uma resposta definitiva. Comecei a pesquisar. Toda vez que eu peço aos amigos espirituais que tragam respostas, elas imediatamente chegam. Arrumando os meus livros, encontrei um que comprara há muitos anos e que ainda não havia lido. Fala da jornada do encontro da nossa Verdade. Chama-se O Despertar do Herói Interior, de Carol S.Pearson. Carol cita os 12 arquétipos de base. Os que estão desde o nascimento conosco. Eu já percebera que fazendo o mapa numerológico cabalístico, eu identificava nele os arquétipos da pessoa. Pra identificá-los, em seu mapa, eu uso a expressão “se tender para o lado negativo..... etc.”.
Estou fazendo a segunda leitura desse livro e já estou aplicando o conhecimento nele contido, junto com a minha experiência.

Segundo Carol, são 12 no total, assim divididos:

a) O EGO possui 4 arquétipos - O Inocente, o Órfão, O Guerreiro e o Caridoso.
b) A ALMA (prefiro chamar de Espírito) possui também 4 arquétipos – O Explorador, O Destruidor, O Amante e O Criador.
c) O SELF possui os 4 últimos arquétipos – O Governante, O Mago, O Sábio e o Bobo.

Cada grupo de 4 detém uma parte da jornada. Com a formação do EGO, iniciamos a trajetória, já em criança com o arquétipo do INOCENTE, que pelo aspecto positivo, nos faz aprender a ter otimismo e confiança. Com os primeiro erros, nos tornamos O ÓRFÃO, que pelo lado positivo, nos traz empatia, interdependência e realismo, fazendo-nos recuperar a segurança. Logo surge O GUERREIRO que entra em cena para aprendermos a estabelecer metas e estratégias, alcançando-as com disciplina e coragem. E chega então O CARIDOSO, completando a jornada de formação do EGO, que nos ensina a cuidar das pessoas e de nós mesmos. Quando todos estão na UNIDADE, o que é raro, tudo funciona como numa orquestra afinada.

Com a formação da ALMA (prefiro chamar ESPÍRITO), aparece O EXPLORADOR que nos impulsiona para a busca de uma vida melhor, nos traz autonomia e ambição saudáveis. Logo em seguida temos O DESTRUIDOR, que nos serve para que através da perda (desapego), do medo ou da dor, nos obrigue a escolher entre reiniciar a jornada ou nos transformarmos. Aí entra em ação O AMANTE, que é a busca da felicidade, o compromisso com quem ama, é o amor por nós e pelo outro. Por fim O CRIADOR, que nos liga ao Universo, nos dando criatividade, identidade e vocação. Permite-nos que os sonhos se transformem em realidade.

Na manifestação do SELF, o arquétipo O GOVERNANTE indica soberania, responsabilidade e competência. É a busca da concretização dos sonhos. É a preocupação do bem-estar da sociedade do planeta. Nessa altura, aparece O MAGO que nos dá poder pessoal, transformação da realidade para melhor. Ele cura as feridas do governante. O SÁBIO traz verdade, entendimento, sabedoria e desprendimento. Finalmente O BOBO, cujo princípio é a alegria, o prazer, a libertação. É o inocente, lá do início, com mais maturidade. É festejar a vida a cada momento.

Na manifestação negativa deles, temos no INOCENTE um comportamento de rejeição à verdade, credulidade extrema com as pessoas ou desconfiança, consumismo, sentimentos de desproteção, de culpa e vergonha, propensão para correr riscos. NO ÓRFÃO, a primeira coisa a desaparecer é a espontaneidade, sente-se magoado, rejeitado, abandonado, traído, maltratado, com tendências a reprimir talentos para não se expor. O GUERREIRO negativo é improdutivo, injusto, com obsessiva necessidade de vencer, encara qualquer diferença como uma ameaça e em situações extremas é mentiroso, inescrupuloso e vilão. O CARIDOSO negativo doa-se em demasia, sem observar a hora de dizer não, o que raramente faz. Pai/Mãe que deposita nos filhos uma expectativa de realizar-se através deles, se tornam ressentidos. Processa-se uma relação simbiótica que torna-se repressora. Há uma transferência de carências para os seus protegidos como forma de preencherem os vazios emocionais.

Pela expressão negativa, O EXPLORADOR tem uma necessidade obsessiva de ser independente, o que nos mantém isolados. Cria alienação, insatisfação e sensação de vazio. Perfeccionismo, orgulho e vícios. O DESTRUIDOR carrega-nos para a estagnação, dor, sofrimento, tragédia e perdas. Em situações extremas, assassinatos e estupros, difamação e morte sem renascimento. O AMANTE nos empurra para a inveja, o ciúme, fixação obsessiva no objeto ou pessoa amada, compulsividade sexual, promiscuidade ou mesmo puritanismo exagerado. O CRIADOR, no lado negativo, limita as oportunidades, traz devaneios, fantasias descabidas, obsessão por criar.

No aspecto negativo do GOVERNANTE, haverá caos e perda de controle. Haverá comportamento dominador, tirânico, rígido e manipulativo. Quando não há um governante forte e equilibrado, haverá falta de recursos, de harmonia, de apoio ou de ordem na sua vida. O arquétipo de base O MAGO, o tornará feiticeiro(a) maligno(a), ou lhe trará doenças físicas, emocionais e espirituais, além de descontrole psíquico e mediúnico. O SÁBIO lhe confrontará com a fraude, a ilusão, isolamento e ausência de sentimentos. Atitudes e comportamentos críticos, superiores e pomposos. O BOBO terá preguiça, gula, irresponsabilidade, tédio, indisciplina, parasitismo e embriaguez.

Esses arquétipos de base podem ser equilibrados. Usando a mesma técnica feita na terapia de retirada de arquétipos, pela canalização da forma com que cada um deles se manifesta em nós, pode-se conduzi-los para a UNIDADE. Os arquétipos construídos por nós, ao longo de nossas vidas, seguem o modelo desses que já nascem conosco. Não adianta retirar um arquétipo construído, sem ir ao princípio de tudo. Ao mesmo tempo, não se pode retirar apenas esses moldes arquetípicos de nascimento, sem uma primeira vivência dos arquétipos que construímos.

Crescer é um ato de amor conosco. É um ato de respeito com quem nos criou.

Fonte: Somos Todos Um

[Imagem: Keith Haring, "Monkey Puzzle"]

Posted by Lilia at 09:01 PM | Comments (0)

Se eu fosse eu

Clarice Lispector

seeufosseeu-clarisse.jpg Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser LOCOMOVIDA do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.

Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Fonte: Nenhuma Flor

[Imagem: peguei daqui

Posted by Lilia at 08:45 PM | Comments (2)

Medo amigo e inimigo

Maria Tereza Maldonado

medoamigoinimigo-PaulKlee-HeadofMan.jpg Medo da violência, da insegurança das ruas, do desemprego, das oscilações da economia, das incertezas quanto ao futuro, da repetição de sofrimentos do passado, de deixar de ser amado, de não ser apreciado, de ser abandonado, de não achar o seu lugar, de não manter a posição conquistada. Medo do mundo, medo da vida, medo de nós mesmos, medo dos outros.

Todos nós - crianças, jovens e adultos - precisamos aprender a tomar conta do medo para evitar que o medo tome conta da gente.

O medo amigo é a bússola que nos guia pelos caminhos da vida, apontando perigos verdadeiros dos quais precisamos nos proteger. Ele nos indica o que podemos fazer para evitar o pior. Precisamos obedecer os avisos desse medo. A criancinha aprende que não pode enfiar o dedo na tomada; a criança maior aprende a esperar que os carros parem no sinal fechado para atravessar a rua; o jovem aprende a obedecer as leis do trânsito para evitar acidentes.

O medo inimigo é o sabotador interno que se diverte às custas dos nossos aspectos mais saudáveis, inventando histórias de terror, oprimindo nossa coragem, abortando nossas iniciativas, paralisando nossas ações. É o medo que precisamos desobedecer, desmascarar, desarmar para fortalecer nossa coragem para correr os riscos necessários ao crescimento pessoal. São esses medos que formam bloqueios e inibições, atrapalhando nossa vida e prejudicando o desempenho: a timidez excessiva que não nos deixa abordar uma pessoa que achamos atraente; a insegurança que ''dá branco'' nos fazendo esquecer tudo o que estudamos, na hora de fazer uma prova; a ilusão de que ficamos protegido deixando de sair à noite, mesmo sabendo que há violência a qualquer hora do dia.

Na vida em família, podemos ajudar uns aos outros a fortalecer nossa coragem para tirar o poder das histórias do medo inimigo. As crianças adoram encarar o desafio de desobedecê-lo e a sensação de aumentar o poder interior cada vez que superam mais uma etapa, subindo os degraus de uma escada em cujo topo está a meta que querem alcançar. As crianças também são capazes de ajudar os mais velhos a vencer o medo: um menino de 9 anos, ao conseguir superar o pavor de cães, começou a ajudar a avó a superar o medo de baratas.

No fim desse processo de vencer o medo inimigo, conseguimos rir das histórias que nos apavoravam. A pergunta que guia a reflexão e a coragem de começar do ponto mais fácil até o ponto mais difícil é: ''O que de pior poderá acontecer se...?'' Substituir os pensamentos catastróficos por avaliações realistas do perigo é uma habilidade libertadora de nossas prisões interiores. E a sensação de se soltar das amarras é profundamente agradável.

Fonte: JB Online, Caderno Vida

[Imagem: Paul Klee, Head of Man ]

Posted by Lilia at 05:48 PM | Comments (0)

Reposição hormonal, o erro previsível

José Carlos Brasil Peixoto

reposicaohormonal-Modigliani-seated-nude.jpg Aos poucos vão surgindo notícias e mais notícias sobre os problemas de uma estratégia terapêutica, eufemisticamente chamada de terapia de reposição hormonal. Agora surge a triste perspectiva de haver um incrível incremento de transtornos circulatórios cerebrais (triplica o risco de derrame, entre outros problemas). Já há estudos suficientes que demonstram o aumento no risco de câncer de mama, e uma série de outras enfermidades.

Bem, cabe no mínimo perguntar, o que deu errado? Talvez seria melhor perguntar, porque deu errado. Ou quem sabe, poderia dar certo?

Quando falamos de reposição hormonal, estamos falando de um procedimento médico criado, ou pelo menos difundido por um médico nova-iorquino chamado Robert Wilson. Ele entendia que a mulher perderia seus principais atributos de feminilidade com a parada da menstruação. Mas isto não seria o fim. As mulheres não perderiam os seus atrativos para os homens. Já havia pelo menos um remédio para isto. O laboratório Wyeth já havia lançado o PremarinÒ, que rapidamente se transformou num dos medicamentos mais vendidos nos EEUU e no mundo. Seu rótulo é atraente: estrógenos conjugados naturais.

Nestes quase 40 anos ocorreu algo muito interessante. Faltou curiosidade. Faltou fazer algumas perguntas tão óbvias, que talvez por isso nem foram feitas.

O dr. Wilson afirmou que a menopausa é um problema, e é um problema causado pela baixa de estrogênios na mulher – ponto! “Feminine forever” (1966) foi um livro de incrível sucesso e prometia a juventude eterna para o público feminino, garantindo assim a atratividade para os homens. Nada mais machista.

No início reposição hormonal era apenas a reposição de estrogênios. Mas um significativo aumento no câncer de útero quase levou a primeira fase desta terapia a um fracasso mórbido. Isso foi contornado com o uso de progestinas (substâncias artificiais que imitam as funções da progesterona), e que têm como ícone a medroxiprogesterona (Farlutal Ò) o que levou tal tratamento ao ápice nos anos 90, quando até o coração poderia ser protegido.

O dr. John Lee, mais curioso que seus colegas, se lembrou de fazer perguntas e chegou às respostas. Em primeiro lugar a menopausa em si não é um problema médico a ser tratado. Em segundo lugar a menopausa sintomática não é devido à baixa hormonal simplesmente. É devido a uma baixa desequilibrada de taxas hormonais, uma vez que a progesterona baixa em demasia (quase a zero), fazendo que o estrogênio, mesmo baixando, fique sempre ativo (predominância estrogênica). Em terceiro lugar, devido à precisão nos receptores hormonais, é imperativo que se use hormônios bio-idênticos, o que não ocorre com as progestinas sintéticas, nem mesmo com os estrogênios conjugados (são naturais e idênticos para os eqüinos, não para o ser humano).

Logo, a terapia de reposição hormonal nunca passou de um título atrativo, mas grosseiramente equivocado: o que falta, se faltasse é a progesterona (o protocolo previa o uso de estrogênios e progesterona como coadjuvante), e o que se adiciona são substâncias distintas das necessários (falta bio-identidade), além de usarem como via de administração a via oral, o que provoca uma fratura metabólica, pela primeira passagem no fígado. Além do mais, reduziu esta questão ao aspecto biológico, esquecendo de integrar aos transtornos da menopausa as questões psicológicas, alimentares, sócio-culturais, entre outras, dentro do universo de contextos que o drama da mulher pode estar inserido.

Com tantos vícios de origem, e um grande desrespeito com a ecologia feminina, o inusitado é a surpresa que a opinião pública demonstra com a divulgação de tantos estudos que incriminam este tipo de tratamento.

Quando o ser humano foge demais da natureza, o preço a ser pago costuma ser muito alto. Talvez mais alto em sofrimento do que os bilhões de dólares que a venda destes medicamentos já gerou nestas últimas décadas.

(Livro: “A menopausa e os segredos dos hormônios femininos” de José C B Peixoto, 104 pgs., site: www.novatrh.cjb.net; site: www.johnleemd.com)

(Premarin (PREgnant MARes' urINe) é um composto de estrogênios extraídos da urina da égua prenha, que tem elementos diversos daqueles encontrados no ser humano, e em proporções bem distintas. Sobre isto ver o site: http://www.npr.org/news/specials/hrt, em 2002 era o quarto medicamento mais prescrito nos EEUU.)

[Imagem: Modigliane, "Seated Nude"]

Posted by Lilia at 04:31 PM | Comments (0)

Resiliência reduz riscos de doenças e melhora a qualidade de vida

resilienciareduz-claude-theberge-Les-Naufrages.jpg O estresse é uma realidade observada hoje nas mais diferentes áreas e setores. Como manter a qualidade de vida e o equilíbrio emocional?

A resposta é simples: treinando a capacidade de cada indivíduo de desenvolver a resiliência. O termo vem da física e significa a capacidade humana de superar tudo, tirando proveito dos sofrimentos, inerentes às dificuldades. O resiliente é aquele que recupera-se e molda-se a cada "deformação" (obstáculo) situacional.

O equilíbrio humano é semelhante à estrutura de um prédio, se a pressão for superior à resistência, aparecerão rachaduras (doenças e lesões, por exemplo). Dentre as mais diferentes doenças psicossomáticas que se manifestam no indivíduo que não possui resiliência, estão não apenas o estresse, mas doenças graves como a gastrite até a síndrome do pânico, incluindo ainda problemas como vaginites, doenças intestinais, hipertensão arterial, entre outros males.

Durante o ciclo de vida normal, é necessário ao indivíduo desenvolver a resiliência para conseguir ultrapassar as passagens com "ganhos", nas diferentes fases: infância, adolescência, juventude, fase adulta e velhice, incluindo mudanças como de solteiro para casado.

O indivíduo que possui resiliência desenvolve a capacidade de recuperar-se e moldar-se novamente a cada obstáculo, a cada desafio. Se transportarmos o raciocínio para o dia-a-dia, poderemos observar que, quanto mais resiliente for o indivíduo, haverá menos doenças e perdas e mais desenvolvimento pessoal será alcançado.

Um indivíduo submetido a situações de estresse e que sabe vencer sem lesões severas (rachaduras) é um resiliente. Já quem não possui resiliência é o chamado "homem de vidro", que se "quebra" ao ser submetido às pressões e situações estressantes. A idéia de resiliência pode ser comparada às modificações da forma de uma bexiga parcialmente inflada, se comprimida, adquirindo as formas mais diversas e retornando ao estado inicial, após pressões exercidas sobre a mesma.

A resiliência consiste em equilíbrio entre a tensão e a habilidade de lutar, além do aprendizado obtido com obstáculos (sofrimentos). Traduzindo em outras palavras, é atingir outro nível de consciência. O indivíduo que não possui ou não desenvolve a resiliência, pode sofrer severas conseqüências, que vão da queda de produtividade ao desenvolvimento das mais diferentes doenças psicossomáticas.

Dicas para aumentar a capacidade de resiliência:

* Mentalizar seu projeto de vida, mesmo que não possa ser colocado em prática imediatamente. Sonhar com seu projeto é confortante e reduz a ansiedade.
* Aprender e adotar métodos práticos de relaxamento e meditação.
* Praticar esporte para aumentar o ânimo e a disposição. Os exercícios aumentam endorfinas e testosterona que, conseqüentemente, proporcionam sensação de bem-estar.
* Procurar manter o lar em harmonia, pois este é o "ponto de apoio para recuperar-se".
* Aproveitar parte do tempo para ampliar os conhecimentos, pois isso aumenta a autoconfiança.
* Transformar-se em um otimista incurável, visualizando sempre um futuro bom.
* Assumir riscos (ter coragem).
* Tornar-se um "sobrevivente" repleto de recursos.
* Apurar o senso de humor (desarmar os pessimistas).
* Separar bem quem você é e o que faz.
* Usar a criatividade para quebrar a rotina.
* Examinar e reflitir sobre a sua relação com o dinheiro.
* Permitir-se sentir dor, recuar e, às vezes, enfraquecer, para em seguida retornar ao estado original.

Dr. Alberto D'Auria é ginecologista e superintentende de Saúde Ocupacional do Hospital e Maternidade São Luiz
Fonte : Texto retirado, com adaptações, de Leila Navarro

[Imagem: Claude Theberge, "Les Naufrages"]

Posted by Lilia at 02:22 PM | Comments (0)

julho 21, 2005

A natureza da hostilidade

Bel Cesar

naturezahostilidade-Buddhist-Mandala.jpg Quem já não recebeu um golpe de hostilidade quando menos esperava? Basta um gesto brusco, uma palavra desagradável ou um silêncio cortante para sermos atingidos pela dor daquele que declara abertamente estar “de mal” com o mundo e, quem sabe, especificamente com a gente!

A hostilidade é uma energia baseada na agressividade, e tem como intuito declarar guerra: chamar o inimigo para o confronto, disputar um lugar ou uma posição. Baseada no ódio e na irritação com alguém, sua mensagem é clara: desejo prejudicar você!

Assim como diz o ditado popular, “Quando um não quer, dois não brigam”, cabe a cada um saber a hora certa de recuar. No entanto, isso não quer dizer que devamos fugir e desdenhar um aviso de agressão. Como agir diante da hostilidade?

De acordo com a filosofia budista, não nos cabe julgar a atitude alheia, mas sim cuidar da nossa. Neste sentido, podemos sempre escolher como agir ao invés de reagir. No entanto, para manter a calma e a clareza diante da hostilidade, é preciso ter um profundo conhecimento de si mesmo, baseado na certeza de que vale mais a pena o autocontrole do que se submeter a uma provocação alheia. O controle interior é uma virtude das pessoas que se dedicam ao autoconhecimento.

Podemos ver esta atitude naqueles que são compassivos e gentis por natureza. É admirável observar como os mestres budistas lidam com estes momentos: eles sabem a hora certa de agir ou recuar, pois uma vez que reconhecem o que se passa com o outro, conhecem também suas reações. No entanto, eles não são submissos aos abusos e declaram assertivamente os limites das situações.

Neste mundo competitivo, a ganância é vista como força-motriz para vencer. Aqueles que não se contentam com o que conquistam por meio de seu próprio esforço usam a hostilidade como uma arma potente, capaz de paralisar os mais suscetíveis às influências externas. Por isso, precisamos estar atentos àqueles que avançam por nossa porta adentro sem pedir licença, pois são pessoas acostumadas ao poder: eles acham que estão no direito de poder tudo a qualquer hora. Por isso são chamados de “cara de pau”. Eles agem de modo naturalmente hostil, pois sabem que assim têm menos chances de serem barrados. De fato, é verdade, pois o comportamento hostil desperta medo, raiva e ressentimento: um prato cheio para congelar emoções e impedir a possibilidade de alguém se opor à ação imposta por eles.

A hostilidade alheia nos intimida na medida que não sabemos lidar com nossa própria agressividade. Isto ocorre porque associamos nossa própria agressividade a uma idéia negativa; no entanto, a agressividade não é necessariamente uma emoção negativa. Ela também contém um sentido positivo: força para agir e seguir adiante. A agressividade, como força genuína do ser humano, não precisa necessariamente estar contaminada pela raiva. Neste sentido, ao invés de surgir como força destrutiva, ela gera força-motriz positiva: coragem para levantarmo-nos de novo e enfrentarmos obstáculos.

Neste sentido, a agressividade é uma autodefesa, isto é, um mecanismo biológico fundamental de adaptação. Ela nos ajuda a lidar com as ameaças de nosso território, tanto físicas quanto emocionais.

É interessante lembrar que o bebê passa a entender a sua própria individualidade a partir do momento que passa a sentir raiva. Por isso, a raiva é o primeiro sentimento que nos diferencia uns dos outros. Por meio da raiva, iremos gradualmente romper a relação simbiótica com nossa mãe. De modo semelhante, será a dor de uma decepção que nos ajudará a abandonar o passado e a nos arriscarmos num futuro incerto. Neste sentido, a agressividade nos impele a seguir em frente. É como se para largarmos uma etapa já vencida precisássemos escutar um basta em nosso interior, alertando-nos com firmeza: “Chega, abandone esta situação, siga em direção à outra”!

A agressividade torna-se uma força-motriz negativa quando está contaminada pelo desejo infantil de que poderíamos escapar das leis da responsabilidade pessoal, isto é, quando acreditamos na ilusão de que alguém pode nos satisfazer em todos os sentidos. A idéia de não-merecimento, de sermos vítimas de situações injustas, aumenta nossa raiva interior e nos torna hostis. Querendo ou não, teremos de lidar com os limites alheios para não cultivar uma constante frustração que gera apenas mais hostilidade. Por isso, a hostilidade é uma emoção anterior à ação agressiva; nela mora um secreto desejo de vingança: “Se você não fizer tudo que eu espero de você, irá se arrepender, pois vou me vingar”.

Uma vez que não conseguimos expressar a raiva, ela ficará reprimida em nosso interior, pulsando uma mensagem de indignação: “Isso não poderia ter acontecido comigo”. Lama Chagdug Rinpoche dizia que críticas são como flechas que atiram em nossa direção, mas na realidade não nos atingem: elas caem no chão. Somos nós que as pegamos e continuamos a nos apunhalar enquanto formos tomados pela indignação: “Ele não poderia ter dito isso, feito aquilo”. Isto é, como reagimos às críticas e o tempo dedicado a elas é sempre uma questão nossa, e não daqueles que nos agrediram.

Se somos tomados pela indignação, perdemos o autocontrole. Desta forma, nossa própria segurança torna-se ameaçada, pois sentimos que podemos explodir a qualquer momento. A hostilidade, uma vez recalcada, cresce interiormente como uma bomba-relógio, intensificando o medo e a insegurança. Quando somos tomados por tal agonia passamos a temer a nós mesmos, pois teremos medo de nossa própria agressividade: desconhecemos o que ela pode fazer conosco. A este ponto nos perguntamos: “O que acontecerá se eu perder o controle”?

A questão é que, quando crianças, aprendemos a recalcar a nossa raiva: tínhamos medo de que, ao expressá-la, iríamos danificar a nossa imagem diante daqueles que representavam uma fonte de segurança para nós, de que poderíamos ser castigados por eles ou perder o seu afeto.

O medo de magoar aqueles que cuidaram de nós gerou o sentimento de culpa inconsciente que nos faz sentir responsáveis pelos sentimentos alheios. Por isso, muitas vezes, quando adultos, não demonstramos sentimentos negativos frente a quem amamos para evitar ter que lidar com a ameaça de sentir a decepção alheia: “Se eu não te agrado é melhor você buscar outra pessoa”. Assim, preferimos suportar o desconforto interno a correr o risco de decepcionar aqueles diante de quem desejamos preservar a imagem de que estamos satisfeitos com eles, porque eles são o máximo, e por isso sempre nos satisfazem! Mas quanto mais negarmos nossa raiva, mais ansiedade iremos sentir sem compreender a sua razão aparente.

É o quantum de raiva internalizada que cada um traz consigo, como parte integrante de sua personalidade, que faz nos sentir mais ou menos desconfortáveis conosco mesmos. Desta forma, a sensação de inadequação e culpa voltará a surgir todas as vezes que tentarmos expressar a nossa raiva para aquele que amamos. Esse sentimento nos impedirá de amar verdadeiramente, pois uma vez que sentimos algo ruim em nosso interior, não nos consideraremos merecedores de amor.

Por fim, enquanto nos sentirmos prejudicados por alguém ou uma situação, manteremos uma ferida aberta que nos tornará cada vez mais amargos. Até mesmo aqueles que se proíbem de sentir raiva acabam por descobrir que ela está inevitavelmente em seu interior e se tornou uma força destrutiva. Por isso, o melhor é lidar com nossa hostilidade interna.

Seja por meio da psicoterapia ou pela ajuda de amigos íntimos, precisamos começar a ensaiar nossa capacidade de expressar a raiva interior de forma não destrutiva. No entanto, o primeiro passo para apaziguar a hostilidade interior será pela autocompaixão, isto é, aprender a ver a raiva em nosso interior como um sinal de que estamos simplesmente desequilibrados: ultrapassamos nossos limites ou não soubemos nos defender, mas não somos ruins por isso. Podemos nos dar uma nova chance ao comunicar o que estamos sentindo e ainda sim ser aceitos. Quando a intenção é o entendimento, encontramos uma forma de nos expressar que não magoa ou destrói o outro. Ainda assim, será necessário que o outro também esteja amadurecido para fazer o mesmo.

Em vez de nos acusarmos ou de redirecionarmos nossa raiva para os outros, podemos parar para observar o que estamos sentindo, dar tempo para o processo de autocura. Desta forma, iremos aprender que nossa agressividade não é uma arma destrutiva, mas sim um alerta de que é preciso dar mais atenção ao que se passa em nosso interior.

Fonte: Somos Todos Um

[Imagem: Buddhist Mandala]

Posted by Lilia at 08:21 PM | Comments (0)

julho 20, 2005

Ao sorrirmos, estimulamos sua produção

Dr. Mário Carabajal – Ph.D.

sorrirestimula-Portrait-Of-A-Young-Girl-Laughing-Djenne-Mopti-Mali.jpg Você já observou quem está a sua volta? Alguns são bem humorados, passam felicidade, contagiam o ambiente e atraem as atenções de todos. Já os sisudos, tornam as coisas mais difíceis, mais pesadas. Entre um e outro – como a noite e o dia, sentimo-nos motivados e depressivos – alegres e infelizes – relaxados e tensos – vívidos e angustiados.

Onde encontram-se as chaves para a felicidade? Nas pessoas que nos cercam ou dentro de nós? Nos planos e projetos – na saúde e trabalho – nos esportes e lazer? Sabemos que algumas pessoas vivem mais que outras, mas, que segredinho é este?

Após analisar uma amostra superior a 1.500 pessoas, inclino-me a afirmar que as pessoas mais bem humoradas polarizam os meios, fazendo com que pequenas e grandes decisões, empresariais e políticas, girem a sua volta. São seres como pólos energéticos, como ímãs.

Através dos recentes avanços da bioeletrografia, constatamos o entrecruzamento das energias humanas, também, de infinitas trocas energéticas entre os seres e os objetos. Existem campos de energia com maior e menor “quantum” de irradiação, - o que provocam mudanças nos limiares de outros seres e mesmo objetos.

A energia é uma realidade inquestionável, ela existe em tudo e também nos seres. Cada célula humana armazena entre 40 e 90 mini-voltz.

Os bem humorados tem uma maior capacidade de armazenamento de energia e suportam melhor as tensões.

Todo os processos psiconeuro e biofisiológicos, mecânicos e extra-corpóreos, sociais, são dependentes de energia. Em todos os momentos, trocas ocorrem, modificando os limiares dos objetos e pessoas sob o nosso raio bioeletromagnético. Quem já não passou frente a um aparelho de televisão, rádio, ou mesmo ao pentear-se, e notou a existência e presença da energia?

Nas 1.500 pessoas analisadas, aquelas que tinham um maior senso de humor, energeticamente, polarizavam seus pares. Uma significativa redução nos níveis de estresse – muitos pacientes que queixavam-se de algum tipo de dor, frente ao riso, tinham suas dores minimizadas.

Alguns efeitos do riso sobre o organismo:
- O hormônio do estresse, que é produzido pelas glândulas suprarenais são reduzidos.
- Com o riso, suas lágrimas passam a ter mais imunoglobulinas, um anticorpo que é a sua primeira linha de defesa contra algumas infecções oculares provocadas por vírus e bactérias.
- Sua boca também passa a ter mais imunoglobunina, resultando em uma melhor função imunológica.
- O riso acelera a recuperação de convalescentes e é eficaz no combate a dor.
- O poder do riso, de ativar a produção de endorfinas, é tão eficiente quanto a acupuntura, o relaxamento, a meditação, os exercícios físicos e a hipnose.
- O nível de cortisol aumenta de forma nociva durante o estresse, diminuindo significativamente com o riso.
- A pressão sanguínea aumenta durante o riso e cai abaixo dos níveis de repouso depois.
- Há uma redução da tensão muscular depois do riso. Um dos principais fatores que contribui para as doenças ocupacionais, como a Dort – Distúrbio osteomuscular relacionado ao trabalho, é o excesso de tensão muscular.
- O ar é expelido em grande velocidade de sus pulmões e de seu corpo quando você dá uma boa gargalhada. Seu corpo todo é oxigenado – inclusive o cérebro. Este fenômeno contribui tanto para que você pense com clareza quanto para uma boa forma aeróbica.
- O riso possui um efeito antiinflamatório em suas juntas e ossos que contribui para reduzir a inflamação e aliviar a dor em condições artríticas.
- Durante o estresse, a glândula supra-renal libera corticosteróides que são convertidos em cortisol na corrente sanguínea. Níveis elevados de cortisol têm um efeito imunossupressivo – o riso reduz os níveis de cortisol, protegendo nosso sistema imunológico – o estresse é o elo entre a pressão alta, a tensão muscular, o sistema imunológico enfraquecido, enfarto, diabetes e muitas outras doenças. (Vencer, Dez/01, p. 50).

Fonte: Academia Letras Brasil

[Imagem: Djenne Mopti Mali, "Portrait Of A Young Girl Laughing"]


Posted by Lilia at 02:51 PM | Comments (0)

AMOR SÓ DE LETRAS

Mário Prata
amorletras.gif Conta a história que dom Pedro II casou-se sem conhecer a sua noiva.

Tinha visto um quadro com a cara da princesa. Casamento de interesses políticos lá dos portugueses, fazer o que? E quando a moça chegou no porto do Rio de Janeiro - consta que ele fez uma cara emocionada. Pela feiúra da imperial donzela. Mas casou, era o destino, era a desdita.

Tenho um avô que foi pedir mão da moça e o pai dela disse: - Essa tá muito novinha. Leva aquela.

E ele levou aquela que viria a ser a minha avó. Ah, a outra morreu solteirona.

Quando aconteceu o grande boom da imigração japonesa, alguns anos depois, familiares que lá ficaram mandavam noivas para os que cá aportaram.

Tudo no escuro. E de olhinhos fechados, ainda por cima.

De uns tempo para cá, o conceito da escolha foi mudando. Até ir para a cama antes, valia. Ficava-se antes.

Só que agora, finzinho do finzinho do século, surgiu um outro tipo de casamento. O casamento de letras. Letras de textos. O texto - finalmente, digo eu, escritor - virou casamenteiro. Apaixona-se, hoje em dia, pelo texto. Via internet. Via cabo, literalmente.

Conheço quatro casos bem próximos. Gente que desmanchou o casamento de carne e osso por uma aventura no mundo das letras.

Claro que estou me referindo aos encontros via Internet. Começa no chat, com o texto. Gostou do texto, leva para o reservado. E lá, rola. Eu mesmo já me envolvi perdidamente por dois textos belíssimos. Moças de vírgulas acentuadas, exclamações sensuais e risos de entortar qualquer coração letrado ou iletrado.

Sim, pela primeira vez nesta nossa humanidade já tão velhinha, as pessoas estão se conhecendo primeiramente pela palavra escrita. E lida, é claro.

Já disse, isso envaidece qualquer escritor. Agora, o texto pode levar ao amor. Uma espécie de amor-de-texto, amor-de-perdição.

A relação, o namoro, começa ali no monitor. Você pode passar algumas horas, dias e até semanas sem saber nada da outra pessoa. Só conhece o texto dela.

E é com o texto que vai se fazendo o charme. Você ainda não sabe se a pessoa é bonita ou feia, gorda ou magra, jovem ou velha. E, se não for esperto, nem se é homem ou mulher. Mas vai crescendo uma coisa dentro de você. Algo parecidíssimo com amor. Pelo texto.

Pouco a pouco, você vai conhecendo os detalhes da pessoa. Idade, uma foto, a profissão, a cor. Inclusive onde mora. Sim, porque às vezes você está levando o maior lero com o texto amado e descobre que ele vem lá da
Venezuela. Ou do Arroio Chuí.

Mas se o texto for bom mesmo, se ele te encanta de fato e impresso, você vai em frente. Mesmo olhando para aquela fotografia - que deve ser a melhor que ela tinha para te escanear (ou seria sacanear, me perdoando o trocadilho fácil) você vai em frente. "Uma pessoa com um texto desses..."

A tudo isso o bom texto supera.

Quando eu ouvia um pai ou mãe dizendo "meu filho fica horas na Internet", todo preocupado, eu também ficava. Até que, por força do meu atual trabalho, comecei a navegar pela dita suja.

E descobri, muito feliz da vida, que nunca uma geração de jovens brasileiros leu e escreveu tanto na vida. Se ele fica seis horas por dia ali, ou ele está lendo ou escrevendo. E mais conhecendo pessoas. E amando essas pessoas.

Jamais, em tempo algum, o brasileiro escreveu tanto. E se comunicou tanto. E leu tanto. E amou tanto.

No caso do amor ali nascido, a feitura, o peso, a cor, a idade ou a nacionalidade não importam. O que é mais importante é o texto. O texto é a causa do amor.

Quando comecei a escrever um livro pela internet, muitos colegas jornalistas me entrevistavam (sempre a mim e ao João Ubaldo) perguntando qual era o futuro da literatura pela Internet.

Há quatro meses atrás eu não sabia responder a essa pergunta. Hoje eu sei e tenho certeza do que penso: - Essa geração vai dar muitos e muitos escritores para o Brasil. E muita gente vai se apaixonar pelo texto e no texto.

Existe coisa melhor para um escritor do que concluir uma crônica com isso?

Como diria Shakespeare, palavras, palavras, palavras.
Como diria Pelé, love, love, love.

Posted by Lilia at 09:11 AM | Comments (0)

Ame Mais!

Claudia Martinez

amemais-AlfredGockel-Lovedance.jpg Amar mais é um bom conselho e tenho procurado seguí-lo na minha vida, mas o que significa exatamente amar mais? O conceito do amor tem sido tão distorcido através dos tempos que podemos ficar confusos, principalmente no mundo atual que estamos vivendo.

Amar mais não tem nada a ver com o nosso comportamento. Muita gente pensa que amar mais é falar com voz suave, é ser gentil, é ser simpático, é ser agradável, mas o mundo já está cheio de pessoas agradáveis. O pior é que muitas dessas pessoas agradáveis também são capazes de fazer e falar coisas muito desagradáveis e podem carregar muitas neuroses escondidas lá por dentro. O que adianta ter uma voz suave e um comportamento gentil, se lá por dentro estivermos cheios de raivas e de frustrações?

O que adianta tratar bem a uma pessoa se lá por dentro estivermos cheios de preconceitos? O que adianta ser gentil se, por trás, falarmos mal das próprias pessoas a quem tratamos bem?

Para amar mais de verdade, precisamos começar a nos observar, precisamos começar a nos conhecer melhor. Precisamos começar a notar que, de fato, temos um “eu” superficial e um “eu” profundo. O “eu” superficial é o ego e “eu” profundo é a nossa essência verdadeira. Precisamos lembrar que o ego sempre fala primeiro e mais alto. Vocês já repararam como a gente tem necessidade de responder ao que outra pessoa está falando, antes mesmo que ela termine de falar? Essa é uma das versões do ego, ou querendo se exibir, ou querendo atacar, ou se defender. A nossa primeira reação sempre vem do go e o pior é que ficamos tão acostumados com isso que a nossa verdadeira essência vai ficando cada vez mais abafada. Mas o ego também se manifesta primeiro nas pessoas muito quietas, aquelas que nunca dizem nada porque se sentem intimidadas ou inseguras. Essa é uma outra versão do ego. A sobrevivência do ego está sempre baseada no medo. Eu sei disso porque passei de tímida a segura de mim mesma, ou seja, passei de um extremo a outro sem deixar de atuar no nível do ego, sempre me preocupando com o que as pessoas pensavam de mim, antes de começar a me conhecer melhor.

Para amar de verdade, primeiro precisamos encontrar a nossa verdadeira essência e deixar que ela floresça dentro de nós. Precisamos aprender a ouvir com o coração, a ver com o coração, a sentir com o coração e não só com a cabeça. Só assim vamos conseguir realmente escutar o que os outros tem a dizer, só assim vamos conseguir entender o nosso próprio sofrimento e o sofrimento dos outros. Só assim vamos poder sentir compaixão pelo próximo e poder apreciar o verdadeiro sentido do perdão e o alívio que ele pode nos trazer. Quando percebemos que estavamos aprisionados pelo ego, começamos a perceber que os outros também estão. Percebemos que eles não sabem o que estão fazendo, do mesmo jeito que a gente não sabia e, só assim vamos conseguir perdoar pessoas que antes pareciam impossíveis de ser perdoadas. É o mesmo que descobrir um mundo completamente novo dentro de nós mesmos, é uma revelação magnífica e esplendorosa. Quando a gente começa a perder o impulso de responder imediatamente, ou perder o medo de falar a nossa verdade, é um sinal de que o “eu” superficial está começando a dar espaço para o “eu” verdadeiro se manifestar.

Ouví um exemplo outro dia, de como lidar com crianças obesas. Essas crianças podem comer um pote de sorvete de uma vez só, então deve-se fazer duas perguntas a elas, com relação à vontade de tomar sorvete. Primeiro pergunta-se: “O que você quer?” A primeira resposta é que ela quer comer o pote inteiro de sorvete, mas aí pergunta-se de novo: “O que você realmente quer?’ A segunda resposta é que ela quer um pouco de sorvete.

Nós também precisamos aprender a seguir a nossa verdadeira vontade em relação a tudo, que também vem a ser a segunda. O ego sempre esteve livre, solto e acostumado a se manifestar primeiro, porque muitos de nós nem ao menos sabíamos que tinhamos uma verdadeira essência reprimida lá dentro. Em alguns casos, precisamos observar as palavras, ou gestos, que vem à tona
com muita rapidez, em outros casos, precisamos observar o medo de se expressar que vem à tona com muita rapidez e começar a deixar a verdade fluir de dentro de nós. O ego se manifesta de muitas formas e a gente só vai começar a perceber os seus truques quando passar a observar constantemente o que está acontecendo dentro de nós mesmos. Vamos começar a descobrir o motivo de nossos receios, de nossas preguiças, de nossos medos mais escondidos e essa revelação interior vai começar a produzir milagres em nossas reações. Vamos começar a ser mais esponetaneos, mais leves, mais alegres, ou seja, tudo que Deus quer que sejamos.

Deus não quer que façamos sacrifícios. Nós só fazemos sacrifícios quando fingimos que estamos amando, quando estamos agindo racionalmente, usando de artimanhas e manipulações para conseguir o que queremos. O ego tem essa mania de pensar que o amor é válido e útil, porque assim vamos conseguir o que queremos. Temos sido ensinados a controlar o nosso temperamento e as nossas reações porque temos que ser civilizados e eu não estou dizendo que isso está errado. O que estou dizendo é que aprendemos todas essas coisas no nível do ego, mas como o ego quer sempre levar vantagem, a nossa vida acaba virando um sacrifício, porque temos que acabar fazendo e falando coisas que realmente não concordamos. O relacionamento entre as pessoas acaba virando um desastre, não é verdade?

O sacrifício acaba quando o eu verdadeiro começa a vir à tona, porque começamos a renunciar a coisas que não vão nos fazer nenhuma falta, como a raiva, o medo, as frustrações, etc. Ao passo que o ego concorda em renunciar de algumas coisas por puro interesse, mas chega uma hora que a farsa vem à tona e a gente acaba se revelando. O ego quer sempre vencer, ao passo que o eeu verdadeiro quer sempre encontrar uma solução onde todos possam sair ganhando. Nós vivemos num mundo dominado pelo ego, por isso existem guerras, miséria e todos os males. Mas do mesmo jeito que os seres humanos são a causa dos problemas, também somos a solução.

A partir do momento que começamos a perceber que o bem e o mal estão dentro de nós mesmos, podemos começar a fazer escolhas diferentes. Outro exemplo interessante que escutei outro dia é que nos filmes o “mal” sempre aparece vestido de preto, em forma de monstro, ou coisa parecida. Nós ficamos com a impressão de que o mal é sempre feio ou evidente demais e nunca paramos para pensar que o mal pode estar em nós. Não, nós somos ótimas pessoas, trabalhadoras, religiosas, o problema está “nos outros”, eles é que estão errados. O ego quer nos fazer acreditar que somos separados uns dos outros, mas nós somos todos unidos e se somos unidos temos que reconhecer que o problema que existe nos outros também existe em nós. Pode ser em grau menor ou maior, mas está presente em todo mundo. Então, a cura tem que partir de cada indivíduo, mas a vantagem é que essa cura é “contagiosa”, no sentido de que vai se espalhando, até curar a humanidade inteira.

Só que nós somos tão teimosos que acabamos sendo levados na conversa do ego muitas vezes e acabamos cometendo o mesmo erro inúmeras vezes, até chegar a situações desesperadoras.

Mas não é verdade que em momentos dificílimos a gente parece encontrar uma força desconhecida que nos faz capazes de superar a situação? Essa força é a parte de Deus que está dentro de todos nós, que nos faz crescer e ser esplendorosos. Ela está sempre presente e não precisamos chegar a situações desesperadoras para encontrá-la, mas como a força do ego tem sido muito grande em nossas vidas, isso geralmente acaba acontecendo. Se estivermos conscientes de que demos de cara com a parte de Deus que está dentro de nós, vamos ficar agradecidos e passar a escolhê-la com mais frequência, mas, infelizmente, muitas vezes as pessoas saem de situações desesperadoras sem ter consciência do que aconteceu dentro delas. E, uma vez passado o sufoco, podem voltar ao mesmo padrão de comportamento anterior e acabar se colocando em situações desastrosas de novo. Por isso é importante nos conhecer melhor e ter consciência do que se passa dentro de nós. Só assim poderemos ser confiáveis, amadurecidos e felizes.

É nesse sentido que devemos amar mais. Amar mais significa ir deixando de ser parte do problema e começar a ser parte da solução. Amar mais é purificar a nossa forma de pensar e ajudar a purificar a forma de pensar daqueles que nos rodeiam.

Os problemas do mundo são apenas sintomas e precisamos tratar a causa deles. Isso significa que temos que tratar de nós mesmos.

Para mim o amor é sinônimo de paz e de liberdade interior. Acho que a gente só consegue amar de verdade quando consegue perdoar (inclusive a si mesmo), quando consegue fazer novas escolhas, quando consegue deixar de querer controlar os outros.

Amar é conseguir encontrar uma solução onde todos os envolvidos possam sair ganhando, porque isso traz a percepção correta de que somos unidos e não separados uns dos outros.

Amar é desistir constantemente das nossas idéias pre-estabelecidas de como as coisas deveriam ser.

Amar é ser feliz, ao invés de ter necessidade de estar sempre com a razão.

Amar é proporcionar um espaço seguro para os seres amados, ao invés de querer controlá-los.

O amor verdadeiro vem de dentro, do coração. Devemos orar para ser curados da necessidade que temos de impor a nossa vontade sobre os outros.

Fonte: Centro para Cura das Atitudes

[Imagem: Alfred Gockel, "Love Dance"]

Posted by Lilia at 08:30 AM | Comments (0)

Um Apólogo

Machado de Assis

umapologo-Renoir-lady-sewing.jpg Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

[Imagem: Renoir, "Lady Sewing"]

Posted by Lilia at 07:27 AM | Comments (0)

julho 19, 2005

A rigidez que limita

Rosemeire Zago

rigidezlimita-juanmiro- ballarinaII.jpg Você se considera ou convive com alguém rígido, inflexível?
A rigidez, inflexibilidade, a imposição constante de regras, limita as relações e impede a busca por outros caminhos, acreditando que aquele escolhido é o único certo.

O excesso de rigidez faz com que criemos um padrão mental de comportamento, podendo provocar um sentimento de autopunição que só traz sofrimento, aos outros e a si próprio. Podemos encontrar pessoas rígidas em todos os lugares, mas, se observarmos mais atentamente, podemos encontrar muitas vezes essa rigidez dentro de nós mesmos.

Por exemplo, quem quer eliminar uns quilinhos é muito comum colocar-se metas. Sim, é importante saber onde se quer chegar, mas fazer disso um tormento, com expectativas elevadas só a fará encontrar insatisfação e frustração.

“A rigidez está muito relacionada com a repressão da expressão de emoções e conflitos não resolvidos.”
Se a meta é eliminar um quilo em uma semana e só conseguir quinhentos gramas, ignorando tudo que foi feito para alcançar tal resultado, poderá fazer com que desista logo no início, reforçando o sentimento de não ser capaz. Ou seja, em função do excesso de rigidez, tudo que não for atingido conforme o programado é desprezado, como se houvesse a necessidade de se punir de algo que não foi realizado conforme as próprias regras.

Pessoas rígidas em geral sofrem de dor de cabeça, enxaqueca, impondo-se a si mesmas um grande sofrimento para atenderem a exigências interiores inconscientes. Estão quase o tempo todo tensas, não se “desarmam”, como se estivessem constantemente em perigo. Mas caso sejam questionadas se sofrem de conflitos internos não resolvidos, elas o negam, dificultando a resolução destes.

Muitas vezes são pessoas que provêm de famílias que atribuem grande valor a normas rígidas de comportamento, sendo punidas quando essas regras não eram cumpridas e onde a expressão emocional, quer de afeto ou agressividade era reprovada e reprimida. O bloqueio da expressão afetiva ou a repressão da agressividade podem gerar um sintoma físico como a dor de cabeça ou enxaqueca, como meio de expressar no corpo os afetos e sofrimentos não expressos verbalmente. Seria como se a pessoa não agredisse aos outros, mas a si mesma.

Ou seja, a rigidez está muito relacionada com a repressão da expressão de emoções e conflitos não resolvidos, podendo ainda estar relacionada com a repressão sexual. As crises de cefaléias ou enxaquecas podem ser muitas vezes utilizadas como desculpa para fugir da relação sexual, assim como o próprio excesso de peso.

Diante da incapacidade de comunicar com palavras o que sente, o corpo adoece como forma inconsciente de manifestar seu sofrimento. A repressão de qualquer sentimento é maléfica para a mente e o organismo, devendo ser evitada.

Excluídas as causas orgânicas, a dor de cabeça, enxaqueca ou dores musculares, podem se manifestar em função de uma tensão em face dos problemas do dia-a-dia e da relação insatisfatória e rígida que a pessoa mantém consigo mesma e com os outros. Ou seja, há uma contração de toda a musculatura, principalmente do pescoço, da nuca e da face. “A repressão de qualquer sentimento é maléfica para a mente e o organismo, devendo ser evitada.”

Pode ser desencadeada também pelo estresse em função da sobrecarga que a própria pessoa se impõe, assim como da ansiedade crônica. Além disso, os estados crônicos de tensão ou estresse contribuem decisivamente para aumentar a pressão arterial, e a pressão alta pode causar a cefaléia, tornando uma verdadeira bola de neve. É claro que todos nós convivemos diariamente com algum grau de tensão física e emocional, mas existem pessoas que são rígidas 24 h e devem ficar atentas a esse comportamento.

Ser flexível não quer dizer perder a personalidade, ser volúvel ou fazer tudo o que outras pessoas querem, mas ser mais acessível à compreensão das coisas e pessoas, principalmente a si mesmo. É saber ouvir mais atentamente antes de interromper como se fosse dono da verdade ou como se houvesse apenas um caminho a seguir.

Podemos encontrar pessoas presas durante anos a conceitos e crenças antigas que apenas mobilizam e limitam o crescimento, onde não se permitem ampliar seu campo de visão ou de conhecimento, por acreditarem estar absolutamente certas naquilo que acreditam. A pessoa rígida não é só rígida com os outros, mas principalmente consigo mesma.

Impor regras, limites, horários, seguindo um padrão rígido de comportamento desgasta qualquer pessoa ou relação. Irritar-se por que o outro chegou cinco minutos atrasado ou não fez exatamente como você esperava, pode fazê-lo ter que lidar com sua frustração, mas como em geral nega seus próprios sentimentos, prefere impor que apenas seu jeito de ser ou pensar é o certo.

Pessoas rígidas estão sempre se impondo limites, muitas vezes porque na verdade, não se sentem capazes de ultrapassarem os seus próprios, sempre se escondendo atrás de regras que as fazem permanecer no mesmo lugar, onde tudo é conhecido e seguro, ainda que extremamente limitador. Atrás de toda rigidez encontra-se a não aceitação da naturalidade da vida, que por si só muda a cada momento, buscando se adequar para que haja um maior desenvolvimento e crescimento do ser humano e que não consegue ser alcançado onde há limites.

Fonte: Cyber Diet

[Imagem: Juan Miro, "ballarina II"]


Posted by Lilia at 08:09 PM | Comments (1)

julho 18, 2005

Mães más

Carlos Hecktheuer, médico psiquiatra

maesmas-dianablake-cruelstepmother.jpg Um dia quando meus filhos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e mães, eu hei de dizer-lhes:
- Eu os amei o suficiente para ter perguntado aonde vão, com quem vão e a que horas regressarão.

- Eu os amei o suficiente para não ter ficado em silêncio e fazer com que vocês soubessem que aquele novo amigo não era boa companhia.

- Eu os amei o suficiente para os fazer pagar as balas que tiraram do supermercado ou revistas do jornaleiro, e os fazer dizer ao dono: "Nós pegamos isto ontem e queríamos pagar".

- Eu os amei o suficiente para ter ficado em pé junto de vocês, duas horas, enquanto limpavam o seu quarto, tarefa que eu teria feito em 15 minutos.

- Eu os amei o suficiente para os deixar ver além do amor que eu sentia por vocês, o desapontamento e também as lágrimas nos meus olhos.

- Eu os amei o suficiente para os deixar assumir a responsabilidade das suas ações, mesmo quando as penalidades eram tão duras que me partiam o coração.

- Mais do que tudo, eu os amei o suficiente para dizer-lhes NÃO, quando eu sabia que vocês poderiam me odiar por isso (e em alguns momentos até odiaram).

Essas eram as mais difíceis batalhas de todas. Estou contente, venci...

Porque no final vocês venceram também!

E em qualquer dia, quando meus netos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e mães; quando eles lhes perguntarem se sua mãe era má, meus filhos vão lhes dizer: "Sim, nossa mãe era má. Era a mãe mais má do mundo...

As outras crianças