Principal
 Fale comigo
acorda!
amizade
amores
ansiedade
auto-estima, perdão e aceitação
compaixão & generosidade
cura & saúde!
delícias
depressão/tristeza
desapego
do riso & bom humor
entrevistas
envelhecendo
espiritualidade
estorinhas
felicidade & alegria
FRASES
inveja
mães, pais & filhos
magias e astrologias
meditação
medo & pânico
menopausa & TPM
mulheres
o alheio e a nossa vida
o poder do desejo
piegas? que nada!
preste atenção!
resiliência
rigidez & intolerância
uia!
janeiro 2009
dezembro 2008
novembro 2008
agosto 2008
julho 2008
junho 2008
maio 2008
março 2008
fevereiro 2008
janeiro 2008
outubro 2007
setembro 2007
agosto 2007
julho 2007
junho 2007
maio 2007
abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
outubro 2006
setembro 2006
dezembro 2005
novembro 2005
outubro 2005
setembro 2005
agosto 2005
julho 2005
 
   
  12.01.09- CANTIGA DO BEM-QUERER PARA O ANO NOVO

Ricardo Alcântara

sunset_kraftazaleapark_goldenlight22_600.jpg

Deseje.
Um doce. Um beijo. Um dia de sol.
Deseje mais.
Deseje uma família feliz, saúde e paz, deseje conforto e segurança.
E se desejo lhe sobrar,
Deseje passar a primavera em Paris, um verão em Bora Bora.
Um dia que seja, deseje contemplar uma aurora boreal - Você vai gostar!
Deseje não ter desejos, até.
Mas deseje!
Não viva a vida como um horizonte inatingível
Porque ela não foi criada para ser vivida assim.
Tudo em nossa volta foi construído para os desafios do desejo.
Mas não esqueça, por favor, não esqueça:
De sentir prazer com as coisas simples da vida,
De lutar em primeiro lugar pelo que você realmente precisa,
De conquistar o que você quer sem prejudicar as pessoas
E, sempre que possível, compartilhar
Parte dos seus benefícios com o próximo.
Por fim, se não for muito pedir,
Lembre-se de ser grato por tudo,
Pois isso vai fazer de você uma pessoa mais feliz.
É o que eu lhe desejo agora, e desejo de coração.

Posted by Lilia at 05:42 PM|Comments (0)
 
  24.10.07- NO OCEANO DO GRANDE ANÔNIMO

Wagner Borges

oceanograndeanonimo_ lakevirginia_sunset23october.jpg Quando o lótus do coração se abre, tudo muda.
Antigas dores são curadas na florescência do Ser na luz.
O pequeno eu se curva ao Grande Imanente que permeia a tudo.
Então, o Grande Amor faz a canção da alma acontecer, naquela inspiração que homem algum poderá perceber com os sentidos da carne.
A gota do pequeno eu da personalidade se funde no oceano do Grande Anônimo.
E aí, as pequenas coisas da vida se tornam eventos extraordinários, plenos de contentamento.
Ver uma florzinha na beira da estrada se torna um momento maravilhoso.
Assistir um pôr-do-sol é um deleite...
Rir sem compromisso, igual criança arteira, é tornar-se uno com Krishna!
Ver o Supremo em tudo e amar a vida é tornar-se uno com Jesus!
Pensar na paz e na fraternidade é tornar-se uno com o Buda!
Ah, o coração que se abre na luz do Grande Amor, jamais será o mesmo!
Ele escuta a canção do Grande Anônimo e se encanta com a pequena flor, o pôr-do-sol e o sorriso.
Ele compreende o sorriso de Krishna, o amor de Jesus, e a serenidade de Buda...
Ele sabe que o tempo das mágoas e das dores se foi...
Ele sente o abraço do Inefável!
Ele escuta as vozes dos espíritos no vento da vida, que sempre falam da imortalidade da consciência.
Ele não vê vácuo algum, em nada, mas a plenitude do Todo em tudo!
Não há vacuidade nem idéia de morte em seus caminhos...
Ele vê o mesmo Imanente Invisível em cada olhar e em cada flor.
Ele sabe que o Supremo vive em cada ser, moço ou velho, alto ou baixo, branco ou negro.
Isso porque ele escuta a canção em seu coração...
Isso porque o seu pequeno eu se curvou ao Grande Anônimo e mergulhou no oceano de estrelas.
E quem poderá compreender tal coisa, a não ser alguém que também abriu o lótus do coração e diluiu suas mágoas e dores no abraço secreto do Supremo?
Talvez, alguém que também escute as vozes dos espíritos de luz no vento da vida, que sopra por onde quer...
Talvez, apenas alguém que ame a vida...
Ou, aquele que também se admira com o pôr-do-sol, o sorriso e a florzinha na beira da estrada...
Ou, simplesmente, alguém que consegue sentir, de coração, a luz secreta que viaja nas linhas de um texto.
(Dedicado a Huberto Rohden e Sry Aurobindo)

Fonte: recebi por email e não achei publicado ainda na internet.
[Imagem: lilia lima]

Posted by Lilia at 02:32 PM|Comments (0)
 
  28.09.07- Nosso medo mais profundo

Marianne Williamson

nossomedomaisprofundo_mountainhotel3_manyglacierpark_300.jpg

Nosso medo mais profundo é que somos poderosos além de qualquer medida.
É a nossa luz, não as nossas trevas, o que mais nos apavora.

Nós nos perguntamos: quem sou eu para ser brilhante, maravilhoso, talentoso e fabuloso?
Na realidade, quem é você para não ser?
Você é filho do Universo. Você se fazer de pequeno não ajuda o mundo.
Não há iluminação em se encolher, para que os outros não se sintam inseguros quando estão perto de você.
Nascemos para manifestar a glória do Universo que está dentro de nós.
Não está apenas em um de nós: está em todos nós.
E conforme deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo.
E conforme nos libertamos do nosso medo, nossa presença, automaticamente, libera os outros.

[foto: lilia lima]

Posted by Lilia at 06:34 PM|Comments (0)
 
  22.08.07- LUXOS

Edilce de Carvalho

luxos_liliatapetepetalas_frentecasa.jpg Tenho poucos luxos.
Gosto de casa pequena
terreno no alto
no meio do mato
com vista comprida.
Móveis, quase não ligo.
Gosto de penteadeira, cômoda
porta-chapéu e guarda-comida.
Fogão à lenha
caçarola preta de estimação
chaleira que não se lava
e panela de pedra-sabão.
Meu gosto é singelo.
Gosto de tramela de pinho de riga
trinco de ferro batido
calha de cobre
banheira com pezinho
bota velha
e telhado com muita viga.
Gosto também de aroeira torta
pé direito baixo
chão de cimento queimado
parede de adobe ou de pau-a-pique.
Não tenho tantos luxos assim.
Vinho tinto com queijo
caixa de música e realejo.
Minha leitura é pouca para os dias de hoje.
Me baseio no que vejo
escuto a voz do coração
resolvo tudo com emoção.
De jardim, o que sei
tento imitar a natureza.
mas meus filhos,dá gosto de ver
parecem vindos da realeza.
Falam inglês,nadam bem
e foram educados em boas escolas.
Eu, por minha vez, não falo inglês
não nado bem
e fui educada na escola da vida.
E por estar sempre atenta
feito jaguatirica ao amanhecer
sou arisca
manhosa e tinhosa, mesmo sem querer ser.
Nessa vida já fiz quase tudo que queria.
Plantei árvores com a própria mão
e amassei muito pão.
Como fui aluna aplicada
dizem que minha vida foi merecida.
Na verdade,
foi muita sorte.
Fui muito amada
e tive mais que merecia.
Nasci predestinada.

[Edilce de Carvalho, mineira de Lavras, jardineira, mãe da Jô e do Dani, vó do Noah e da Gaia. Poeta.
Poema Luxos, extraído do seu livro "ainda" não publicado Pão de Queijo com Pernil.
Fonte: Cosmonauta

Posted by Lilia at 11:02 AM|Comments (0)
 
  10.07.07- ESCUTATÓRIA

RUBEM ALVES

escutatoria_butterflymolch2_july15_meadepark_350.jpg Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma".

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.

Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios.

Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem.

Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.

Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".

Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou".

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.

No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Fonte: Luciano Pires
[Imagem: foto lilia lima]

Posted by Lilia at 04:17 PM|Comments (0)
 
  26.06.07- A FARSA ESPIRITUAL DO PENSAMENTO POSITIVO

Ferrari

woodpecker_stgeorgeisland_2007memorialday_240.jpg A poucas semanas do vestibular, o professor de português me aconselha:
"Se você quiser passar na prova de redação, diga que o copo está meio vazio, de preferência, ou então, meio cheio, mas, em hipótese alguma, diga que o copo com água é apenas um copo com água, entende? Nunca se mostre contente com a realidade".

Eu lhe perguntei qual era o problema em se mostrar contente com a realidade e recebi a seguinte resposta: "Felicidade tem gosto de leite desnatado e não convence o paladar da serpente."
Meu professor, por ser professor, estava me aconselhando a escrever como ele escreveria, adulto, crítico, cítrico, cético, Freud, Shopenhauer, Dart Vader, pois só assim eu agradaria uma língua de duas pontas que não tem apetite nem enzimas para apreciar a vida como ela é.

A frase ecoou no meu peito: "felicidade não convence o paladar da serpente". Neste dia, ficou claro pra mim, que no mundo racionalista, ver pêlo em copos e fazer tempestade dentro deles, é sinônimo de grande inteligência racional, pois depõe a favor de uma alma que está comendo o fruto do bem e do mal. Porém, ver a realidade pelada e aceita-la em paz de espírito, é burrice, pois só ocorre aquelas almas fracas que insistem em não cair em tentação (racional). Ou seja, no mundo racionalista, um copo com água não pode ser apenas o que é: um copo com água. O copo "tem que" estar meio cheio ou meio vazio. A realidade "tem que" entrar dentro do copo-bem ou do copo-mal.

Todo racionalista se intitula realista. Eu pergunto: que realidade é esta que só os racionalista vêem?
Qualquer verdade humana é como aquela brincadeira de procurar formas nas nuvens: elefante, pingüim, flor, baleia, infortúnio, aprendizagem, sorte, azar.
Então, quando enxergamos o copo meio cheio, somos otimistas.
Quando enxergamos o copo meio vazio, somos pessimistas. Porém, note: em ambos os juízos (otimismo e pessimismo) a consciência é obrigada a ignorar a árvore da vida e cravar os dentes nos frutos da árvore do bem e do mal (dualismo). No pessimismo, saboreamos um fruturo do mal. No otimismo, saboreamos um fruturo do bem. Mas que realidade tem o sabor otimista e pessimista se nenhum deles é o fruto-presente?

Otimismo e pessimismo são as duas margens de um mesmo pecado: comer o fruto da árvore do bem e o mal.
O caminho para a felicidade não é percorrido através da escolha do "raciocínio certo" frente ao "raciocínio errado", mas através da transcendência do certo e do errado, do bem e do mal.
É por isto que o caminho da transcendência não é o caminho da cultura, nem da contra-cultura, mas retorno a inocência.
Eis o livre-arbítrio, com suas duas opções de visão frente a vida e sempre pronto para nos levar de volta ao éden: positivismo ou negativismo.

Mas é preciso tomar cuidado, pois positivismo não é "pensamento positivo" e negativismo não é "pensamento negativo".
Positivismo é aceitar o presente, apesar do embrulho.
Negativismo é recusar o presente por causa do embrulho.

Quando focamos o presente, eterno, fixo, imutável, palco dos acontecimentos transitórios, mesmo que o presente venha embrulhado em julgamentos de bem/mal, certo/errado, aceitamos ingenuamente o presente e somos felizes, pois sabemos que o embrulho dual é ilusão.
Quando mudamos o foco do presente para o embrulho (bem ou mal), a transcendência deixa de acontecer, o presente é negado como paraíso, logo, negativismo.

Negativismo é resistência a vida. É separar a unidade, é identificação com um dos lados do copo, é focar o bem "ou" o mal.
Positivismo é aceitação. Positivismo é transcender a separação, transcender os lados, é focar o bem "e" o mal.
Por exemplo, uma pessoa vai procurar os chinelos debaixo da cama onde os deixou e não os encontra. Logo surgem julgamentos de valor e de como a realidade deveria ser diferente do que está sendo.
Se a pessoa se identifica com estes pensamentos, congela o presente e surge a resistência de negar o fluxo da vida.
Porém, se a pessoa mantém sua atenção focada no presente, mesmo que surjam julgamentos de valor e de como a realidade deveria ser diferente do que está sendo, esta pessoa está sendo positivista, pois está aceitando o fluxo do presente incondicionalmente.

Olhar para a realidade e não corporifica-la em problemas pode parecer burrice, agora, vai explicar isso pro coração, um órgão que trabalha vinte e quatro horas por dia sem remuneração e cantarolando What a Wonderful World.
Como toda criança, também nasci sabendo que a vida é bela. Depois, pra ser aceito no clube dos intelectuais, passei pro lado racionalista da força. É a fantástica fabrica de chocolate dos adultos, feita com sorvetes de parafuso,
bombons de maumau, bolos de estresse, pirulitos de medo, tortas de rancor e milkshake de autoflagelação.

Mas admito que o sabor ácido que meu professor disse realmente serve de alimento as cobras e lagartos, nossas e alheias. Assim, durante algum tempo, segui sabido, ardido, revestido com folhas de parreira e juiz do bem e do mal. Até que um dia choveu e as folhas caíram.
Não sei explicar o que eu entendi do que a nuvem me disse. Não foi um discurso racional. Foi absurdo. Mas era como um rosto que refletia o sentimento de ser um velhinho e um menino ao mesmo tempo, e que se traduzia num sorriso. A vida voltou a ser bela.

Ah! Não passei no vestibular.

Fonte: Pegando Buda para Cristo

[Imagem: foto Lilia Lima]

Posted by Lilia at 02:43 PM|Comments (0)
 
  23.05.07- A Alegria na Tristeza

Martha Medeiros

alegrianatristeza_desertflower.jpg O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.
Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença
contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.

Fonte: JC Online
[Imagem: foto Lilia Lima]

Posted by Lilia at 12:20 PM|Comments (0)
 
  03.10.06- Almas perfumadas

Ana Cláudia Saldanha Jácomo
(Para minha avó Edith)

almaperfumada_georgiaokeeffe_whiterosewithlarkspur.bmp Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas,pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.

Costumo dizer que algumas almas são perfumadas, porque acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Minha avó era alguém assim. Ela perfumou muitas vidas com sua luz e suas cores. A minha, foi uma delas. E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que ela mudou de frasco, mas ele continua vivo no coração de tudo o que ela amou. E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desse perfume de Deus, que, numa temporada, se vestiu de Edith, para me falar de amor.

[Ana Cláudia Saldanha Jácomo lançou recentemente seu primeiro livro, "Parto de Mim", uma produção independente.]

fonte: releituras

[Imagem: Georgia O'Keeffe, "Whith Rose with Larkspur"]

Posted by Lilia at 09:48 PM|Comments (0)
 
  16.09.05- DEPOIS DE ALGUM TEMPO

William Shakespeare

depoisdealgumtempo-ClaudeMonet-Nympheas.jpg Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar a alma.
E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.
E começa aprender que beijos não são contratos, e que presentes não são promessas.
E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e os olhos adiante, com graça de um adulto e não a tristeza de uma criança.
E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair meio em vão.
Depois de algum tempo, você aprende que o sol queima, se ficar a ele exposto por muito tempo.
E aprende que, não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam...
E aceita que, não importam quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo (a) de vez em quando, e você precisa perdoa-la por isso.

Aprende que falar pode aliviar dores emocionais. Descobre que leva-se anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá para o resto da vida.
Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer, mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos, se compreendermos que os amigos mudam. Percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobre que as pessoas com que você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso, devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm muita influência sobre nós, mas que nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que você pode ser.
Descobre que leva muito tempo para se chegar aonde está indo, mas que, se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.
Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.
Aprende que paciência requer muita prática.
Descobre que algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute, quando você cai, é uma das poucas pessoas que o ajudam a levantar-se.
Aprende que a maturidade tem mais a ver com tipos de experiências que se teve e o que se aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou.
Aprende que há mais de seus pais em você do que você supunha.
Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes, e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprende que quando está com raiva, tem direito de estar com raiva, mas isso não lhe dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama mais do jeito que você quer não significa que esse alguém não o ame com todas as forças, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, e que algumas vezes, você tem que aprender a perdoar a si mesmo.
E que, com a mesma severidade com que julga, será em algum momento condenado.
Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára, para que você junte seus cacos.
Aprende que o tempo não é algo que se possa voltar para trás.
Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.
E você aprende realmente que pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir mais longe, depois de pensar que não pode mais. E que realmente a vida tem valor diante da vida.

Fonte: Cuidar do Ser
[Imagem: Claude Monet, "Nympheas"]

Posted by Lilia at 01:04 PM|Comments (0)
 
  17.08.05- A Complicada Arte de Ver

Rubem Alves

complicadaartedever-bernardomagalhaes.jpg Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".

Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...

Fonte: Folha de São Paulo

[Imagem: Bernardo Magalhães peguei aqui

Posted by Lilia at 10:29 AM|Comments (2)
 
  06.08.05- Artes Culinárias

Marcia Frazão

arteculinaria-linda-paul-french_country_kitchen.jpg Depois das refeições, Vitalina recolhia-se à cozinha. Lavava a louça, enxugava os pratos, arrumava os talheres na gaveta, sacudia a toalha de mesa e pendurava o pano de prato no varal do quintal. Depois, servia-se de um cálice de vinho do Porto, acendia um cigarro, sentava-se à velha mesa e ligava o rádio. As notas de Moon Light Serenade aninhavam-se no bolso de seu avental que não era sujo de ovo, mas guardava estrelas. Sílvio Caldas, talvez por ciúmes de Duke Ellington ou por não resistir a um regaço moreno, aveludava ainda mais a voz e cantava só para ela.
Vitalina gostava desses galanteios.

Cresci dentro de uma cozinha que cantava e recitava trechos de antigas novelas. Por premonição estética ou por vergonha de não saber ler, Vitalina tinha na cozinha (para ser usado no futuro) um grosso volume de poesias de Cruz e Souza. Não sabia decifrar as letras, mas aprendera a gostar do moço que dentro do livro morava. Ah, o livro! Um livro que aprendeu a falar à medida que na escola eu conhecia as letras. E, quando cheguei ao Z e ao domínio dos verbos, dos pronomes, das conjunções, dos hiatos e dos objetos diretos e indiretos, o moço do livro soltou a fala. Disse que era um poeta. Vitalina gostou tanto de suas palavras, que lhe pediu para trazer os amigos "para uma prosinha". O moço não se fez de rogado e trouxe um animado bando que, num piscar de olhos, transformou a velha cozinha num recanto boêmio. Todos os dias, enquanto Vitalina refogava o feijão ou assava um bolo, lá se reuniam Neruda, Eluard, Camões, Castro Alves, Gregório de Matos, Rimbaud, Allen Ginsberg, Baudelaire, Elisabeth Bishop, Pound, Augusto dos Anjos, Dorothy Parker, Lorca... para beber licor de jenipapo ao som da Rádio Nacional e das histórias que Vitalina tão bem narrava.

O endereço da boemia espalhou-se, e vieram os pintores. Picasso ficou maluco com os potes de barro que Vitalina ganhara de Mestre Vitalino. Dali levou Gala. Goya chegou desacompanhado. Degas apareceu com umas bailarinas. Vieram muitos, aos bandos. Os atores chegaram por último (trabalhavam até tarde), acompanhados por amigos cantores. Maria Callas chegou com Theda Bara, uma chegada triunfal; Callas nas vestes de Medéia, e Theda nas de Cleópatra. Procópio Ferreira surgiu com um querubim baixinho chamado Grande Otelo; Cacilda Becker com Pixinguinha e Donga; Fernanda Montenegro com uma nereida chamada Chiquinha Gonzaga. E foram tantos que lá foram, que eu poderia jurar que Eurípedes e Shakespeare também por lá apareceram.

Aos domingos, as mulheres da minha família se reuniam, e Vitalina narrava as artes da boemia. Ninguém se espantava. Afinal, eram bruxas, e se bruxas podiam voar em vassouras por que seria impossível poetas saírem dos livros, pintores surgirem das telas, atores reprensetarem à mesa e cantores fugirem dos discos? Não, as "artes" não eram nada improváveis.

Os anos se passaram e a boemia cresceu. Vieram os vizinhos e em pouco tempo o bairro inteiro. Vitalina cozinhava e o improvável acontecia. Os noivos se casavam, os feios embelezavam, os malvados adocicavam, e os velhos rejuvenesciam.

Um dia, Deus, que já estava cansado (e com ciúmes) de ouvir as histórias da tal boemia, não resistiu ao cheirinho do bolo que Vitalina assava e a chamou para viver com Ele. Vitalina aceitou o convite e fez de Deus sua última conquista. Dizem que ela foi a primeira a conquistá-Lo pela boca!

Fonte: tribuna do sol

[Imagem: Linda Paul, French Country Kitchen]

Posted by Lilia at 09:09 AM|Comments (2)
 
  04.08.05- TUDO O QUE EU PRECISAVA REALMENTE SABER, APRENDI NO JARDIM DA INFÂNCIA

Robert Fulghum – Trad. Ernesto H. Simon

tudojardiminfancia-Maud-Lewis-The-Schoolyard.jpg Grande parte do que eu realmente preciso saber sobre a vida, o que fazer, como ser, eu aprendi no jardim da infância.

Não foi na universidade nem na pós-graduação que eu encontrei a verdadeira sabedoria, e sim no recreio do jardim da infância. Foi exatamente isto que aprendi: compartilhar tudo, brincar dentro das regras, não bater nos outros, colocar as coisas de volta no lugar onde as encontrei, limpar a própria sujeira, não pegar o que não era meu, pedir desculpas quando machucava alguém, lavar as mãos antes de comer, puxar a descarga do banheiro.

Também descobri que café com leite é gostoso, que uma vida equilibrada é saudável e que pensar um pouco, aprender um pouco, desenhar, pintar, dançar, planejar e trabalhar um pouco todos os dias, nos faz muito bem. Tirar uma soneca todas as tardes, tomar muito cuidado com o trânsito, segurar as mãos de alguém e ficar juntos, são boas formas de enfrentar o mundo.

Prestar atenção em todas as maravilhas e lembrar da pequena semente que, um dia, plantamos em um copo de plástico. As raízes iam para baixo e as folhas iam para cima mas ninguém realmente sabia nem porquê. Mas nós somos assim!

Peixinhos dourados, hamsters e ratinhos brancos; e até mesmo a pequena semente do copo de plástico, tudo morre um dia. E nós também.

Tudo que você realmente precisa saber esta aí. Faça aos outros aquilo que você gostaria que eles fizessem para você. Amor, higiene básica, ecologia e política contribuem para uma vida saudável.

Penso que tudo seria melhor se todos nós - o mundo inteiro - tomássemos café com leite todas as tardes e descansássemos um pouquinho abraçados a um travesseiro. Ou se tivéssemos uma política básica em nossa nação e em todas as coisas também, para sempre colocarmos as coisas de volta ao lugar onde as encontramos, limpando nossa própria sujeira. E ainda é verdade que, seja qual for a idade, - o melhor é darmos as mãos e ficarmos juntos!

Fonte: Folha de São Paulo

[Imagem: Maud Lewis, "The Schoolyard"]

Posted by Lilia at 07:45 AM|Comments (0)
 
  03.08.05- O CAÇULA

Fabrício Carpinejar

ocacula-kimparker-augustgarden.jpg Sou o filho do meio. Pensando bem, nem do meio. Sou o penúltimo filho de número par. Mas não posso deixar de invejar o caçula. Uma inveja do bem, mais admiração e respeito do que ciúme. O caçula é o que ficará mais triste quando a casa está triste, é o que ficará mais alegre quando a casa está alegre. É a tomada, o trinco, a aldrava, o último a deixar a mesa, o último a trocar de quarto, o último a sair da residência, o último a casar, o último a receber as más notícias e o primeiro a descobrir as boas. Não é o mais mimado, todos os demais cresceram muito rápido e ele foi o raro que permaneceu perto dos pais. O caçula é o mais ponderado, ordeiro, generoso. Limpa a sujeira e se cala quando não formou opinião. Escapa dos vícios dos mais velhos, tampouco faz de si uma virtude. É a vítima da piada, não o algoz. Não devolve a ofensa, guarda para adubo. O caçula é nostálgico, o que viveu nunca será suficiente para se convencer de vida. O caçula é o filho inesperado, o amor inesperado, a amizade inesperada. Não tem jeito de profeta, tem jeito de profecia. Seria o anjo da família se não houvesse castigo. Seria o anjo da família se houvesse tempo. O caçula não tem vergonha de amar a mãe. Tem disciplina de amar. A mãe envelhece perante os demais, não para o caçula. O caçula não permite o asilo. Pode ser homem feito que continuará o caçula. É ele que colocará uma coberta de noite quando a mãe dorme. É ele que vai se distanciar do grupo para colher amoras para a mãe. É ele que vai arrumar o computador da mãe quando os outros dizem que estão ocupados. É ele que virá de longe para os aniversários. É ele que telefonará aos seus irmãos perguntando se precisam de alguma coisa. É ele que perdoará o pai com o fim do casamento. A família desmorona, mas o caçula não. Recomeça dos escombros como um animal resistente. A vitória do caçula é vista como obrigação. O caçula não culpa os outros, culpa a si mesmo. Não corrige, passa a limpo. O caçula dá a mesada que recebe, reparte o salário que não tem. É o sótão, a vitrola, os móveis antigos, enxerga fantasmas, porém não delata o que vê. O caçula abraça como se fosse uma despedida. Chega a doer o abraço do caçula. Dor alegre de irmão que não quer se separar. O caçula é o mais fiel dos amigos, pois deve ter sido o único que conheceu realmente a solidão. Duvida até da morte para se aproximar um pouco. O caçula acredita em qualquer lembrança contada que tenha seu nome e desconfia de qualquer lembrança que partiu de sua memória. O caçula é dos filhos o que não se acostumou a nascer.
[imagem: Kim Parker, "August Garden"]

Posted by Lilia at 09:21 AM|Comments (1)
 
  28.07.05- A Alma dos Diferentes

Artur da Távola

almadiferente-fridakahlo-self-portrait.jpg Ah, o diferente, esse ser especial!

Diferente não é quem pretenda ser. Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.

Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para os outros. Que riem de inveja de não serem assim. E de medo de não agüentar, caso um dia venham, a ser. O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.

O diferente nunca é um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas. Um diferente medroso, este sim, acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente que não vingou.

Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro. Diferente que se preza entende o porque de quem o agride. Se o diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.

O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano. O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.

O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura. O que é percepção
aguçada em: "Puxa, fulano, como você é complicado". O que é o embrião de um estilo próprio em : "Você não está vendo como todo mundo faz? "

O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba incorporando. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram ( e se transformam) nos seus grandes modificadores.

Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham. É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde outros cansam.
Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito rotiniza. Sofre onde os outros ganham.

Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera. Aceita empregos que ninguém supõe. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar. Ele aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a média é má porque é igual.

Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados, magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo, excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba. Aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.

A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes.

Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja uficientemente forte para suporta-lo depois.

Fonte: Proarte Cultural

[Image: Frida Kahlo, "Self Portrait"]

Posted by Lilia at 09:28 PM|Comments (1)
 
  22.07.05- Se eu fosse eu

Clarice Lispector

seeufosseeu-clarisse.jpg Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser LOCOMOVIDA do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.

Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Fonte: Nenhuma Flor

[Imagem: peguei daqui

Posted by Lilia at 08:45 PM|Comments (2)
 
  20.07.05- AMOR SÓ DE LETRAS

Mário Prata
amorletras.gif Conta a história que dom Pedro II casou-se sem conhecer a sua noiva.

Tinha visto um quadro com a cara da princesa. Casamento de interesses políticos lá dos portugueses, fazer o que? E quando a moça chegou no porto do Rio de Janeiro - consta que ele fez uma cara emocionada. Pela feiúra da imperial donzela. Mas casou, era o destino, era a desdita.

Tenho um avô que foi pedir mão da moça e o pai dela disse: - Essa tá muito novinha. Leva aquela.

E ele levou aquela que viria a ser a minha avó. Ah, a outra morreu solteirona.

Quando aconteceu o grande boom da imigração japonesa, alguns anos depois, familiares que lá ficaram mandavam noivas para os que cá aportaram.

Tudo no escuro. E de olhinhos fechados, ainda por cima.

De uns tempo para cá, o conceito da escolha foi mudando. Até ir para a cama antes, valia. Ficava-se antes.

Só que agora, finzinho do finzinho do século, surgiu um outro tipo de casamento. O casamento de letras. Letras de textos. O texto - finalmente, digo eu, escritor - virou casamenteiro. Apaixona-se, hoje em dia, pelo texto. Via internet. Via cabo, literalmente.

Conheço quatro casos bem próximos. Gente que desmanchou o casamento de carne e osso por uma aventura no mundo das letras.

Claro que estou me referindo aos encontros via Internet. Começa no chat, com o texto. Gostou do texto, leva para o reservado. E lá, rola. Eu mesmo já me envolvi perdidamente por dois textos belíssimos. Moças de vírgulas acentuadas, exclamações sensuais e risos de entortar qualquer coração letrado ou iletrado.

Sim, pela primeira vez nesta nossa humanidade já tão velhinha, as pessoas estão se conhecendo primeiramente pela palavra escrita. E lida, é claro.

Já disse, isso envaidece qualquer escritor. Agora, o texto pode levar ao amor. Uma espécie de amor-de-texto, amor-de-perdição.

A relação, o namoro, começa ali no monitor. Você pode passar algumas horas, dias e até semanas sem saber nada da outra pessoa. Só conhece o texto dela.

E é com o texto que vai se fazendo o charme. Você ainda não sabe se a pessoa é bonita ou feia, gorda ou magra, jovem ou velha. E, se não for esperto, nem se é homem ou mulher. Mas vai crescendo uma coisa dentro de você. Algo parecidíssimo com amor. Pelo texto.

Pouco a pouco, você vai conhecendo os detalhes da pessoa. Idade, uma foto, a profissão, a cor. Inclusive onde mora. Sim, porque às vezes você está levando o maior lero com o texto amado e descobre que ele vem lá da
Venezuela. Ou do Arroio Chuí.

Mas se o texto for bom mesmo, se ele te encanta de fato e impresso, você vai em frente. Mesmo olhando para aquela fotografia - que deve ser a melhor que ela tinha para te escanear (ou seria sacanear, me perdoando o trocadilho fácil) você vai em frente. "Uma pessoa com um texto desses..."

A tudo isso o bom texto supera.

Quando eu ouvia um pai ou mãe dizendo "meu filho fica horas na Internet", todo preocupado, eu também ficava. Até que, por força do meu atual trabalho, comecei a navegar pela dita suja.

E descobri, muito feliz da vida, que nunca uma geração de jovens brasileiros leu e escreveu tanto na vida. Se ele fica seis horas por dia ali, ou ele está lendo ou escrevendo. E mais conhecendo pessoas. E amando essas pessoas.

Jamais, em tempo algum, o brasileiro escreveu tanto. E se comunicou tanto. E leu tanto. E amou tanto.

No caso do amor ali nascido, a feitura, o peso, a cor, a idade ou a nacionalidade não importam. O que é mais importante é o texto. O texto é a causa do amor.

Quando comecei a escrever um livro pela internet, muitos colegas jornalistas me entrevistavam (sempre a mim e ao João Ubaldo) perguntando qual era o futuro da literatura pela Internet.

Há quatro meses atrás eu não sabia responder a essa pergunta. Hoje eu sei e tenho certeza do que penso: - Essa geração vai dar muitos e muitos escritores para o Brasil. E muita gente vai se apaixonar pelo texto e no texto.

Existe coisa melhor para um escritor do que concluir uma crônica com isso?

Como diria Shakespeare, palavras, palavras, palavras.
Como diria Pelé, love, love, love.

Posted by Lilia at 09:11 AM|Comments (0)
 
  Um Apólogo

Machado de Assis

umapologo-Renoir-lady-sewing.jpg Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

[Imagem: Renoir, "Lady Sewing"]

Posted by Lilia at 07:27 AM|Comments (0)
 
  18.07.05- A natureza do medo

Guimarães Rosa (*)

naturezadomedo-toddgipstein-shot-of-a-white-windmill-with-triangular-sails.jpg Quem muito se evita, se convive. Por todo o mal que faz, um dia se repaga, o exato. Quem que diz que na vida tudo se escolhe? O que castiga, cumpre também. Não convém a gente levantar escândalo de começo. Só aos poucos é que o escuro é claro.

Vingar é lamber, frio, o que o outro cozinhou quente demais. A cada hora de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo. Medo agarra a gente é pelo enraizado. Queria entender do medo e da coragem, do que empurra a gente por fazer tantos atos, dar corpos ao suceder. O que induz a gente para as más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito. E não sabe, não sabe, não sabe. O que medo é? Um produzido dentro da gente. Um depositado. E que às horas se mexe, sacoleja. A gente pensa que é por causas: por isso e aquilo, coisas que só estão é fornecendo espelho. Mas o cabedal é um só, do misturado de todos, que mal varêia e as coisas cumprem norma. Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para a gente. Mas, se a gente firme agüentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e trescobra, que até espanta. Acho que eu tinha conciso medo dos perigos. O que eu descosturava era o medo de errar. De cair na boca dos perigos por minha culpa. Hoje sei: medo meditado, foi isso. Medo de errar é que é a minha paciência. Pudesse tirar de si esse medo-de-errar, a gente estava salva.

(*) Adaptação livre de Zélia Nascimento de "Grande Sertão Veredas"
Publicado na revista JB Ecológico em 26 de maio de 2002

[Imagem: Todd Gipstein, "Shot of a White Windmill with Triangular Sails"]

Posted by Lilia at 08:18 AM|Comments (0)
 
  16.07.05- A América que amamos

Affonso Romano de Santana

andywarholmarilyn.jpg Não à América de Bush, Rumsfeld, Condolessa, Colin Power e Cheney. Sim à América de Louis Armstrong e sua voz com berrugas, que alisa e acaricia nossas almas.

Não à América dos mísseis cruzando oceanos e explodindo casas e corpos de desprotegidos civis.

Sim à América de Walt Whitman, peito amplo, voz fraterna, poesia imensa, querendo amar o mundo inteiro nos seus versos.

Não à América dos torturadores hoje no Iraque e ontem dando cursos de tortura para militares latino-americanos no Panamá.

Sim à América de Marilyn, Elvis e James Dean despassarados corpos e desejos imolados no brilho veloz dos refletores.

Não à América que sai em cruzada medieval ao Oriente Médio para matar os sarracenos e preservar com bombas eletronicamente conduzidas o santo sepulcro da hipocrisia.

Sim à América de Truman Capote, Saul Bellow, Philip Roth, Ray Bradbury, Normam Mailer, Allan Ginsburg ou de Gore Vidal denunciando nos ensaios e romances o pântano moral da Casa Branca.

Não à América que a cada geração abre vastos cemitérios para seus jovens, com o pretexto de "freedom" e "democracy", quando são interesses econômicos e políticos que encomendam as mortes.

Sim à América de Herman Melville e seu fabuloso "Moby Dick" - a inapreensível baleia branca, dramatizando a luta e a conquista do impossível.

Não à América que vai caçar armas de destruição em massa no quintal vizinho, quando sua casa está entulhada até o teto de armas capazes de dizimar vários planetas.

Sim à América de Hemingway em "O velho e o mar", de novo ensinando que na vitória está o fracasso e no fracasso a vitória

Não à América da Ku Klux Khan que tirou o capuz da cabeça e o botou na cabeça dos prisioneiros iraquianos e em Guantanamo revelando a dupla face do monstro americano.

Sim à América de William Faulkner que ao receber o Prêmio Nobel em 1950 já dizia que a tragédia de nosso tempo é viver numa atmosfera de medo, tão pesada que não podemos mais suportar.

Não à América de Bush que mente deslavadamente com o alucinado olhar de um tresloucado messias.

Sim à América de Nathaniel Hawthorne em "A letra escarlate" e Arthur Miller em "As feiticeiras de Salem" mostrando como uma comunidade imbuída de sentimentos salvacionistas pode levar sofrimento e morte aos demais.

Não à América de Bush arrancando gritos e lamentos dos nove mil presos que mantém pelo mundo afora tratando-os arrogantemente como ratos.

Sim à América de Ray Charles, Nat King Cole, Ella Fitzgerald, Chat Baker e todos os gênios do jazz americano improvisando sons novos e suavizando nossas almas com seus blues.

Não à América de Bush que reativou a velha fábula do lobo e do cordeiro e segue sujando de sangue as águas da nossa história.

Sim à América de Joan Baez e Bob Dylan que nos anos 60 saía às ruas e afrontava a estupidez das guerras e o tentacular poder de Washington.

Não à América que fez de cada americano um refém dentro de sua própria casa e fez do mundo inteiro refém do medo, por achar que a força resolve tudo.

Sim à América da imponderável Emily Dickinson, dos jogos verbais de Cummings ou da poderosa voz de Carl Sandburg falando da perplexidade do povo diante da História e num poema lembrou que houve um tempo em que o Czar tinha oito milhões de homens com fuzis e baionetas, que achava que nada poderia lhe acontecer e, no entanto, em 1914 e em 1917?

Não à América que transformou a morte alheia num jogo eletrônico e acha que pode invadir qualquer país quando bem lhe apetece e, de quebra, joga a ONU no lixo.

Sim, à América daquelas atrizes que nos faziam adolescentemente sonhar com suas pernas e bocas, de Cid Charisse à Rita Hayworth, de Dorothy Lamour a Ingrid Bergman.

Não à América de Bush.
Sim à América que bailava com Gene Kelly, Fred Astaire e Ginger Rogers, que mergulhava em piscinas kitsches e encantadas com Esther Williams.

Não à América que expulsou Chaplin, que desempregou artistas e jornalistas no período maccarthista, que voltou aos tempos da censura e autocensura.

Sim à América de Luther King e de todos os mártires do racismo, antes e depois de Langston Hughes, antes e depois de Paul Robson, antes e depois de Billie Holiday.

Não à América de Bush, esse cuja família manteve negócios misteriosos com a família Bin Laden, o que mostra que estamos lidando com uma serpente de duas cabeças.

Sim, à América de Eugene 0'Neill, quase tão alucinado quanto Nelson Rodrigues mostrando as vísceras de nossa alma e a América de Steinbeck mostrando as vísceras do país.

Não à América de Bush que troca a poluição do ambiente universal pelo enriquecimento de seus amigos texanos.

Sim à América de Henry Thoureau que estimulou a desobediência civil, que sonhou com um mundo em que a natureza fosse respeitada pelo homem.

Não à asfixiante América de Bush.

Sim à América do Grand Canyon, de Yosemith, daqueles cenários imensos dos filmes de caubói, pradarias, montanhas que enchiam os olhos de nossas adolescência

Não à América com discurso duplo e ambíguo falando de política liberal e praticando o protecionismo.

Sim ao chefe Touro Sentado que derrotou o general Custer em Rosebud e Little Big Horn e saiu pelo mundo em espetáculo itinerante com Buffalo Bill.

Não à América tenebrosa de Bush.

Sim à América de Edgar Allan Poe, tresloucado poeta, narrador assombroso, vasculhando os desvãos da perversidade humana.

Não à América dessas militares torturadoras que riem nas fotos gozando sadomasoquisticamente o que deveriam gozar de outro modo

Sim à América de Betty Friedman, Elaine Showalter e Germaine Green, feministas, com o dedo no gatilho, enfrentando os caubóis machistas na praça da aldeia.

Sim, à América de Orson Welles denunciando o poder, a intimidação da imprensa e dizendo sobre as mentiras oficiais: "It's all true".

Sim à América das fabulosas bibliotecas.
Sim à América das revolucionárias pesquisas que melhoram a vida humana.
Sim, à América de Gershwin e Cole Porter.

Sim, à América de Edward Hopper.
Sim à América de Chomsky e Ralph Nader.

Não à América medrosa e embriagada de messianismo texano de Bush.

[Imagem: Andy Warhol, Marylin]

Posted by Lilia at 07:51 PM|Comments (0)
 
  Um pouco de silêncio

Lya Luft.
Retirado do livro Pensar é Progredir.

silencio-coignard-james-silences-e.jpg Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade.
Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam conosco nem nos interessam. Não há perdão nem anistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço de sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência. O normal é ser atualizado, produtivo e bem-informado. É indispensável circular, estar enturmado. Quem não corre com a manada praticamente nem existe, se não se cuidar botam numa jaula: um animal estranho. Acuados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo - ou em trilhas determinadas - feito hâmsteres que se alimentam de sua própria agitação.
Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo, ameaça quem leva um susto cada vez que examina sua alma. Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não se arrumou ninguém - como se amizade ou amor se "arrumasse" em loja. Com relação a homem pode até ser libertário: enfim só, ninguém pendurado nele controlando, cobrando, chateando. Enfim, livre!
Mulher, não. Se está só, em nossa mente preconceituosa é sempre porque está abandonada: ninguém a quer.
Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude. Logo pensamos em depressão: quem sabe terapia e antidepressivo? Criança que não brinca ou salta nem participa de atividades frenéticas está com algum problema.
O silêncio nos assusta por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incômodas e mal resolvidas, ou se enxerga outro ângulo de nós mesmos. Nos damos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre casa, trabalho e bar, praia ou campo.
Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo além desse que paga contas, transa, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais seus desejos e medos, seus projetos e sonhos?
No susto que essa idéia provoca, queremos ruído, ruídos.
Chegamos em casa e ligamos a televisão antes de largar a bolsa ou pasta. Não é para assistir a um programa: é pela distração.
Mas, se a gente aprende a gostar um pouco de sossego, descobre - em si e no outro - regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente ruins.
Nunca esqueci a experiência de quando alguém botou a mão no meu ombro de criança e disse:
- Fica quietinha, um momento só, escuta a chuva chegando.
E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela a gente se refaz para voltar mais inteiro ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores. Então, por favor, me dêem isso: um pouco de silêncio bom para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.Silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconserto nosso. Com medo de ver quem - ou o que - somos, adia-se o defrontamento com nossa alma sem máscaras.

[Imagem: James Coignard, Silences E]

Posted by Lilia at 01:03 PM|Comments (0)
 
  15.07.05- Primeira Carta de Rainer Maria Rilke

cartarainer-Norman-Rockwell- Little-boy-writing-a-letter.jpg Paris, 17 de Fevereiro de 1903
Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, "Minha Alma". Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema "A Leopardi" talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente. Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.

(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por esse amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.
Com todo o devotamento e toda a simpatia,
Rainer Maria Rilke

fonte: Releituras do livro: Cartas a um Jovem Poeta

[Imagem: Norman Rockwell: Little boy writing a letter]


Posted by Lilia at 10:15 PM|Comments (0)
 
  O doido da garrafa

Adriana Falcão

doidogarrafa1.jpg Ele não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas as outras pessoas do mundo insistiam em dizer que ele era doido.

Depois que se apaixonou por uma garrafa de plástico de se carregar na bicicleta e passou a andar sempre com ela pendurada na cintura, virou o Doido da Garrafa.

O Doido da Garrafa fazia passarinhos de papel como ninguém, mas era especialista mesmo em construir barquinhos com palitos. Batizava cada barco com um nome de mulher e, enquanto estava trabalhando nele, morria de amores pela dona imaginária do nome. Depois ia esquecendo uma por uma, todas elas, com exceção de Olívia, uma nau antiga que levou dezessete dias para ser construída.

Batucava muito bem e vivia inventando, de improviso, músicas especialmente compostas para toda e qualquer finalidade, nos mais variados gêneros. Vai aí aquela da mulher de blusa verde atravessando a rua apressada, e o Doido da Garrafa imediatamente compunha um samba, uma valsa, um rock, um rap, um blues, dependendo da mulher de blusa verde, do atravessando, da rua e do apressada. Geralmente ficava uma obra-prima.

Gostava muito de observar as pessoas na rua, do cheiro de café, de cantar e de ouvir música. Não gostava muito do fato de ter pernas, mas acabou se acostumando com elas. De cabelo ele gostava. Em compensação, tinha verdadeiro horror a multidão, bermudão, tubarão, ladrão, camburão, bajulação, afetação, dança de salão, falta de educação e à palavra bife.

Escrevia cartas para ninguém, umas em prosa, outras em poesia, como mero exercício de estilo.

Tinha mania de dar entrevistas para o vento e já sabia a resposta de qualquer pergunta que porventura alguém pudesse lhe fazer um dia.

Ajudava o dicionário a explicar as coisas inventando palavras necessárias, como dorinfinita.

Adorava álgebra, mas tinha particular antipatia por trigonometria, pois não encontrava nenhum motivo para se pegar pedaços de triângulos e fazer contas tão difíceis com eles.

Conhecia mitologia a fundo.

Tinha angústia matinal, uma depressão no meio da tarde que ele chamava de cinco horas, porque era a hora que ela aparecia, e uma insônia crônica a quem chamava carinhosamente de Proserpina.

Sentia uma paixão azul dentro do peito, desde criança, sempre que olhava o mar e orgulhava-se muito disso.

Acreditava no amor, mas tinha vergonha da frase.

Às vezes falava sozinho, Preferia tristeza à agonia.

Todas as noites, entre oito e dez e meia, era visto andando de um lado para o outro da rua, método que tinha inventado para acabar de vez com a preocupação de fazer a volta de repente, quando achava que já tinha andado o suficiente. (Preferia que ninguém percebesse que ele não tinha para onde ir.) Enquanto andava, repetia dentro da cabeÇa incessantemente a palavra ecumênico sem ter a menor idéia da razão pela qual fazia isso.

Durante o dia o Doido da Garrafa trabalhava numa multinacional, era sujeito bem visto, supervisor de departamento, ganhava um bom salário e gratificações que entregava para a mulher aplicar em fundos de investimento.

No fim do ano ia trocar de carro.

Era excelente chefe de família.

Não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas sempre que ele passava as outras pessoas do mundo pensavam, lá vai o Doido da Garrafa, e assim se esqueciam das suas próprias garrafas um pouquinho.

Fonte: releituras

[Imagem: Getty Image]

Posted by Lilia at 09:29 AM|Comments (0)
 
  História dos Sentimentos

todossentimentos.bmp Os Sentimentos Humanos certo dia reuniram-se para brincar. Depois que o Tédio bocejou três vezes por que a Indecisão não chegava a conclusão nenhuma e a Desconfiança estava tomando conta, a Loucura propôs que brincassem de esconde-esconde. A Curiosidade quis saber todos os detalhes do jogo, e a Intriga começou a cochichar com os outros que certamente alguém ali iria trapacear.

O Entusiasmo saltou de contentamento e convenceu a Dúvida e a Apatia, ainda sentadas num canto, a entrarem no jogo. A Verdade achou que isso de esconder não estava com nada, a Arrogância fez cara de desdém pois a idéia não tinha sido dela, e o Medo preferiu não se arriscar: "Ah, gente, vamos deixar tudo como está", e como sempre perdeu a oportunidade de ser feliz.

A primeira a se esconder foi a Preguiça, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava. O Otimismo escondeu-se no arco-íris, e a Inveja se ocultou junto com a Hipocrisia, que sorrindo fingidamente atrás de uma árvore estava odiando tudo aquilo.

A Generosidade quase não conseguia se esconder porque era grande e ainda queria abrigar meio mundo, a Culpa ficou paralisada pois já estava mais do que escondida em si mesma,a Sensualidade se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem boba nem fingida; o Egoísmo achou um lugar perfeito onde não cabia ninguém mais.

A Mentira disse para a Inocência que ia se esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada, a Paixão meteu-se na cratera de um vulcão ativo, e o Esquecimento já nem sabia o que estavam fazendo ali.

Depois de contar até 99 a Loucura começou a procurar. Achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o Amor, com os olhos furados pelos espinhos.

A Loucura o tomou pelo braço e seguiu com ele, espalhando a beleza pelo mundo, desde então o Amor é cego e a Loucura o acompanha.

Juntos fazem a vida valer a pena - mas isso não é coisa para os medrosos nem os apáticos, que perdem a felicidade no matagal dos preconceitos, onde rosnam os deuses melancólicos da acomodação.

p.s. a autoria deste texto é polêmica. eu recebi como sendo um texto da terapeuta Martha Herzberg adaptado por Lya Luft. pesquisando achei blogs falando que o autor é desconhecido e foi enviado por Martha à Lya.

Posted by Lilia at 08:54 AM|Comments (0)